US$ 10,6 milhões transferidos em seis parcelas entre fevereiro e maio de 2025 — esse é o número que colocou o senador Flávio Bolsonaro no centro de uma das histórias mais desconcertantes da política brasileira recente. O dinheiro saiu de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e foi parar num fundo nos Estados Unidos vinculado à produção do filme Dark Horse, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro dirigida pelo cineasta Cyrus Nowrasteh e estrelada pelo ator Jim Caviezel. O total negociado era ainda maior: US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação da época.
O banqueiro preso e o projeto cinematográfico de R$ 134 milhões
Quando o Banco Central liquidou o Banco Master em novembro de 2025, o nome de Daniel Vorcaro já estava em investigações sobre um esquema de fraudes financeiras que, segundo a Polícia Federal, pode alcançar R$ 12 bilhões. Em 2026, Vorcaro foi preso e passou a negociar acordo de delação premiada. É nesse contexto que emerge a relação entre o banqueiro e o senador Flávio Bolsonaro — uma negociação que, conforme revelou o portal The Intercept Brasil em 13 de maio de 2026, estava documentada em áudios, mensagens, contratos e comprovantes bancários.
Segundo o Intercept, o dinheiro destinado ao filme trafegou por caminhos específicos: o Banco Master transferiu R$ 2,329 milhões diretamente à empresa Entre Investimentos, identificada como veículo de repasse entre Vorcaro e a produção cinematográfica. Esse dado foi extraído das declarações de Imposto de Renda do banco, conforme apuração do jornal O Globo.
A linha do tempo das cobranças — e o áudio que virou prova
As conversas entre Flávio e Vorcaro têm data precisa. Em 24 de setembro de 2025, o senador enviou ligações de voz ao banqueiro. No dia 1º de outubro, as mensagens continuaram. Mas é num áudio gravado naquele período que o teor da negociação fica mais explícito. Flávio, visivelmente pressionado pelos atrasos nos pagamentos, enviou uma mensagem que o Estadão e a TV Globo confirmaram como autêntica.
"Apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando. Mas está num momento muito decisivo aqui do filme. E como tem muita parcela para trás, cara, está todo mundo tenso, e eu fico preocupado aqui com o efeito ao contrário do que a gente sonhou para o filme. Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, uns caras renomadíssimos lá no cinema americano, mundial. Ia ser muito ruim."
A intermediação das negociações coube ao publicitário Thiago Miranda, fundador e sócio do Portal LeoDias, que confirmou ao jornal O Globo ter participado das tratativas com Vorcaro. Miranda reconheceu que os repasses chegaram a R$ 62 milhões, mas foram suspensos quando a crise no Banco Master se aprofundou. A mensagem mais emblemática foi enviada por Flávio um dia antes da primeira prisão do banqueiro — e ele tratava Vorcaro com intimidade inequívoca.
"Estou e estarei contigo sempre", escreveu o senador ao banqueiro naquele contato específico.
A negação que durou menos de um dia
Na manhã de 13 de maio, repórteres do Intercept abordaram Flávio Bolsonaro pessoalmente para questionar o financiamento. A resposta foi categórica: "De onde você tirou essa informação? É mentira." Horas depois, ao deixar o Supremo Tribunal Federal, o senador simplesmente virou as costas para a imprensa. Decidiu.
A negação durou menos de 24 horas. Após a publicação da reportagem, Flávio gravou um vídeo confirmando o pedido de recursos a Vorcaro, mas negando qualquer irregularidade. A nota oficial distribuída à imprensa adotou um tom defensivo e, ao mesmo tempo, ofensivo: "Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem. Isso é muito diferente das relações espúrias do governo Lula e seus representantes com Vorcaro. Por isso, reitero, CPI do MASTER JÁ."
Flávio pré-candidato e o peso político do caso Master
O timing da revelação é politicamente sensível. Flávio Bolsonaro é pré-candidato à Presidência da República e o caso Master representa uma encruzilhada: ao mesmo tempo em que pede uma CPI para investigar o banco, o senador precisa explicar por que buscou ativamente o financiamento de seu principal dono para um projeto pessoal de R$ 134 milhões. O SportNavo apurou que as implicações políticas do caso devem se intensificar nas próximas semanas, especialmente se Vorcaro firmar acordo de delação e mencionar detalhes das negociações com a família Bolsonaro.
O filme Dark Horse — cuja tradução livre seria "Azarão" — envolve nomes de peso do cinema americano. Jim Caviezel é conhecido internacionalmente por papéis em produções de forte apelo conservador e cristão, como A Paixão de Cristo. O diretor Cyrus Nowrasteh tem histórico em produções polêmicas nos Estados Unidos. A produção, portanto, não era um projeto amador: os contratos com esses profissionais criavam obrigações financeiras reais, o que explica o tom de desespero nos áudios de Flávio cobrando Vorcaro.
Conforme os documentos da investigação do caso Master confirmados pelo Estadão, os valores referidos nos registros internos do banco batem com o que o Intercept publicou — US$ 10 milhões já transferidos até 2025, num total acordado de US$ 24 milhões. A investigação da Polícia Federal sobre as fraudes no Master segue em andamento, e Vorcaro permanece preso enquanto negocia os termos de seu acordo com as autoridades. O conteúdo exato do que ele poderá revelar sobre os repasses ao projeto cinematográfico dos Bolsonaro é a peça que falta nessa cronologia.

US$ 10,6 milhões transferidos em seis parcelas entre fevereiro e maio de 2025 — esse continua sendo o número que colocou Flávio Bolsonaro nessa história. Só que agora ele já não pode mais dizer que é mentira.








