Os tiros ecoaram dentro de um mercado no bairro Tessele Júnior por volta das 20h de uma quarta-feira comum. Rogério Silva Santos, 36 anos, o "Cachorro Louco" do MMA paraense, tentou usar as paredes do estabelecimento como escudo. Não adiantou. Dois dos três disparos efetuados pela dupla que o perseguia o atingiram. O Corpo de Bombeiros chegou, confirmou o óbito no local, e Lucas do Rio Verde — cidade a 350 km de Cuiabá — acordou na manhã de quinta-feira com uma pergunta sem resposta: quem mandou matar Rogério, e por quê ele estava em Mato Grosso?

O que aconteceu na noite de 6 de maio em Lucas do Rio Verde

Testemunhas relataram à Polícia Militar que Rogério foi perseguido por pelo menos dois suspeitos após um desentendimento. Ele correu. Entrou no comércio do bairro Tessele Júnior como quem busca abrigo num corredor estreito — mas o corredor não tinha saída. Os agressores entraram atrás dele e efetuaram três disparos, dois dos quais acertaram a vítima.

A Polícia Civil e a Politec isolaram a cena para perícia logo depois. Um dado concreto pode mudar o rumo da investigação: os agentes apreenderam o DVR das câmeras de monitoramento do estabelecimento. As imagens estão nas mãos dos investigadores, mas até a última atualização desta reportagem nenhum suspeito havia sido preso ou identificado publicamente.

A polícia admitiu não saber o que Rogério fazia em Mato Grosso. Ele era natural de Almeirim, no Pará, e não há registro oficial de residência fixa no estado. Essa lacuna geográfica é, por ora, o maior obstáculo para traçar a motivação do crime.

O que aconteceu na noite de 6 de maio em Lucas do Rio Verde Quem perseguiu Rogér
O que aconteceu na noite de 6 de maio em Lucas do Rio Verde Quem perseguiu Rogér

A trajetória de Rogério dentro e fora do octógono

O apelido "Cachorro Louco" não era marketing vazio. Quem acompanhou Rogério nas arenas regionais do Norte e Centro-Oeste brasileiro sabe que o estilo dele era pressão constante, o tipo de lutador que não recua mesmo quando deveria — como uma frente fria que avança sem perder força mesmo depois de horas de tempestade. Nas redes sociais, alunos e amigos prestaram homenagens ao atleta descrevendo-o como um treinador dedicado e um exemplo de determinação dentro e fora do treino.

"Um exemplo de determinação e um treinador dedicado", escreveram alunos e amigos nas redes sociais após a morte de Rogério.

Além de competidor, Rogério atuava como treinador. Essa dupla função — atleta e formador — é comum no MMA regional brasileiro, onde a academia muitas vezes sustenta financeiramente a carreira de quem luta. Não há registro de passagem pelo UFC ou pelo Bellator, o que situa Rogério no universo dos atletas que constroem nome em circuitos estaduais e nacionais menores, mas que exercem influência real nas comunidades onde vivem.

  • Nome completo: Rogério Silva Santos
  • Apelido: "Cachorro Louco"
  • Idade: 36 anos
  • Naturalidade: Almeirim (PA)
  • Local do crime: Lucas do Rio Verde (MT), bairro Tessele Júnior
  • Data: 6 de maio de 2026, por volta das 20h

A candidatura a vereador e o perfil além do octógono

Em 2020, Rogério tentou converter a visibilidade do esporte em capital político. Ele concorreu a uma vaga de vereador em Almeirim, no Pará, pelo Podemos — partido de centro que naquele ciclo eleitoral apostou em nomes com apelo popular fora da política tradicional. Rogério não se elegeu, mas o movimento revelava alguém que enxergava a luta como plataforma, não como fim.

Esse perfil híbrido — atleta, treinador, candidato — é mais comum do que parece no interior do Brasil. Lutadores de MMA acumulam reconhecimento local que políticos convencionais levam anos para construir. A candidatura de Rogério em 2020 seguia essa lógica. Segundo apuração do SportNavo, não há registros de novas tentativas eleitorais após aquela disputa.

"A polícia não soube informar o que ele estaria fazendo em Mato Grosso", informou a Polícia Civil de Lucas do Rio Verde após o crime.

A presença de Rogério em Lucas do Rio Verde — cidade conhecida pela produção agroindustrial e pelo crescimento acelerado nas últimas décadas — levanta hipóteses que a investigação ainda não confirmou. Ele poderia estar a trabalho, visitando contatos do meio esportivo ou por razões pessoais. A polícia não descartou nenhuma linha e aguarda o resultado da análise das imagens do DVR apreendido no mercado.

O que a investigação ainda precisa responder

O desentendimento citado por testemunhas à Polícia Militar pode ter raízes em Mato Grosso ou pode ter viajado com Rogério desde o Pará. Duas hipóteses permanecem abertas: o conflito era local, ligado a algo que aconteceu nos dias anteriores ao crime em Lucas do Rio Verde; ou os suspeitos o seguiram de outra cidade, o que tornaria o assassinato uma execução planejada.

A diferença entre as duas hipóteses muda completamente o perfil dos suspeitos e o tempo necessário para a investigação. Com o DVR em mãos, a Polícia Civil tem condição de identificar rostos, placas de veículos e a sequência exata dos movimentos dentro e fora do mercado. Esse material é, tecnicamente, o elo mais forte da cadeia investigativa neste momento.

Rogério Silva Santos morreu aos 36 anos sem que ninguém ao redor conseguisse protegê-lo. A Polícia Civil de Cuiabá e de Lucas do Rio Verde segue investigando o caso, e a identificação dos dois suspeitos filmados pelas câmeras do estabelecimento é o próximo passo concreto esperado pelos investigadores.