29 de maio de 2026. Nesse dia, a Federação Ganense de Futebol publicou uma lista de 26 nomes que, em teoria, deveria encerrar semanas de especulação sobre quem Carlos Queiroz levaria à Copa do Mundo. O nome que transformou a divulgação num caso de consciência estava na sétima linha da relação de meio-campistas: Thomas Partey, 32 anos, hoje no Villarreal CF, acusado de estupro e agressão sexual por diferentes mulheres na Inglaterra — supostos crimes ocorridos entre 2021 e 2022, período em que o jogador defendia o Arsenal FC.
A defesa de Queiroz e a metáfora que não convenceu a todos
Horas antes da lista ser tornada pública, Carlos Queiroz concedeu entrevista às vésperas do amistoso de Gana contra o País de Gales. O português, que já comandou seleções como Irã, Egito e Colômbia antes de assumir os Black Stars, foi direto: Partey tem direito à presunção de inocência e não deveria ser condenado antes de uma decisão definitiva da Justiça britânica. A posição, juridicamente defensável, veio acompanhada de uma imagem que chamou atenção:
"Deixemos o rio fluir, e um dia, quando o rio encontrar o oceano, vamos encontrar a verdade."
A metáfora fluvial de Queiroz pode soar poética, mas encontrou resistência imediata de grupos de defesa das vítimas de violência sexual no Reino Unido, que argumentam que a convocação normaliza a presença de um investigado em um palco global como o Mundial. O jogador, por sua vez, nega todas as acusações e se declarou inocente perante a Justiça britânica — processo que, até a publicação desta matéria, não havia chegado a uma conclusão definitiva.

A distância entre o que a lei permite e o que a opinião pública tolera é, neste caso, algo da ordem de continentes — comparável à diferença entre Manaus e Salvador em termos de perspectiva: dois pontos do mesmo país que raramente falam a mesma língua ao mesmo tempo.
O peso do passado e o que Partey representa para Gana
Thomas Partey estreou pela seleção ganense em 2016 e acumula mais de 50 partidas pelos Black Stars. Foi peça central na campanha que levou Gana à Copa do Mundo do Catar em 2022, torneio no qual a equipe africana foi eliminada na fase de grupos após derrota por 2 a 0 para o Uruguai na última rodada — resultado que também eliminou os ganenses por diferença de gols. Antes disso, o volante viveu sua melhor fase europeia no Arsenal, clube pelo qual atuou de 2020 a 2024, acumulando 128 partidas na Premier League.
A saída do Arsenal para o Villarreal CF, no verão europeu de 2024, coincidiu com o avanço das investigações criminais na Inglaterra. O clube espanhol optou por mantê-lo no elenco durante a temporada 2025/2026, postura que o próprio Queiroz parece espelhar ao confirmar a convocação. Para Gana, Partey não é apenas um nome — é o jogador com maior valor de mercado do grupo e o principal organizador do meio-campo dos Black Stars.
O Grupo L e o que espera Gana em Toronto
A polêmica em torno de Partey chega num momento em que Gana tenta provar que pode ir além da fase de grupos pela primeira vez desde 2010, quando os Black Stars chegaram às quartas de final na África do Sul — e foram eliminados pelo Uruguai nos pênaltis, em episódio que ainda mobiliza memória afetiva no continente africano. No Mundial de 2026, a seleção ganense integra o Grupo L ao lado de Croácia, Inglaterra e Panamá.
A estreia está marcada para 17 de junho, em Toronto, justamente contra o Panamá — adversário considerado o mais acessível do grupo. A sequência, porém, reserva um encontro de alto simbolismo: Gana enfrentará a Inglaterra, país onde Partey responde às acusações criminais, numa data ainda a ser confirmada pelo calendário oficial da FIFA. O confronto, independentemente do resultado em campo, promete concentrar holofotes que vão muito além do futebol.
Carlos Queiroz tem até 17 de junho para convencer que sua aposta técnica e moral faz sentido. Thomas Partey tem o mesmo prazo para mostrar que consegue separar o peso jurídico que carrega das responsabilidades dentro de campo. Gana estreia na Copa do Mundo com um caso aberto na Justiça britânica e um técnico que apostou todas as fichas na presunção de inocência.










