Não, Vinicius Júnior não é apenas o atacante mais veloz do elenco brasileiro. Essa etiqueta, colada nele desde os tempos de Flamengo, sempre diminuiu o que ele representa como construtor de jogo e como peso moral dentro de um grupo. O que aconteceu no MetLife Stadium, em Nova Jersey, na noite deste sábado, exige uma reclassificação mais precisa: Vinicius Júnior é, hoje, o protagonista incontestável da Seleção Brasileira — e a Copa do Mundo de 2026 pode ser o palco em que esse diagnóstico vira legado.
O gol que reescreve a ficha técnica de Vini Jr
O Brasil havia sofrido o gol de Saibari aos 20 minutos, numa combinação que expôs fragilidades defensivas — Paquetá perdeu a bola no campo de ataque, Gabriel Magalhães e Marquinhos ficaram desposicionados, e Alisson saiu de forma precipitada, deixando o caminho livre para o atacante marroquino encobri-lo. O placar de 1 a 0 para Marrocos tinha gosto amargo, sobretudo porque o adversário havia chegado semifinalista em 2022, no Catar, e sabia exatamente como transformar transições em facadas.
A resposta veio aos 32 minutos. Bruno Guimarães achou Vinicius em velocidade pela esquerda. O que se viu a seguir foi um movimento como aquela chuva de verão que cai de repente sem avisar: Vini arrancou em diagonal, deixou Hakimi para trás com um drible que pareceu mudar de direção no ar e acertou o ângulo com o pé direito. Um gol que vale pelo placar, pela mensagem e pela marca histórica que carrega.
Com aquele tento, Vinicius Júnior chegou a 10 gols em 50 jogos com a camisa canarinho — e se tornou o jogador com mais participações diretas em gols neste ciclo de Copa, com 14 contribuições desde 2023: oito gols e seis assistências. Reparemos no detalhe: esses números superam qualquer outro atleta do grupo convocado por Carlo Ancelotti, incluindo Neymar, que sequer está disponível para a estreia por lesão na panturrilha direita.
A herança que Ronaldinho deixou e Vini carrega
A marca que Vinicius igualou neste sábado pertence a Ronaldinho Gaúcho, e o paralelo merece atenção histórica. Em 2002, na Coreia do Sul e Japão, Ronaldinho marcou diante da Inglaterra nas quartas de final — aquela cobrança de falta que encobriu David Seaman e ainda hoje é citada como um dos gols mais audaciosos da história dos Mundiais. Em 2006, na Alemanha, ele voltou a balançar a rede na goleada por 4 a 1 sobre o Japão, na fase de grupos, embora a campanha brasileira naquele torneio tenha terminado de forma decepcionante nas quartas, contra a França de Zidane.

Vinicius seguiu o mesmo roteiro de duas edições marcadas. Em 2022, no Catar, ele anotou na goleada por 4 a 1 sobre a Coreia do Sul, nas oitavas de final, e ainda distribuiu duas assistências contra a Sérvia. Agora, em 2026, abriu sua conta na estreia, contra um adversário que derrotou Portugal no Catar e chegou a este Mundial como um dos times africanos mais respeitados do planeta.
A diferença entre Ronaldinho e Vinicius, porém, vai além do estilo. Ronaldinho chegou às Copas como figura já consolidada no Barcelona. Vinicius chegou à Copa de 2026 carregando o peso de ser o principal nome de uma geração que ainda busca o hexacampeonato — a primeira conquista desde 2002. Como ele mesmo declarou antes da partida:
"É o momento mais especial e mais importante da minha carreira, em que eu chego ao meu melhor nível físico e técnico, como eu sempre sonhei e como tive que ir analisando durante toda a temporada. Eu me preparei muito para chegar neste momento."
O custo de liderar quando Neymar não está
A ausência de Neymar neste primeiro jogo reconfigurou a hierarquia do ataque brasileiro de maneira visível. Romário, em análise na CazéTV antes da partida, foi direto ao ponto ao avaliar a situação do camisa 10 do Santos:
"O Neymar hoje é o grande jogador da Seleção Brasileira, o grande nome do futebol brasileiro, e eu fui sempre o cara que torci bastante por ele. Não está na sua melhor forma, não vai conseguir chegar 100%. Mas é um cara que é sempre responsável, muito respeitado, e muito considerado no grupo."A declaração de Romário, mais elogio do que crítica, confirma o que o campo já mostrava: a Seleção precisava de outro eixo de liderança técnica, e Vinicius ocupou esse espaço.
O jovem Endrick, de 19 anos, que disputa seu primeiro Mundial e entrou na fase final como opção ofensiva, representa a próxima camada dessa pirâmide. Éder Militão, fora da Copa por lesão, resumiu bem o que o atacante representa: "Toda vez que entra, pode ser dois ou três minutos, sempre muda o jogo. Tem estrela, e muita." Mas neste sábado, a estrela que brilhou foi a de Vini Jr.
O que o empate com Marrocos projeta para o Grupo C
O placar de 1 a 1 ao fim do primeiro tempo indicava que a partida estava longe de encerrada — e que o Brasil de Ancelotti ainda precisará ajustar a saída de bola e a cobertura defensiva nas transições para não repetir os erros que custaram o gol marroquino. O Grupo C reúne Brasil, Marrocos, Haiti e Escócia, e a Seleção tem margem para corrigir rotas, mas o calendário não perdoa descuidos acumulados. O próximo compromisso do Brasil no grupo definirá se o protagonismo de Vinicius na estreia foi um lampejo ou o começo de uma campanha que o país aguarda desde julho de 2002.








