Um castelo de areia no meio da ressaca. A imagem serve para o momento defensivo do São Paulo em 2026 — estrutura que parecia sólida enquanto a maré baixava, mas que a primeira onda revelou frágil. A saída de Dória, que pediu rescisão e deixou o clube antes mesmo da pausa para a Copa do Mundo, escancarou uma vulnerabilidade que os últimos treinadores tricolores já conheciam, mas não conseguiram corrigir.

O vazio que Dória deixa na hierarquia defensiva do Tricolor

Dória não era apenas mais um zagueiro na folha de pagamento. Era o jogador que, nos últimos dois anos, serviu como referência de posicionamento e saída de bola pela direita da zaga — função que exige leitura de jogo apurada e autoridade sobre os companheiros. Com a sua saída, o São Paulo fica reduzido a três nomes de maior rodagem no setor: Alan Franco, Rafael Tolói e Sabino. Os três chegaram ao Morumbis com currículos respeitáveis, mas todos apresentaram oscilações técnicas ao longo da temporada passada e desta, o que obrigou cada treinador que passou pelo clube a remanejar a dupla titular com frequência acima do aceitável.

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O problema não é novo. O São Paulo de 2012, quando Muricy Ramalho ergueu o Brasileirão com Lúcio e Paulo Miranda como dupla fixa, foi talvez o último exemplo de uma zaga tricolor que funcionou como unidade durante toda uma temporada. Nos anos seguintes, o clube passou por ciclos de desgaste semelhantes — Miranda sozinho após a saída de Lúcio, depois a dependência excessiva de Arboleda entre 2017 e 2024. A história se repete com variações previsíveis.

Arboleda, que ainda tem vínculo com o clube, está fora dos planos por razão disciplinar: o equatoriano viajou para o exterior sem autorização da diretoria, gerando desgaste irreparável. Ferraresi, por sua vez, está cedido ao Botafogo e não há sinalização de retorno antecipado — tanto que as diretorias dos dois clubes firmaram acordo para que o zagueiro venezuelano possa atuar normalmente pelo Alvinegro carioca, inclusive no confronto direto marcado para este sábado, 23 de maio, às 17h, no Morumbis, pela 17ª rodada do Brasileirão.

Os números que expõem a fragilidade defensiva antes da Copa

Uma análise pelo índice PPDA — sigla para passes permitidos por ação defensiva, métrica usada para medir a intensidade da pressão de uma equipe sobre o adversário — coloca o São Paulo entre os times que menos pressionam no terço ofensivo do Brasileirão 2026. Em termos simples: quanto maior o PPDA, menos a equipe força erros longe do próprio gol, o que transfere para a zaga uma carga desproporcional de trabalho reativo. Com uma linha defensiva instável, esse padrão é uma combinação perigosa.

O técnico Dorival Júnior, recém-chegado ao clube e ainda em busca da primeira vitória no comando tricolor — o time ocupa a quarta colocação com 24 pontos, mas vem de três derrotas, um empate e apenas uma vitória nos últimos cinco jogos — terá pouco menos de dois meses de pausa para reorganizar o setor. A janela de transferências que acompanha o recesso da Copa é o momento mais lógico para uma contratação pontual.

"Zaga não é só o cara que cabeceia bem. É o que organiza a linha, que grita pro lateral fechar, que sabe quando avançar e quando recuar. Quando você perde esse perfil, perde a coluna vertebral da equipe." — Treinador de base de clube da Série A, em conversa com a reportagem.

A frase resume o que o São Paulo perdeu com Dória. O problema não é apenas numérico — repor um zagueiro no mercado é factível. O desafio é encontrar alguém que exerça a função de liderança no setor, algo que Tolói, Sabino e Alan Franco ainda não demonstraram de forma consistente em conjunto.

Luis Osorio, Isac Dias e a aposta forçada nas Crias de Cotia

Na ausência de uma contratação imediata, o clube pode acelerar a promoção de jovens da base. Luis Osorio, de 19 anos, já está integrado ao elenco profissional e foi relacionado para o jogo contra o Millonarios-COL pela Sul-Americana, embora não tenha entrado em campo. Suas duas aparições no ano — 45 minutos na eliminação para o Juventude na Copa do Brasil e uma partida contra o O'Higgins no Chile, quando o Tricolor utilizou o time reserva — ainda não são suficientes para atestar prontidão para sequências de alta exigência. O clube, contudo, demonstrou confiança no jogador ao renovar seu contrato em março até 2030, com multa rescisória fixada em 100 milhões de euros.

Isac Dias, de 20 anos, é outro nome que desponta no sub-20 como opção futura, mas ainda não estreou pelo profissional. Promover um zagueiro sem experiência de Série A em plena disputa de Brasileirão e Sul-Americana é um risco calculado que, historicamente, os clubes brasileiros raramente assumem com êxito no segundo semestre — quando o calendário é mais denso e o nível de exigência aumenta.

A comparação histórica mais próxima está no próprio São Paulo de 2005, quando o clube foi campeão mundial com Lugano e Edcarlos como dupla de zaga — o segundo promovido da base com apenas 20 anos. Mas Edcarlos chegou ao cargo em um elenco que tinha Rogério Ceni, Cicinho e Mineiro como líderes absolutos. Osorio e Isac Dias chegam a um elenco em reconstrução, sem essa rede de segurança.

O São Paulo volta a campo neste sábado diante do Botafogo, no Morumbis, às 17h, em um confronto que funciona como termômetro real da solidez defensiva tricolor antes da Copa. Uma derrota manteria o time fora do G4 e aumentaria a pressão sobre Dorival Jr. para apresentar soluções concretas no mercado durante a pausa — que começa em junho e se estende por quase dois meses.