Quem, de fato, vai controlar os destinos financeiros de quatro dos clubes mais tradicionais do Brasil? A pergunta circula em reuniões de conselho, em escritórios de advocacia corporativa e em conversas reservadas entre dirigentes no Rio de Janeiro e em São Paulo. O modelo de Sociedade Anônima do Futebol, que já transformou Cruzeiro e Bahia, agora avança sobre Fluminense, Vasco, Santos e Botafogo — cada um com uma estrutura de capital distinta, motivações diferentes e riscos específicos.
Não há resposta única. Cada negociação tem sua própria arquitetura e, em pelo menos um dos casos, o investidor mais comentado já veio a público negar qualquer envolvimento.
O consórcio do Fluminense e os R$ 500 milhões da Lazuli Partners
A proposta mais detalhada até agora é a do Fluminense. A LZ Sports, braço operacional da gestora Lazuli Partners, apresentou ao Conselho Deliberativo do clube tricolor um aporte inicial de R$ 500 milhões — com projeção de mais R$ 6,4 bilhões a serem injetados ao longo de dez anos, gerados pelo próprio caixa da SAF. O número foi apresentado pelo vice-presidente Mattheus Montenegro, pelo presidente Mário Bittencourt e por Carlos de Barros, sócio da Lazuli, em reunião realizada na última segunda-feira, 8.
A estrutura chama atenção pela amplitude: a LZ Sports reuniu 40 investidores, todos torcedores do Fluminense, com cotas de participação na SAF. Desses, 13 nomes foram divulgados. O mais reconhecido é André Esteves, ex-CEO do BTG Pactual e, conforme levantamento da Forbes em 2025, o sexto brasileiro mais rico, com patrimônio estimado em US$ 6,9 bilhões. Sob o seu comando, o BTG atingiu em 2024 a segunda posição em valor de mercado entre as instituições financeiras do Brasil, com R$ 181,7 bilhões. A presença de Esteves no consórcio não é simbólica — ela sinaliza capacidade de estruturar operações financeiras complexas, algo que a gestão de uma SAF de grande porte exige.
Quatro anos de análise pelo BTG Pactual precederam a proposta formal. Esse prazo revela tanto o grau de due diligence quanto a complexidade do passivo do clube carioca.
Marinakis mira o Vasco com Edu Gaspar no comando esportivo
No lado de São Januário, o nome que domina as conversas é o do bilionário grego Evangelos Marinakis, com patrimônio avaliado em cerca de R$ 22 bilhões pela Forbes. Marinakis já comanda um portfólio de clubes que inclui o Nottingham Forest, da Premier League inglesa, o Olympiacos, da Grécia, e o Rio Ave, de Portugal. A confirmação do interesse no Vasco foi reportada pelo canal britânico Sky Sports, que informou conversas avançadas entre as partes.
A estratégia de Marinakis para o clube carioca inclui um movimento de bastidores que poucos notaram: a contratação do brasileiro Edu Gaspar, ex-diretor esportivo do Arsenal, para liderar o conglomerado de clubes do bilionário. Gaspar, com passagens pela Seleção Brasileira e pelo Corinthians, assumiria a gestão esportiva integrada — o que indicaria que o Vasco entraria numa rede de compartilhamento de talentos e metodologia semelhante à que conecta os outros clubes do grupo. O presidente Pedrinho mantém silêncio sobre o tema, alegando cláusulas contratuais que impedem declarações públicas.
O negacionismo colombiano e o enigma do Botafogo
O caso do Santos é o mais intrincado dos quatro. Durante semanas, o nome da família Santo Domingo — maior grupo patrimonial da Colômbia, com três bilionários listados na Forbes em 2025 — circulou como o principal candidato à SAF do clube praiano. A matriarca Beatriz Dávila de Santo Domingo, de 86 anos, possui fortuna de US$ 4,4 bilhões. Alejandro Santo Domingo, de 48 anos, controla US$ 3,3 bilhões e lidera os negócios familiares desde 2011, após a morte do pai, por meio do Grupo Valorem na Colômbia e da Quadrant Capital Advisors em Nova York.
O próprio Alejandro desmentiu o interesse em entrevista exclusiva à VEJA — a primeira que concedeu em dez anos.
"Não participamos de nenhum processo relacionado ao Santos. Não estamos envolvidos de forma alguma. Existe uma empresa por aí que usa um nome que faz referência à nossa família, mas ela não faz parte do nosso grupo"
O investidor colombiano foi além e explicou a razão estrutural pela qual evita o futebol:
"O futebol tem um risco importante: o rebaixamento. Quando analisamos investimentos, não fazemos isso como hobby. Avaliamos se é um bom investimento financeiro."
Apesar da negativa, o rumor não morreu. Uma empresa com nome que remete à família segue sendo apontada em bastidores santistas, sem que sua real composição societária tenha sido esclarecida publicamente. O Santos, rebaixado à Série B em 2023 e em processo de reconstrução, enfrenta exatamente o fator de risco que Alejandro citou como determinante para afastar investidores sofisticados.
O cenário mais concreto do momento, no entanto, envolve o Botafogo. Após o acordo de cessar-fogo com a Eagle Football, do empresário John Textor, abriu-se espaço para um novo controlador. A GDA Luma Capital formalizou proposta e é apontada como favorita para assumir 90% das ações da SAF. O valor: US$ 105 milhões diretos, mais a quitação de um empréstimo de US$ 25 milhões feito para pagar o transfer ban gerado pelo caso Thiago Almada — totalizando investimento efetivo na casa de US$ 130 milhões.
À frente da GDA está Gabriel de Alba, natural do México, com dupla formação em finanças e economia pela NYU Stern School of Business e MBA pela Universidade Columbia. O nome de De Alba ficou conhecido no mercado global pela reestruturação do Cirque du Soleil, que em 2020 entrou em recuperação judicial com dívida superior a US$ 1 bilhão. Na época, ele atuava como sócio da Catalyst Capital Group, credora da companhia. O plano que executou incluiu recapitalização, conversão de dívidas em participações acionárias e foco em novas fontes de receita — exatamente o tipo de operação que a GDA pretende replicar no Botafogo.
A GDA Luma Capital é especializada em distressed assets — ativos em situação crítica, à beira da insolvência. Outros casos tocados diretamente por De Alba incluem a Frontera Energy, empresa colombiana de exploração de petróleo, a Gateway Casinos, operadora canadense de jogos, e a Pat McGrath Cosmetics, dos Estados Unidos. O padrão é sempre o mesmo: entrar quando o ativo está depreciado, reestruturar e valorizar. O SportNavo apurou que fontes próximas às negociações descrevem a proposta da GDA como a mais estruturada recebida pelo clube desde a saída de Textor.
Os quatro casos juntos revelam um movimento irreversível no futebol brasileiro: a profissionalização da gestão por meio de capital privado internacional, com perfis que vão do consórcio de torcedores-investidores do Fluminense ao especialista em recuperação de ativos do Botafogo. O que ainda falta resolver — e isso é decisivo — é se os conselhos deliberativos de cada clube vão aprovar os termos, especialmente as cláusulas de controle societário e de metas esportivas que costumam gerar impasse nas etapas finais. No caso do Vasco, a pergunta que ninguém ainda soube responder é: se Marinakis assumir o controle e Edu Gaspar vier para o Brasil, o clube carioca passará a funcionar como filial do Nottingham Forest ou manterá autonomia real nas decisões de elenco?










