"Neymar ainda não foi chamado." A frase, seca e sem adorno, circulou nos bastidores da CBF durante meses — e transformou a presença do camisa 10 na pré-lista enviada por Carlo Ancelotti à Fifa, nesta segunda-feira (11), num dado que vai além do simbólico. Dos 55 nomes relacionados pelo treinador italiano, o atacante do Santos é o mais carregado de interrogações: está na lista ampliada, mas ainda não foi convocado oficialmente para nenhum jogo sob o comando de Ancelotti.

O que a pré-lista revela antes mesmo da convocação oficial

O regulamento da Fifa exige que cada seleção envie uma relação de até 55 jogadores antes da convocação definitiva. O Brasil cumpriu o prazo nesta segunda-feira, e a CBF optou por manter os nomes sob sigilo oficial — prática que, na era das redes sociais, dura exatamente o tempo que um jornalista leva para apurar. Segundo informações do Estadão e do ge, nomes como o goleiro Carlos Miguel, do Palmeiras, e o meia Lucas Paquetá aparecem na relação, mesmo que nenhum dos dois tenha sido convocado por Ancelotti em qualquer das Datas Fifa sob seu comando. Carlos Miguel, especificamente, é uma surpresa técnica: o goleiro não integrou nenhuma das listas anteriores do italiano e chega à pré-lista como nome de reserva de peso.

A convocação definitiva dos 26 jogadores será anunciada por Ancelotti no dia 19 de maio, em evento organizado pela CBF no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Os atletas se apresentam em 27 de maio na Granja Comary para o início da preparação. O Brasil estreia na Copa em 13 de junho, contra Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova York — uma partida às 19h no horário de Brasília.

Outros nomes ventilados como possíveis integrantes da pré-lista incluem John (Nottingham Forest), Kaiki (Cruzeiro), Beraldo (PSG), Gabriel Sara (Galatasaray), Pedro (Flamengo) e Vitinho (Botafogo). São jogadores que orbitam a convocação há meses sem jamais consolidar uma vaga, e que agora vivem a última semana de expectativa antes do corte definitivo.

Os nomes mais vulneráveis ao corte de 55 para 26

A matemática é implacável: dos 55 relacionados, 29 serão cortados antes do dia 19 de maio. A proporção — pouco mais de 52% da pré-lista descartada — equivale, em termos de dimensão, a eliminar de uma só vez toda a seleção principal mais três reservas. Nomes como Neymar carregam o peso de uma trajetória interrompida por lesões: o atacante disputou apenas 7 partidas pelo Santos em 2026 antes de ser incluído na pré-lista, um volume de minutagem inferior ao que qualquer titular da Seleção acumulou na temporada europeia 2025/2026.

Segundo apuração do SportNavo, a tendência de Ancelotti é manter uma base semelhante à das últimas Datas Fifa, com Vinicius Júnior, Rodrygo, Endrick, Marquinhos, Bruno Guimarães, Alisson e Casemiro como presenças praticamente consolidadas. O único nome oficialmente convocado de forma antecipada pelo treinador é Danilo (Flamengo), anunciado em coletiva durante a última Data Fifa.

O caso de Estêvão é o mais delicado da lista. O atacante do Chelsea ficou fora da pré-lista enviada à Fifa após lesão muscular sofrida nas últimas semanas — uma ausência que, tecnicamente, o impede de ser convocado para a lista final mesmo que se recupere antes do dia 19. As regras da Fifa permitem substituições na lista definitiva apenas por lesão devidamente comprovada, e a janela para incluir Estêvão dependeria de uma reversão formal do quadro clínico.

Paquetá representa outro dilema. O meia não foi convocado nas últimas chamadas de Ancelotti, mas sua inclusão na pré-lista sinaliza que o técnico mantém a porta entreaberta. A questão não é técnica — Paquetá é um dos melhores meias brasileiros da atualidade — mas de contexto: o jogador ainda enfrenta processo disciplinar na Federação Inglesa por suposta manipulação de cartões, o que cria um ruído extracampo que qualquer comissão técnica preferiria evitar às vésperas de uma Copa do Mundo.

O que Thiago Silva e a geração de transição ainda precisam provar

Thiago Silva, capitão da Seleção nas três últimas Copas do Mundo (2014, 2018 e 2022), aparece entre os nomes cogitados para a pré-lista mesmo aos 41 anos, agora defendendo o Porto. Sua presença seria mais simbólica do que funcional — o zagueiro soma poucos minutos em campo na temporada 2025/2026 pelo clube português — mas Ancelotti tem histórico de valorizar liderança de vestiário, como demonstrou ao longo de sua carreira no Real Madrid e no Milan.

A geração intermediária — jogadores entre 24 e 28 anos que não são mais promessas nem veteranos consolidados — é a zona de maior disputa. Gabriel Sara (Galatasaray), John (Nottingham Forest) e Pedro (Flamengo) representam esse grupo: tecnicamente capazes, mas sem a regularidade de convocações que garante uma vaga automática. Pedro, em especial, vive a contradição de ser um dos artilheiros do Campeonato Brasileiro 2026 sem ter sido chamado por Ancelotti em nenhuma das convocações anteriores do italiano.

A Argentina, que divulgou sua própria pré-lista de 55 nomes nesta segunda-feira com a dupla do Palmeiras — o lateral Agustín Giay e o atacante Flaco López — já tem datas de estreia definidas: 16 de junho, contra a Argélia, em Kansas City, no Grupo J. Lionel Scaloni não anunciou quando divulgará a lista definitiva argentina, o que coloca a CBF em posição mais transparente ao já ter marcado o dia 19 de maio para o anúncio de Ancelotti. O Brasil entra em campo no dia 13 de junho, enquanto a Argentina estreia três dias depois — uma semana, portanto, que vai separar a expectativa da realidade para os 29 jogadores que ainda não sabem se vão à Copa.