Uma defesa que funcionava como organismo — cada peça no lugar certo, cada linha de pressão calculada com precisão milimétrica. A França construiu sua campanha nas eliminatórias para a Copa do Mundo sobre uma zaga que raramente oscilava, e William Saliba era a vértebra central desse sistema. Agora, o organismo tem uma fratura.
O zagueiro do Arsenal atuou durante os 120 minutos da final da Champions League contra o PSG — uma partida de altíssima intensidade física — carregando um tornozelo esquerdo que já vinha apresentando problemas recorrentes ao longo da temporada 2025/2026. Segundo o jornal francês Le Parisien, o problema se agravou após o duelo decisivo, e a Federação Francesa de Futebol programou uma bateria de exames para esta segunda-feira (1º de junho) com o objetivo de determinar se a participação do defensor no Mundial ainda é viável. Há uma reunião marcada entre Saliba e a comissão técnica comandada por Didier Deschamps, o que, por si só, já revela a dimensão da preocupação.
O peso de Saliba nas eliminatórias francesas
Para compreender o que está em jogo, convém revisitar o papel que Saliba desempenhou na campanha francesa rumo ao Mundial. O defensor foi titular em boa parte das eliminatórias, funcionando como o jogador que dava equilíbrio ao setor defensivo — rápido para sair jogando, seguro no duelo aéreo, confortável com a bola nos pés num sistema que exige que os zagueiros participem da construção desde a linha defensiva. Aos 24 anos, Saliba já acumula a maturidade de quem passou por uma temporada de altíssimo nível na Premier League e disputou a final europeia mais importante do calendário. Perder esse perfil às vésperas de uma Copa é, do ponto de vista tático, um problema estrutural, não apenas pontual.
O próprio Deschamps, ao anunciar a lista de 26 convocados em 22 de maio, deixou clara a autoconsciência do grupo sobre o momento:
"Eu tenho ambição e quero que os jogadores também tenham. Mas não podemos perder a humildade. Não vou me esconder e dizer que não estamos entre as seleções com potencial para ser campeã do mundo. Mas há oito, talvez dez seleções que podem dizer o mesmo."A declaração, que parece um exercício de ponderação, ganha contornos diferentes quando se percebe que um dos pilares dessa ambição pode não cruzar a linha de entrada do torneio.
Os quatro zagueiros da lista e o que cada um representa
Com Saliba em dúvida, a França ainda conta com quatro zagueiros centrais na convocação: Dayot Upamecano, Ibrahima Konaté, Lucas Hernandez e Maxence Lacroix. Em teoria, o setor não está desguarnecido. Na prática, a análise de perfis revela um problema de composição.
Upamecano, do Bayern de Munique, é o nome com mais minutos acumulados em grandes palcos europeus, mas sua temporada 2025/2026 foi marcada por inconsistências — o zagueiro oscilou em momentos decisivos da Bundesliga e perdeu a titularidade em algumas rodadas para Dayot. Konaté, do Liverpool, tem físico imponente e rendimento ascendente na Premier League, mas sua gestão de bola em saídas sob pressão é menos refinada do que a de Saliba. Hernandez, que já acumula lesões sérias na carreira, foi convocado com ressalvas físicas e tem perfil mais versátil — atua como lateral-esquerdo com frequência. Lacroix, do Wolfsburg, é o nome menos testado no alto nível internacional, mas Deschamps demonstrou confiança ao mantê-lo na lista final.
O cenário, portanto, não é de colapso, mas de rebaixamento de qualidade em um setor que estava operando em patamar elevado. Há uma diferença entre ter zagueiros e ter o zagueiro certo para o sistema que a França quer implementar.
Lukeba e Disasi como alternativas fora da lista
Caso o corte de Saliba seja confirmado pelos exames desta segunda-feira, Deschamps precisará acionar um substituto fora da lista original. Segundo apurou a ESPN, dois nomes estão no radar da comissão técnica: Castello Lukeba, do RB Leipzig, e Axel Disasi, do Chelsea. Lukeba tem apenas 22 anos, mas já demonstrou consistência na Bundesliga e na Champions League, com capacidade de jogar em linha alta de pressão — exatamente o que o sistema francês demanda. Disasi, por outro lado, traz maior experiência na Premier League e já foi convocado anteriormente por Deschamps, o que reduziria o tempo de adaptação ao ambiente do grupo.
A França terá ainda dois amistosos antes da estreia no Mundial — contra Costa do Marfim e Irlanda do Norte — para rodar combinações e eventualmente integrar um novo nome. A estreia no Grupo I está marcada para 16 de junho, diante de Senegal, seguida de confrontos contra Iraque e Noruega. A margem para ajuste existe, mas é estreita, e a química defensiva não se constrói em dois jogos de preparação.
Está montada a estrutura para que a França chegue ao Mundial sem seu zagueiro mais afinado — a lista tem nomes de qualidade, o sistema tem lógica tática, o treinador tem experiência acumulada em três Copas. Falta o componente que não se substitui por convocação de emergência: o tempo de entrosamento que Saliba levou dois anos para construir.










