"Parece um rompimento do tendão da perna" — foi com essa frase que a repórter Gemma Soler, da ESPN Espanha, jogou uma pedra no espelho da seleção campeã europeia. A declaração se referia a Lamine Yamal, 18 anos, que deixou o campo durante a vitória do Barcelona sobre o Celta de Vigo na 33ª rodada de La Liga após sentir a coxa esquerda logo depois de converter o pênalti que abriu o placar. Dias depois, o clube confirmou que Fermín López fraturou o quinto metatarso do pé direito na vitória por 3 a 1 sobre o Betis e precisará ser operado. Em menos de uma semana, Luis de la Fuente perdeu dois dos seus principais cartas para a Copa do Mundo 2026.

O tamanho do estrago no elenco espanhol

Fermín López disputou 48 jogos pelo Barcelona na temporada 2025/2026, sendo 34 como titular, com 13 gols e 17 assistências. Estava entre os 55 pré-convocados de De la Fuente para o Mundial e acumulava sete partidas pela seleção principal. A recuperação de uma fratura no metatarso exige em média oito semanas — e a Espanha estreia em 15 de junho, contra Cabo Verde, no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta. O prazo não fecha. Já Yamal aguarda exames mais detalhados para confirmar a extensão da lesão no isquiotibial, mas a imprensa catalã já trabalha com o cenário de que ele pode perder ao menos os primeiros jogos do torneio, incluindo o amistoso contra o Iraque em 4 de junho e o teste contra o Peru em 8 de junho.

A lista de ausências espanholas para a Copa já incluía Samu Aghehowa antes das lesões de Yamal e Fermín, tornando o quadro ainda mais delicado para De la Fuente, que divulga a convocação final em 25 de maio. Cinquenta dias separam hoje do início do Mundial — tempo curto para um tendão, longo demais para a ansiedade de uma nação que chegou à Copa como uma das favoritas ao título.

O que a história diz sobre seleções que perderam estrelas antes da Copa

A Espanha de 2010, que conquistou o título na África do Sul, conviveu com a ausência de David Villa em determinados momentos por conta de desgaste físico, mas nenhuma baixa de impacto comparável ocorreu antes do torneio. A referência mais próxima é a França de 2018, que foi ao Mundial da Rússia sem Karim Benzema — convocado somente a partir de 2021 — e mesmo assim levantou a taça com Olivier Giroud como centroavante. O Brasil de 2014 perdeu Neymar nas quartas de final contra a Colômbia (fratura na terceira vértebra lombar, confirmada no dia 5 de julho daquele ano) e desmoronou 7 a 1 contra a Alemanha, evidenciando como a dependência de um único jogador pode ser fatal. A Espanha de 2026 corre risco parecido de dependência excessiva de Yamal.

No compasso da Lapa de uma quinta-feira à noite, onde o samba sobrevive mesmo quando o músico principal falta, o futebol também exige que alguém pegue o instrumento. A questão para De la Fuente é: quem tem calibre para isso?

Os candidatos a preencher o vazio deixado por Yamal e Fermín

Dani Olmo, do RB Leipzig, é o nome mais óbvio para herdar a armação central que seria de Fermín. Com 26 anos e experiência em grandes torneios — foi um dos destaques da Espanha na Eurocopa de 2024, contribuindo com dois gols e três assistências em seis partidas —, Olmo tem capacidade técnica comprovada em alto nível. Nico Williams, do Athletic Bilbao, representa a alternativa mais direta para o corredor direito de Yamal. O irmão mais novo de Iñaki Williams tem 22 anos, velocidade de ponta e foi titular na campanha da Euro 2024. Pela ala esquerda, Mikel Oyarzabal, da Real Sociedad, oferece versatilidade e experiência de Copa do Mundo, tendo participado do torneio do Qatar em 2022.

Bryan Gil, do Tottenham, e Yeremy Pino, do Villarreal, aparecem como opções mais ofensivas e de maior imprevisibilidade. Pedri, quando disponível — e o barcelonista também conviveu com problemas físicos na temporada —, poderia absorver parte da criatividade que Fermín trazia ao meio-campo. O técnico De la Fuente pode ainda recorrer a Fabian Ruiz, do PSG, para dar mais consistência ao setor central, redistribuindo funções em vez de buscar um substituto direto para cada ausente.

Como a Espanha pode reorganizar o esquema sem suas joias do Barcelona

A Espanha de De la Fuente operou na Eurocopa 2024 num 4-3-3 fluido, com Yamal fixo pela direita e liberdade para Fermín aparecer pelo lado esquerdo do meio-campo. Sem os dois, o técnico tem três caminhos táticos: manter o 4-3-3 com Nico Williams na direita e Olmo na meia-esquerda; migrar para um 4-2-3-1 com Olmo como camisa 10 atrás de Morata; ou adotar um 4-4-2 losango que neutralize a dependência dos pontas e valorize a posse de bola característica da escola espanhola desde os tempos de Luis Aragonés.

O tamanho do estrago no elenco espanhol Quem assume o lugar de Yamal e Fermín se
O tamanho do estrago no elenco espanhol Quem assume o lugar de Yamal e Fermín se

A convocação final sai em 25 de maio. Se Yamal não tiver condições confirmadas até essa data, De la Fuente precisará decidir entre convocar o jogador apostando numa recuperação milagrosa — como a Argentina fez com Agüero em algumas ocasiões históricas — ou já construir seu plano sem o camisa 19. A estreia contra Cabo Verde, no Grupo H ao lado de Arábia Saudita e Uruguai, acontece em 15 de junho em Atlanta. Até lá, o diagnóstico definitivo de Yamal, esperado para os próximos dias, será o dado mais importante que o futebol espanhol aguarda. Em 15 de junho saberemos se De la Fuente teve tempo suficiente para reescrever o roteiro ou se a Copa de 2026 começa, para a Espanha, com uma página em branco no lugar mais importante do campo.