— Mano, o Brasil terminou em 11º. Décima primeira! — Pior do que 1966? — Igual a 1966. Só o Mundial de 1934 foi pior.

Essa conversa aconteceu em milhares de bares pelo país nos últimos dias. E agora que a ressaca da eliminação para a Noruega nas oitavas de final começa a baixar, uma pergunta mais construtiva toma espaço: quem vem por aí?

ARGENTINA 3 X 2 EGITO | GOL ANULADO CAUSA REVOLTA | Seleção Copa | Copa do Mundo 2026 | sportv

O que os números da Copa revelam sobre o buraco tático a preencher

A campanha de 2026 foi, estatisticamente, um desastre de processo, não só de resultado. O Brasil terminou com 10 pontos, 10 gols marcados e saldo de +6 ao longo da competição — números que soam razoáveis até você lembrar que a seleção teve 34% de posse de bola contra a Noruega na partida decisiva. Isso não é acidente; é padrão.

Quando olhamos para métricas de pressão como o PPDA (passes permitidos por ação defensiva), o Brasil apresentou valores altos demais nas oitavas — o que significa que a equipe pressionava pouco e deixava o adversário circular com conforto. Um PPDA abaixo de 8 indica pressão alta eficiente; seleções como a Noruega e a Inglaterra operaram na faixa de 6 a 7 durante o torneio.

No campo ofensivo, o problema era o xG (expected goals) — a métrica que mede a qualidade das chances criadas, não apenas a quantidade. O Brasil gerou volume de finalizações, mas com xG baixo por chute, indicando que as chegadas eram periféricas, de fora da área ou em ângulos desfavoráveis. Faltou um atacante capaz de gerar progressive passes no terço final — bolas que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol — e criar desequilíbrio real dentro da área.

É exatamente aí que a renovação do ciclo faz sentido técnico, não apenas emocional.

Endrick e os jovens que Caetano prometeu chamar em setembro

O diretor de seleções da CBF, Rodrigo Caetano, foi direto ao sair do Galeão após a eliminação:

"A comissão já vai trabalhar em cima da lista larga mirando esses amistosos, que darão oportunidades para alguns que não estiveram na Copa do Mundo."

Os amistosos estão marcados para 25 e 29 de setembro, contra a Austrália, com possibilidade de um terceiro jogo na Ásia. São jogos sem pressão de resultado — o ambiente perfeito para testar nomes novos.

Endrick, mesmo tendo participado da Copa, sinalizou nas redes sociais que quer voltar mais forte. Em texto publicado dois dias após a eliminação, o atacante que vai defender o Real Madrid após meia temporada no Lyon escreveu:

"O orgulho pela nossa história e a esperança de voltarmos a conquistar o maior troféu vão continuar me guiando todos os dias, e em cada um, vou fazer o possível para estarmos juntos outra vez e mais fortes."

Aos 19 anos em 2026, Endrick terá 23 anos na Copa de 2030 — exatamente a idade em que atacantes costumam atingir o pico de rendimento combinando velocidade e maturidade tática. O próprio Caetano citou Rayan como outro exemplo de jovem que, até pouco tempo, ainda disputava categorias de base e já ganhou minutagem na Copa.

Quem mais pode aparecer? A lista larga de setembro deve incluir jogadores que ficaram de fora do Mundial por opção técnica ou por lesão. Nomes que atuam no Brasileirão 2026 com alto volume de ações defensivas progressivas — recuperações de bola em campo adversário — e bons índices de xA (expected assists) devem estar no radar da comissão de Ancelotti.

  • Perfil 1 — Meia de pressão alta: jogador com PPDA individual abaixo de 7, capaz de pressionar a saída de bola adversária. Faltou esse perfil no meio-campo da Copa.
  • Perfil 2 — Atacante de profundidade: alguém que gere xG acima de 0,15 por chute, buscando espaços nas costas da defesa. Endrick se encaixa, mas precisa de concorrência real.
  • Perfil 3 — Lateral com progressive passes: a seleção sofreu com laterais que não conseguiam progredir com a bola. Um lateral com mais de 6 progressive passes por 90 minutos mudaria o perfil ofensivo.

Como Ancelotti pode montar um ciclo mais estável rumo a 2030

Caetano foi claro sobre o que espera do próximo ciclo, e a frase mais reveladora foi essa:

"Muitos jogadores experientes não vão poder estar conosco na próxima Copa. Abre-se um espaço maior para os jovens, e tenho certeza de que a comissão técnica vai oportunizá-los e colocar a seleção novamente no rumo."

No futebol, como diz o ditado, quem não tem cão caça com gato — e a CBF, sem a geração de ouro dos anos 2000 e com Neymar na fase final da carreira, vai precisar descobrir novos protagonistas antes que a janela de 2030 se feche.

Quando Ancelotti usa uma base estável de jogadores jovens em clubes europeus de ponta, ele consegue implementar um sistema de pass network coeso — uma rede de passes onde cada jogador tem posições médias bem definidas e conexões previsíveis com os companheiros. Quando tenta adaptar o esquema a um elenco fragmentado, sem tempo de treino, o resultado é exatamente o que vimos contra a Noruega: baixa posse, poucos progressive passes no terço final, xG desperdiçado.

Endrick (Lille)
Endrick (Lille)

A estabilidade da comissão técnica, defendida por Caetano como diferencial deste ciclo, só vai funcionar se vier acompanhada de uma identidade tática clara — algo que a seleção não demonstrou ter em 2026. Os amistosos de setembro são o primeiro teste real de que essa renovação vai além do discurso.

Conforme registrado pelo SportNavo, a CBF ainda estuda um terceiro amistoso na janela de setembro, possivelmente na Ásia, o que ampliaria o tempo de observação de Ancelotti antes da Copa América de 2027 — o próximo grande objetivo do ciclo. O Brasil estreia nessa competição com a obrigação de mostrar evolução, e os nomes chamados em setembro já vão dar a primeira pista de qual direção Ancelotti escolheu seguir.