Diz-se que o Flamengo tem o melhor olho do Brasil para contratar. A narrativa é sedutora — Gabigol, Arrascaeta, De La Cruz. Na verdade, o clube acumula erros caros que raramente recebem o mesmo holofote das acertos. Jorge Carrascal é o mais recente e o mais caro desses equívocos: R$ 107 milhões investidos num meia que, em 2026, já pediu para sair após acumular três expulsões em competições decisivas.
O que R$ 107 milhões compraram para o Flamengo
O valor total desembolsado pelo Flamengo para contratar Carrascal foi de R$ 107 milhões: R$ 94,2 milhões em direitos federativos e luvas, mais R$ 12,8 milhões pagos a intermediários na negociação. O colombiano foi comprado do CSKA Moscou por cerca de R$ 80 milhões da parte federativa — o restante foi custo operacional da transação. Para ter clareza do que esse número representa, basta comparar: o Flamengo emprestou Lorran ao Pisa, da Itália, por 500 mil euros (R$ 3,1 milhões) em agosto de 2025, com cláusula de compra de 4 milhões de euros por 50% dos direitos econômicos do jovem meia. Ou seja, o custo de Carrascal equivale a mais de 13 aquisições completas de Lorran nas condições daquele contrato.
Contratar um jogador caro não é, por si só, um erro. O erro está na gestão do risco. Carrascal chegou como titular indiscutível, com contrato até dezembro de 2029, numa aposta de longo prazo que exigia maturidade comportamental e consistência técnica. Nenhuma das duas se confirmou na proporção exigida pelo investimento.
Três cartões vermelhos e um clima nos bastidores que não se conserta com treino
Só em 2026, Carrascal foi expulso três vezes em duelos de alta voltagem: na derrota na Supercopa diante do Corinthians; contra o Fluminense, na 11ª rodada do Campeonato Brasileiro; e contra o Palmeiras, no sábado, 23 de maio. Três expulsões em menos de cinco meses de temporada. Para contextualizar a gravidade desse número, pense num maestro de orquestra que abandona o palco três vezes no meio da sinfonia — a plateia para de comprar ingresso, e os músicos param de confiar no regente.
Errou. Repetiu. Errou de novo.
Segundo apuração do jornalista Diogo Dantas, os cartões vermelhos são apenas a ponta do iceberg. Extracampo, Carrascal é descrito como alguém que mantém rotina de festas frequentes com amigos no condomínio onde mora — comportamento que gerou atrito crescente com a comissão técnica e com parte do elenco. A pressão da torcida após a expulsão contra o Palmeiras foi o gatilho final: o estafe do colombiano passou a estudar sua saída junto à diretoria rubro-negra.

Segundo a coluna de Diogo Dantas, a expectativa é de que Carrascal seja vendido de volta ao futebol da Rússia, de onde foi comprado, já na próxima janela de transferência.
O problema concreto é que, até agora, o Flamengo não recebeu nenhuma proposta formal nem sondagem oficial por Carrascal. O clube está numa posição clássica de quem precisa vender sem ter comprador — e isso, no mercado de transferências, tem um nome: desvalorização de ativo.

A Copa do Mundo como última âncora de valor para recuperar o investimento
A diretoria do Flamengo conta com o desempenho de Carrascal na Copa do Mundo para tentar recuperar parte dos R$ 107 milhões. A Colômbia está classificada para o torneio, e uma boa campanha individual do meia poderia atrair clubes europeus ou do Oriente Médio dispostos a pagar mais do que qualquer oferta atual. É uma estratégia legítima — mas frágil, porque depende de uma variável que o Flamengo não controla.
O cenário financeiro do clube fica ainda mais delicado quando se considera a situação com o Estrela da Amadora, de Portugal. O clube português entrou com pedido judicial para ter perdoada 90% de uma dívida superior a 20 milhões de euros — e o Flamengo é o maior credor da lista, com 5,7 milhões de euros (R$ 33,3 milhões) a receber por negociações envolvendo Igor Jorge e André Luiz. Se o plano de recuperação do Estrela for aprovado pela Justiça portuguesa, os cariocas receberiam apenas 570 mil euros (R$ 3,3 milhões) — um calote de aproximadamente R$ 30 milhões numa decisão que está fora da jurisdição esportiva, o que inviabiliza recursos diretos à Fifa ou ao TAS.
Dois prejuízos em andamento simultâneo: um de R$ 107 milhões que pode não ser recuperado e outro de até R$ 30 milhões que depende de uma corte estrangeira. O retorno de Lorran, que disputou apenas 9 partidas pela Serie A italiana e marcou 1 gol pelo Pisa — insuficiente para que o clube italiano exercesse a cláusula de compra de 4 milhões de euros — fecha o quadro de um departamento de futebol que precisa rever seus critérios de avaliação de risco tanto na saída quanto na entrada de jogadores.
De acordo com o Coluna do Fla, o Flamengo pagou R$ 94,2 milhões por direitos federativos e luvas, mais R$ 12,8 milhões por intermediação — totalizando R$ 107 milhões pela contratação de Carrascal.
O colombiano está à disposição do técnico para o jogo desta terça-feira (26) contra o Cusco, às 21h30 (horário de Brasília), no Maracanã, pela última rodada da fase de grupos da Libertadores. É provável que seja uma das últimas vezes que Carrascal entre em campo com a camisa rubro-negra em condições normais — a janela de transferências de julho será o momento decisivo para o Flamengo descobrir quanto o mercado está disposto a pagar por um investimento que custou R$ 107 milhões e rendeu, até agora, três expulsões e um pedido de saída.









