É uma armadilha com coreografia ensaiada. O que parece um encontro casual em um bar da Lapa ou uma conversa iniciada num aplicativo de relacionamento é, na realidade, uma operação criminal com papéis definidos, substâncias pré-selecionadas e rota de fuga planejada. Só que os números que a Polícia Civil do Rio de Janeiro vem acumulando nos últimos meses revelam algo que contraria a narrativa de crime improvisado.
A ilusão do crime oportunista desfeita pelos dados
A narrativa popular trata o golpe do "Boa Noite, Cinderela" como oportunismo urbano — mulheres que aproveitam a desatenção de turistas em noites de festa. Os registros policiais contam uma história diferente. A suspeita presa em Honório Gurgel pela 25ª e 40ª Delegacias de Polícia acumula 39 anotações criminais por roubo e tinha cinco mandados de prisão em aberto no momento da captura. Ela havia fugido do sistema penitenciário em março de 2025, durante uma saída temporária para visita ao lar — e seguiu operando por meses. Em sua residência, na Comunidade Mundial, agentes apreenderam medicamentos utilizados para dopar vítimas e celulares, evidências de uma estrutura de trabalho, não de improviso.
No caso dos turistas britânicos Mihailo Petrovic e Diego Bravo, a operação foi igualmente metódica. As três suspeitas — Amanda Couto Deloca, 23 anos, Raiane Campos de Oliveira, 27, e Mayara Ketelyn Américo da Silva, 26 — conheceram as vítimas em um bar na Lapa na madrugada de 8 de agosto, adulteraram uma caipirinha com substância que causa sonolência e desorientação, e deslocaram o grupo até Ipanema. Um vídeo próximo ao Posto 9 registrou um dos jovens cambaleando na areia enquanto as suspeitas deixavam o local de táxi. O prejuízo: dois celulares, saques, transferências bancárias e compra de criptomoedas, totalizando cerca de R$ 110 mil.
O perfil que os dados revelam sobre as aplicadoras do golpe
Raiane Campos de Oliveira, ainda foragida, já havia sido condenada por crime semelhante em 2023, quando um turista inglês relatou ter sido dopado e roubado no Rio. Ela acumula mais de 20 anotações criminais. A delegada Carla Ferrão, coordenadora da operação que resultou na prisão de Amanda em Duque de Caxias, foi direta na avaliação:
"Esta prisão demonstra o comprometimento da Polícia Civil do Rio de Janeiro em dar uma resposta rápida e eficiente aos crimes que atentam contra a segurança de cidadãos brasileiros e estrangeiros, reforçando o trabalho incansável no combate à criminalidade."
A apuração do SportNavo junto aos registros policiais mostra que o perfil das vítimas não é aleatório. Turistas estrangeiros e idosos concentram a maior parte dos casos — grupos com menor familiaridade com o ambiente local e, no caso dos idosos, maior vulnerabilidade farmacológica às substâncias utilizadas. A suspeita de Honório Gurgel chegou a dopar um homem de 89 anos, encontrado ainda sob efeito da droga e com severo comprometimento da capacidade de reação. Os benzodiazepínicos — classe de medicamentos que inclui ansiolíticos e sedativos — figuram entre as substâncias identificadas nas investigações, de acordo com a Polícia Civil.
Quem pensa que basta evitar bares noturnos para escapar do golpe está calculando errado.
Aplicativos de relacionamento como porta de entrada para o crime
A migração para plataformas digitais representa a evolução mais significativa do modus operandi. A suspeita de Honório Gurgel usava aplicativos de relacionamento para mapear e se aproximar das vítimas antes do encontro presencial — o que inverte completamente a lógica do "crime de oportunidade". Há seleção prévia, abordagem calculada e escolha deliberada de perfis vulneráveis. Como diz o ditado, quem não tem cão caça com gato: sem acesso fácil a ambientes turísticos, as criminosas encontraram nos algoritmos de relacionamento uma ferramenta de prospecção de vítimas tão eficiente quanto qualquer bar da Zona Sul.
O Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou Amanda, Raiane e Mayara por roubo com violência imprópria, furto qualificado por fraude eletrônica e associação criminosa — três tipificações que, juntas, indicam que o MP reconhece a natureza organizada da atividade. O órgão pediu ainda que as acusadas indenizem cada vítima em R$ 30 mil por danos materiais e morais. Amanda foi encaminhada ao presídio de Benfica após a prisão; Raiane e Mayara seguem foragidas, sob investigação da Delegacia Especial de Apoio ao Turismo (Deat), que também é responsável pelo caso de Honório Gurgel.










