Se você perguntasse há dez anos, nas areias de Tramandaí, se aquele garoto alto e comprido que topava jogar de goleiro quando faltava alguém chegaria a ser titular da Seleção Brasileira numa Copa do Mundo, a resposta mais honesta seria um encolher de ombros. A pergunta parecia generosa demais para um menino criado no litoral gaúcho, filho de marceneiro, que começou a carreira num clube de Capão da Canoa. Mas esse é exatamente o ponto: Roger Ibañez não chegou até aqui apesar das circunstâncias. Chegou por causa do que fez com elas.

No último sábado, 13 de junho de 2026, Carlo Ancelotti confirmou Ibañez no time titular do Brasil para a estreia contra Marrocos. O zagueiro nascido em Canela, na Serra Gaúcha, e criado em Tramandaí estava ali, na mesma linha defensiva que protege o maior acervo de títulos mundiais do futebol — cinco Copas. Não como reserva, não como alternativa de último minuto. Titular.

De Tramandaí ao Real SC, a escola que ninguém vê no currículo

Gustavo Corrêa treinou Ibañez entre os 12 e os 14 anos na escolinha Cia da Bola, em Tramandaí, e guarda uma memória que diz tudo sobre o jogador.

"Num campeonato aqui em Tramandaí, ele era nosso goleiro. Não tínhamos goleiro na categoria, ele ia bem no gol. Ele falou: 'não tem problema, professor. Eu jogo'. Ninguém queria jogar no gol"
— recorda o treinador. Essa disponibilidade, essa ausência de ego que tantos jovens talentos exibem como armadura, seria a marca registrada de Roger em cada passo seguinte.

No Real SC de Capão da Canoa, o primeiro clube profissional, o episódio com o fisioterapeuta Fernando Oliveira virou lenda do vestiário. Fernando chegou no primeiro dia de trabalho com tinta, rolo e argamassa, disposto a reformar a própria sala sem ter muita habilidade para isso. Ibañez entrou, viu a cena e perguntou se precisava de ajuda — o pai havia ensinado marcenaria, pintura e elétrica.

"Pintamos a parede juntos e ele trocou as caixinhas de luz, que eu não sabia mexer"
, conta Fernando. Pau para toda obra é uma expressão que no Brasil costuma diminuir. No caso de Ibañez, foi sempre o contrário.

Dulcelei Panatta, professora de Ensino Religioso na Escola Municipal General Luiz Dêntice, em Tramandaí, lembra de um aluno de notas regulares a altas — e de um torcedor gremista fanático. Para ela, ele nunca deixou de ser "nosso Roger". Quando Gustavo Corrêa ouve o sobrenome Ibañez hoje, confessa que a primeira reação ainda é perguntar: "quem é esse abençoado?" — antes de cair na risada ao lembrar que esse abençoado é o mesmo garoto de sempre.

A rota europeia que moldou um zagueiro de elite

A trajetória de Ibañez pelo futebol europeu segue uma lógica que reconheço bem dos meus anos como correspondente em Milão: a Atalanta de Bérgamo como laboratório, Roma como consolidação. Nos anos 2010, a Atalanta de Gian Piero Gasperini transformou-se numa das mais refinadas escolas de defesa do continente, uma espécie de herdeira tardia do catenaccio revisitado — não o catenaccio estático dos anos 60, mas uma versão dinâmica, de zagueiros que saem para marcar na linha do meio-campo. Ibañez absorveu esse modelo e chegou à Roma de José Mourinho em 2020 com uma bagagem técnica que poucos zagueiros brasileiros da sua geração conseguiram acumular.

Penso em paralelos históricos e o que me vem à mente é a rota de Aldair: Flamengo, Roma nos anos 90, títulos, consolidação. Ibañez trilhou caminho semelhante — Fluminense, Atalanta, Roma — mas num contexto tático muito mais exigente. A Serie A de 2020 já não era a liga dos anos 90, quando o Brasil exportava zagueiros quase em série para a Itália. Hoje o mercado é mais competitivo, os filtros são maiores, e chegar a Roma e manter titularidade exige um padrão defensivo que vai muito além do físico. Passou.

A passagem pelo Al-Ahli, na Arábia Saudita, poderia ter sido lida como o fim do ciclo europeu — e alguns analistas fizeram essa leitura. Errada. O que se viu foi um jogador que manteve nível alto o suficiente para entrar no radar de Ancelotti quando a Seleção precisava de opções sólidas na zaga. Ancelotti, que na sua carreira já escalou Maldini, Cannavaro e Ramos, não tem o hábito de apostar em nomes por nostalgia.

A escalação de Ancelotti e o peso de uma estreia

Quando o nome de Ibañez apareceu entre os 26 convocados, conforme registrado pelo SportNavo à época da lista, a surpresa foi genuína — não pela qualidade do jogador, mas pelo momento. Convocações tardias para Copas do Mundo costumam render reservas. A história do futebol está cheia de jogadores chamados na última hora que passam o torneio inteiro no banco. Ibañez foi diferente.

Titular.

A decisão de Ancelotti diz algo sobre o técnico italiano e sobre o jogador. Ancelotti raramente escala alguém por pressão de torcida ou por obrigação de nome. Quando ele coloca um jogador em campo numa estreia de Copa, é porque confia na capacidade de executar o plano tático. E o plano contra Marrocos exigia um zagueiro que soubesse sair jogando, cobrir espaços em transições rápidas e não perder duelos aéreos — especialmente considerando o estilo físico do futebol africano.

O próprio Ibañez, ao ser convocado, brincou que para ir ao Mundial estaria disposto até a "levar água na beira do campo". A frase é humilde, mas o contexto dela é de alguém que sabe exatamente o que construiu para chegar ali. De Tramandaí a uma Copa do Mundo como titular, a distância não se mede em quilômetros. Se você perguntasse hoje, nas areias de Tramandaí, se aquele garoto alto e comprido que topava jogar de goleiro quando faltava alguém chegaria a ser titular da Seleção Brasileira numa Copa do Mundo, a resposta seria a mais simples possível: chegou.