A última vez que o Brasil chegou a uma Copa do Mundo com tantos titulares em estado de incerteza física foi em julho de 2014, quando Neymar fraturou a terceira vértebra lombar contra a Colômbia e Thiago Silva cumpriu suspensão na semifinal — dois desfalques que mudaram o destino de uma geração inteira diante da Alemanha. Doze anos depois, a história ameaça rimar: a pré-lista confirmada pelo Lance! com 49 nomes para a Copa do Mundo de 2026 carrega ao menos cinco atletas cuja presença no torneio depende de recuperação médica, não de desempenho em campo.

Os cinco nomes que Carlo Ancelotti pode perder antes de 1º de junho

Neymar é o caso mais emblemático. O atacante do Santos completou 33 anos em fevereiro e acumula mais de 18 meses de afastamento após a ruptura do ligamento cruzado anterior e do menisco do joelho esquerdo, sofrida em outubro de 2023 com a camisa da Seleção. Na Copa de 2022, disputou apenas dois jogos antes de ser cortado por entorse no tornozelo — lesão que já havia comprometido sua participação no Mundial de 2014. O histórico de fragilidade física é documentado: nas últimas três temporadas europeias ao PSG, Neymar atuou em apenas 14 partidas oficiais. Voltou a jogar pelo Santos em 2026, mas o volume de minutos ainda é insuficiente para garantir seis semanas de torneio de alta intensidade.

Alisson, do Liverpool, também gera preocupação real. O goleiro gaúcho de 32 anos, eleito o melhor do mundo em 2019, sofreu lesão muscular na coxa direita em março de 2026 e ficou fora de partidas decisivas da Premier League 2025/26. Na Copa de 2022, foi titular absoluto e teve aproveitamento de 72,7% na fase de grupos — Brasil venceu dois, empatou um. A dúvida sobre sua recuperação completa antes do prazo de inscrição da FIFA (1º de junho) levou Carlo Ancelotti a manter Hugo Souza, do Corinthians, na pré-lista como quarta opção.

Vini Jr., do Real Madrid, é o terceiro nome. O atacante de 24 anos sofreu estiramento muscular na coxa esquerda em abril de 2026 e foi poupado nas rodadas finais de La Liga. Artilheiro da Seleção nas Eliminatórias com 8 gols em 14 jogos, ele é insubstituível no esquema de Ancelotti — mas seu histórico de lesões musculares recorrentes (três episódios desde 2023) acende um alerta que não pode ser ignorado.

Bremer, da Juventus, retornou de ruptura do ligamento cruzado anterior sofrida em outubro de 2024. O zagueiro de 27 anos, um dos melhores da Serie A 2023/24 com 87% de duelos aéreos vencidos, disputou apenas 11 partidas na temporada 2025/26. A Juventus administrou sua carga com cautela, e a comissão médica da CBF terá de avaliar se ele suporta o ritmo de cinco ou mais partidas em três semanas.

Richarlison, do Tottenham, completa a lista. O centroavante de 28 anos acumula três cirurgias no joelho esquerdo desde 2022 e disputou apenas 19 jogos pelo Tottenham na temporada 2025/26. Na Copa de 2022, foi artilheiro do Brasil com 3 gols em 5 partidas — incluindo o hat-trick contra a Coreia do Sul. Mas sua condição física atual é a mais instável da lista.

O efeito cascata nos planos de Ancelotti

Cada corte potencial provoca um rearranjo de proporções diferentes. A ausência de Vini Jr. obrigaria Ancelotti a reposicionar Raphinha, do Barcelona, como referência pela esquerda — função que o catalão já exerceu com eficiência em 2025/26, marcando 22 gols em 47 partidas. A perda de Alisson abriria caminho para Bento, do Al-Nassr, que foi titular na Copa América de 2024 e tem 31 anos de experiência acumulada. Já o corte de Bremer forçaria a entrada de Fabrício Bruno, do Cruzeiro, ou de Vitor Reis, do Girona — dois perfis com muito menos rodagem internacional.

O caso Richarlison é o que gera maior efeito cascata no ataque. Sem ele, Ancelotti teria de escolher entre Pedro, do Flamengo — artilheiro da Copa Libertadores de 2022 com 12 gols — e Igor Jesus, do Nottingham Forest, que marcou em sua estreia pela Seleção em 2024. Nenhum dos dois tem o histórico de grandes torneios que o camisa 9 do Tottenham construiu.

O que a Holanda ensina sobre cautela médica antes da convocação

O Brasil não está sozinho nessa equação de incerteza. Ronald Koeman, técnico da Holanda, adiou a divulgação da lista final de 26 convocados de 25 para 27 de maio justamente para avaliar a condição de Justin Kluivert, do Bournemouth, e Jurrien Timber, do Arsenal — além de Memphis Depay, do Corinthians, que esteve lesionado desde março.

"Ao termos dois dias extras, podemos ter mais certeza de que os jogadores que vamos selecionar estão em boa forma. Além disso, nos dá a oportunidade de ver, conversar e avaliar pessoalmente vários jogadores que estão na disputa por uma vaga na seleção final durante os dias de treinamento de 25, 26 e 27 de maio." — Ronald Koeman, técnico da Holanda

O que para o treinador holandês é uma "peneira" de última hora, para a comissão técnica brasileira é uma decisão que precisa ser tomada com base em laudos médicos objetivos. O prazo da FIFA é 1º de junho — e nessa data, os 26 nomes precisam estar inscritos sem margem para substituição por lesão posterior à inscrição, exceto em casos de emergência comprovada.

A convocação final e o precedente histórico de 1998

Historicamente, o Brasil já viveu cortes de peso na reta final de preparação. Em 1998, Edmundo foi incluído na lista às vésperas do Mundial da França após a lesão de Sávio — e a Seleção chegou à final. Em 2002, Ronaldo foi convocado apesar das dúvidas sobre sua condição física após episódio convulsivo em 1998, e terminou artilheiro do torneio com 8 gols em 7 partidas. A história mostra que a CBF tem tradição de apostar em nomes consagrados mesmo sob risco físico.

Ancelotti anunciará a lista oficial antes de 1º de junho. Se Neymar, Alisson, Vini Jr., Bremer e Richarlison confirmarem presença, o Brasil entra no torneio com o elenco mais valioso da história — estimado em mais de 1,2 bilhão de euros pelo Transfermarkt. Se dois ou mais ficarem de fora, a Seleção precisará de um redesenho tático que o treinador italiano ainda não foi obrigado a apresentar publicamente. É o mesmo cenário que a Argentina viveu em junho de 2014, quando Sergio Agüero entrou lesionado no Mundial e atuou em apenas três partidas — só que agora a aposta é diferente, porque o banco brasileiro tem profundidade que aquela geração argentina simplesmente não tinha.