Quem estava no entorno do Maracanã no último domingo responde a essa pergunta de um jeito diferente de quem assistiu de longe: como é possível que um jovem de 18 anos saia de um estádio para ver seu time jogar e volte para casa sem a visão de um olho? Vasco e Flamengo dividiram o campo, a torcida dividiu as arquibancadas, e Arthur Cortines Laxes dividiu o espaço público com uma Polícia Militar que, segundo o próprio relato do torcedor, operava em estado de tensão explosiva naquele fim de tarde.

Arthur é estudante de nutrição na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Tinha 18 anos completos quando foi ao Maracanã ver o clássico — um programa que, nas palavras que ele próprio usaria, é clássico de domingo no Rio. Saiu do jogo tentando desviar da confusão, foi pelo canto, tentou se afastar. Não adiantou. Uma cavalaria avançou sobre as grades onde torcedores tentavam se proteger, a correria tomou conta do entorno do Maracanãzinho, e um disparo de bala de borracha o atingiu no olho direito. O resultado: perda total da visão no olho.

O que Arthur viu antes de parar de enxergar

O relato de Arthur Cortines é detalhado o suficiente para levantar questões sérias sobre o protocolo da operação policial naquele domingo. Ele descreve ter avistado um carro do BEPE (Batalhão Especializado em Policiamento em Estádios) e um policial que, nas suas palavras, estava extremamente nervoso, empunhando uma arma e ordenando grosseiramente que uma família que discutia atrás do veículo se retirasse.

"Fui indo com calma, pelo canto. Já dava pra ver um carro do BEPE, e tinha um policial extremamente nervoso, com uma arma na mão, pedindo, grosseiramente, para uma família que estava brigada atrás do carro sair de lá", descreveu Arthur.

Depois de passar pela área, Arthur voltou a ouvir sinais de confusão. Uma cavalaria avançou, as pessoas correram, e ele subiu em uma grade próxima ao Maracanãzinho tentando se proteger. Foi nesse momento que o projétil o atingiu.

"Veio uma cavalaria e houve correria. Subi em uma grade branca, mais ou menos perto do Maracanãzinho, e, nisso, vi que os policiais estavam começando a jogar os cavalos na grade, em cima das pessoas que estavam paradas", relatou o torcedor.

O que chama atenção no relato não é apenas o desfecho trágico, mas a sequência de decisões operacionais que o antecedeu: um agente visivelmente alterado, cavalaria usada contra pessoas paradas em grade, e o disparo de munição de impacto controlado em área de alta densidade de civis. Cada um desses elementos, isolado, já seria matéria de procedimento interno. Juntos, apontam para uma falha sistêmica, não para um acidente isolado.

A Alerj aciona PM e MP, mas a família ainda espera a Polícia Civil

A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj (CDDHC), presidida pela deputada estadual Dani Monteiro (PSOL), visitou Arthur no hospital na segunda-feira e anunciou que enviará ofícios ao Governo do Estado, à Polícia Militar e ao Ministério Público do Rio de Janeiro. Os documentos cobram acesso às imagens da operação, identificação dos agentes envolvidos, abertura de procedimento administrativo e eventual afastamento dos policiais responsáveis pelo disparo.

"A perda da visão de um jovem torcedor de 18 anos, por óbvio despreparo policial, exige resposta imediata do Estado. É inadmissível que a família ainda esteja sem informações e sem qualquer contato sobre o andamento das investigações. Não vamos aceitar impunidade e queremos celeridade na responsabilização", declarou a deputada Dani Monteiro.

Os ofícios serão endereçados especificamente à Secretaria de Segurança Pública e ao Regimento de Polícia Montada da PMERJ — o que indica que a comissão já identifica a cavalaria como parte central do incidente. A CDDHC também acionará o MP-RJ para abertura de investigação paralela. O dado mais perturbador, no entanto, é que até o momento em que os familiares de Arthur prestaram suas declarações, a Polícia Civil ainda não havia entrado em contato com a família para colher depoimentos ou prestar qualquer esclarecimento sobre o caso.

Quando a bala de borracha vira questão de política pública de segurança em estádios

O caso de Arthur Cortines não é o primeiro a expor as contradições do modelo de policiamento em clássicos cariocas, mas a gravidade da lesão — perda permanente de visão em um olho — coloca o debate em outro patamar. O SportNavo acompanha há anos os relatórios de incidentes em jogos de alto risco no Rio, e o padrão se repete: operações de cavalaria em espaços confinados, uso de munição de impacto controlado sem critério claro de proporcionalidade, e ausência de prestação de contas posterior.

A bala de borracha, tecnicamente classificada como munição menos letal, foi desenvolvida para situações em que o uso de força letal seria desproporcional, mas em que o controle da multidão exige intervenção física. O problema é que "menos letal" não significa inofensiva — quando disparada a curta distância ou em direção à cabeça, pode causar cegueira permanente, traumatismo craniano e até morte. Protocolos internacionais de uso de força recomendam que esse tipo de munição seja disparado abaixo da linha da cintura, nunca em direção ao rosto.

O que Arthur viu antes de parar de enxergar Quem responde pela visão que Arthur
O que Arthur viu antes de parar de enxergar Quem responde pela visão que Arthur

Arthur Cortines foi atingido no olho. Isso, por si só, já levanta a questão sobre se o disparo seguiu qualquer protocolo — ou se foi feito por um agente que, como o próprio torcedor descreveu, estava visivelmente fora de controle emocional antes mesmo de a situação escalar.

A Comissão da Alerj tem agora nas mãos a oportunidade de transformar um caso individual em política pública: as imagens da operação, se obtidas, podem revelar se houve comando para o uso de munição de impacto controlado ou se foi uma decisão individual de um agente. A identificação dos envolvidos determinará se haverá responsabilização criminal ou apenas administrativa. E a investigação paralela do MP-RJ definirá se o Estado reconhece, formalmente, que falhou com Arthur Cortines naquele domingo no Maracanã. Se a família de Arthur ainda não foi ouvida pela Polícia Civil até a publicação desta matéria, qual garantia existe de que os agentes envolvidos serão identificados antes que as imagens da operação sejam apagadas ou se tornem inacessíveis?