Não é Jannik Sinner quem sai ganhando com a ausência de Carlos Alcaraz em Roland Garros 2026. Pelo menos não da maneira que a narrativa óbvia sugere. O espanhol, bicampeão vigente e número dois do mundo, confirmou na última sexta-feira sua retirada do torneio parisiense — que começa em 18 de maio — por causa de uma lesão no punho direito contraída no Barcelona Open, onde abandonou após a primeira partida. A ausência dele não libera o caminho de Sinner: ela transforma o italiano no único alvo de todo o campo.

A lesão que reabriu Roland Garros para o pelotão

Alcaraz havia conquistado o título parisiense em 2024 e 2025, sendo que na final do ano passado superou o próprio Sinner em um confronto que já entrou para o imaginário do tênis moderno. Aos 22 anos e com sete títulos de Grand Slam no currículo, o espanhol chegou à temporada de saibro 2026 como favorito natural a um tricampeonato inédito em Paris desde a era Nadal. A comparação com Rafael Nadal — 14 títulos em Roland Garros entre 2005 e 2022 — é inevitável, mas serve aqui para dimensionar o que Alcaraz estava construindo: uma relação de dominância com o saibro parisiense que poucos tenistas da história alcançaram antes dos 25 anos.

O ex-finalista de US Open Greg Rusedski foi direto ao avaliar a situação do espanhol:

"Ele precisa olhar para o quadro de longo prazo e dizer que tem uma carreira de dez anos pela frente. Não pode se dar ao luxo de ter uma lesão no punho que se torne um problema crônico. Olhe para Juan Martín del Potro — um dos maiores do jogo. Ele nunca resolveu o problema no punho e nunca voltou a ser o jogador que foi."
O aviso tem peso histórico: del Potro, campeão do US Open 2009 e número três do mundo em 2018, teve a carreira destruída por três cirurgias no punho entre 2010 e 2019.

Sinner carrega o peso de ser o único favorito

Com Alcaraz fora, a estrutura do chaveamento muda concretamente. O quarto cabeça de chave — posição que seria de Alcaraz — fica em aberto. Nos rankings ao vivo, o americano Ben Shelton ocupa provisoriamente essa vaga, mas já foi eliminado no Internazionali BNL d'Italia. Felix Auger-Aliassime (sexto) e Alex de Minaur (oitavo) também saíram cedo em Roma. Taylor Fritz sequer jogou no torneio italiano por lesão. Esse vácuo abre uma janela real para Daniil Medvedev, que pode subir ao quarto lugar no ranking se avançar às semifinais em Roma — onde provavelmente precisará bater o próprio Sinner.

O problema de Sinner não é técnico. É estrutural. O italiano venceu apenas dois títulos na carreira em saibro: em Buenos Aires (2021) e em Monte Carlo, no início de abril deste ano. Chegar a Roland Garros como favorito absoluto com esse histórico na superfície é uma equação delicada. Na avaliação do SportNavo, a comparação mais precisa é com Stefan Edberg em 1992: o sueco chegou ao Aberto da Austrália daquele ano como número um do mundo e favorito unânime, mas a pressão do rótulo pesou mais do que qualquer adversário — ele foi eliminado nas quartas de final por Richard Krajicek. Sinner, claro, tem mais títulos e melhor forma atual, mas o paralelo estrutural é real.

Medvedev e a janela que o saibro raramente abre

Daniil Medvedev é o nome que a ausência de Alcaraz coloca mais diretamente em evidência — e o russo sabe disso. Após um 6-0, 6-0 sofrido para Matteo Berrettini em Monte Carlo, resultado que ele próprio classificou como um dos mais difíceis de digerir na carreira, Medvedev voltou a jogar em Madri e reagiu. Questionado sobre como o vestiário recebeu a notícia da retirada de Alcaraz, foi revelador:

"Acho que, no geral, no vestiário, todo mundo sabe que é uma loucura o que aconteceu, porque ninguém esperava. É louco também porque, sabe, se você quer ganhar um Grand Slam agora, ou mesmo um Masters 1000, há uma grande chance de você precisar bater Alcaraz e Sinner. Bem, agora você só precisa bater um deles."

O histórico de Medvedev em Paris é o ponto fraco da equação. O russo chegou três vezes à final do Australian Open, disputou duas semifinais em Wimbledon e é campeão do US Open 2021 — mas em Roland Garros nunca passou das quartas de final. O saibro lento de Paris historicamente anula sua variação de ritmo e o expõe a trocas de fundo de quadra prolongadas. Ainda assim, em um chaveamento sem Alcaraz e com Sinner carregando o peso do favoritismo absoluto, uma campanha profunda do russo deixou de ser improvável para se tornar plausível.

Roland Garros 2026 começa em 18 de maio com Alexander Zverev, Novak Djokovic e o próprio Medvedev como candidatos secundários reais. É o mesmo cenário que Pete Sampras viveu em Roland Garros 1996 — favorito com Agassi ausente, cercado de oportunistas no saibro — só que agora a aposta mais arriscada não é a de quem ataca o trono, mas a de quem o ocupa.