R$ 14 milhões — é o peso aproximado do passado que o São Paulo carrega nas costas enquanto tenta construir uma temporada de 2026 minimamente competitiva. Somadas as dívidas com ex-técnicos e o déficit de R$ 7 milhões registrado nas contas de 2025, reprovadas pelo Conselho Deliberativo, o clube do Morumbi vive uma crise financeira que já ultrapassou o departamento de contabilidade e invadiu a sala de troféus — porque hoje determina quem treina o time.

A conta que Zubeldía e Crespo deixaram no caixa tricolor

Quem argumenta que a gestão do São Paulo apenas sofreu com azar nas trocas de treinador precisa olhar os números com mais rigor. Luis Zubeldía, demitido em junho de 2025, deixou um passivo de R$ 7,5 milhões — valor que inclui não só a multa rescisória, mas obrigações com sua comissão técnica. Hernán Crespo, contratado antes que a situação de Zubeldía fosse sequer parcialmente equacionada, agregou mais R$ 4,5 milhões ao romper o vínculo em abril deste ano. São R$ 12 milhões acumulados em menos de 12 meses de trocas de comando, num clube que registrou déficit de R$ 7 milhões no mesmo período. Contratar Crespo enquanto a dívida com Zubeldía ainda sangrava não foi azar — foi ausência de planejamento.

Há ainda Dorival Júnior, que consta no balanço financeiro com R$ 3,2 milhões a receber entre valores em nome pessoal e da empresa do treinador. O clube amortizou cerca de R$ 1,45 milhão dessa dívida entre 2024 e 2025, mas o restante segue como passivo registrado. O total geral de acordos trabalhistas e processos cíveis do Tricolor chegou a R$ 80,3 milhões em 31 de dezembro de 2025, envolvendo aproximadamente 40 credores — ex-jogadores, intermediários e, agora, uma fila de ex-técnicos que cresceu rápido demais.

Por que Roger Machado permanece sem convencer ninguém

Há um princípio narrativo no filme Moneyball que separa gestão baseada em dados de gestão baseada em hábito: quando você não pode se dar ao luxo de errar, cada decisão precisa ser calculada friamente. O São Paulo fez o oposto. O próprio presidente do clube admitiu, em áudio que circulou publicamente, a razão real da permanência do treinador.

A conta que Zubeldía e Crespo deixaram no caixa tricolor R$ 14 milhões presos no
A conta que Zubeldía e Crespo deixaram no caixa tricolor R$ 14 milhões presos no
"Não temos condição de pagar mais uma multa. Estamos pagando multa do Dorival, do Crespo e do Zubeldía", revelou uma fonte interna do clube ao comentarista João Pedro Sgarbi, do Jogo Aberto, na segunda-feira (11).

Roger Machado chegou ao 16º jogo à frente do time com sete vitórias, quatro empates e cinco derrotas — aproveitamento de 52%. Após a derrota por 3 a 2 para o Corinthians no clássico de domingo (10), a pressão da torcida e de setores da diretoria se intensificou. Ainda assim, demiti-lo custaria R$ 2 milhões em rescisão contratual, valor que o clube declarou publicamente não ter condições de pagar. A permanência de um treinador que não convence a maioria dos torcedores, portanto, não é uma aposta técnica — é uma rendição financeira.

O que a reprovação do balanço revela sobre a gestão tricolor

O Conselho Deliberativo reprovou o relatório financeiro referente ao exercício de 2025 por conta de um déficit de R$ 7 milhões sem justificativas claras. Esse dado vai além de uma questão contábil: sinaliza que a falta de transparência é estrutural, não pontual. Contratar Crespo com Zubeldía ainda no passivo, não liquidar as pendências com Dorival antes de assumir novos compromissos e agora manter Roger Machado por impossibilidade de pagar a multa — cada decisão isolada parece reativa; em conjunto, formam um padrão.

"O Roger, a única coisa que o mantém, eu escutei de uma pessoa muito forte no São Paulo: 'não temos condição de pagar mais uma multa (rescisória)'" — João Pedro Sgarbi, comentarista, Jogo Aberto, 11 de maio de 2026.

Gerir um clube de futebol com passivo crescente e sem reserva para correções de rota é como construir um edifício sobre fundação rachada: cada andar novo aumenta o risco de colapso do que já existe. O próximo teste imediato é a partida de volta da 5ª fase da Copa do Brasil, quarta-feira (13), em Caxias do Sul, contra o Juventude — o São Paulo venceu o jogo de ida por 1 a 0 e precisa de apenas um empate para avançar às oitavas. Classificar-se não resolve os R$ 12 milhões em dívidas com ex-técnicos, mas uma eliminação precoce reduziria ainda mais a margem financeira do clube para qualquer movimento no mercado ao longo do ano.