27 de maio de 2026. Na noite de quarta-feira, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia emitiu a Licença de Instalação para o bloco 2 do projeto Serra Dourada — o trecho remanescente que faltava para que a ISA Energia Brasil (ISAE3, ISAE4) pudesse dar início às obras da linha de transmissão de 500 kV entre Juazeiro III, Campo Formoso II e Barra II. Com isso, os três blocos do maior projeto de transmissão em curso no país estão simultaneamente autorizados a avançar. Os números, como sempre, contam a história melhor do que qualquer discurso.
O que a licença do bloco 2 libera no mapa elétrico da Bahia
Os blocos 1 e 3 do Serra Dourada já operavam em regime de obras: o primeiro desde agosto de 2025, cobrindo o trecho de 500 kV Barra II – Correntina – Arinos 2 e a Subestação Correntina; o terceiro desde janeiro de 2026, na linha Barra II – Buritirama, com 96,50 km de extensão. Agora, o bloco 2 fecha o triângulo operacional do projeto, habilitando a espinha dorsal da linha Juazeiro III – Campo Formoso II – Barra II. Juntos, os três blocos somam 1.093 quilômetros de linhas de transmissão aérea em 500 kV, três novas subestações e a ampliação de outras três já existentes — tudo concentrado no oeste baiano, uma das zonas de maior potencial de geração eólica e solar do hemisfério sul.

Para quem acompanha o setor elétrico com a lupa que eu aplico ao ranking de Wimbledon, o dado que não pode passar despercebido é o da Receita Anual Permitida (RAP): R$ 322 milhões no ciclo 2025/2026. Esse número representa a remuneração garantida à transmissora pela prestação do serviço público — uma métrica que funciona como o prize money de um Grand Slam: define quem tem fôlego financeiro para executar projetos de longo prazo.
Um gargalo histórico que o Serra Dourada foi desenhado para romper
Para entender a magnitude do projeto, é necessário recuar até os anos 1990. Quando o Sistema Interligado Nacional (SIN) foi reestruturado após a privatização do setor elétrico, o Nordeste foi conectado ao Sudeste por linhas dimensionadas para uma matriz predominantemente hidrelétrica. Naquele momento, ninguém projetava que o oeste baiano se tornaria, três décadas depois, um dos maiores polos de energia eólica e solar do continente. O resultado foi um gargalo estrutural: geração crescendo em ritmo acelerado, mas capacidade de escoamento estagnada. Dados da Aneel apontam que projetos renováveis no oeste da Bahia chegaram a aguardar anos na fila de conexão justamente por insuficiência de infraestrutura de transmissão.
O Serra Dourada foi concebido exatamente para romper esse gargalo. Arrematado no Lote 1 do Leilão de Transmissão nº 01/2023 da Aneel, o projeto cria um corredor prioritário que conecta geradores eólicos e solares do oeste baiano e do norte de Minas Gerais ao restante do SIN. Nas palavras do diretor-executivo de projetos da ISA Energia Brasil, Dayron Urrego:
"O Projeto Serra Dourada é um marco na transição energética brasileira. Ele destrava o potencial de fontes renováveis e fortalece a infraestrutura elétrica nacional, especialmente em regiões estratégicas como o Oeste da Bahia e o Norte de Minas Gerais."
A comparação que faço, e que o SportNavo já explorou em análises do setor de infraestrutura, é direta: o Serra Dourada para a energia renovável nordestina tem o mesmo papel estrutural que a construção de Itaipu teve para a industrialização do Sul e Sudeste nos anos 1980 — não gera energia, mas viabiliza que a energia gerada chegue onde precisa chegar.
O peso financeiro de R$ 3,15 bilhões e o que ele representa no ranking de projetos do setor
O investimento estimado pela Aneel é de R$ 3,157 bilhões, calculado com base nos valores da época do leilão, em junho de 2023. Trata-se de um dos maiores aportes privados em infraestrutura elétrica no Brasil nos últimos cinco anos — comparável, em escala, aos projetos de transmissão que interligaram o Norte ao restante do SIN durante a expansão da Belo Monte. A empresa projeta mais de 6.100 postos de trabalho diretos e indiretos durante o período de obras, distribuídos em cerca de 20 canteiros espalhados ao longo dos 1.093 km de extensão.
Outro dado que merece atenção analítica: o projeto viabiliza a conexão de novos projetos de transmissão leiloados pela Aneel em 2024, criando um efeito multiplicador. Cada quilômetro de linha que entra em operação habilita geradores que estavam represados na fila de acesso à rede — um efeito em cascata que transforma o Serra Dourada em âncora de um ecossistema mais amplo de investimentos renováveis no Nordeste.
O cronograma até março de 2029 e o que precisa acontecer para ele ser cumprido
Com os três blocos agora autorizados, a ISA Energia enfrenta o desafio logístico de coordenar frentes de obra simultâneas ao longo de mais de mil quilômetros em terreno semiárido. O prazo máximo estipulado pela Aneel para a entrada em operação é março de 2029 — pouco menos de 34 meses a partir da obtenção da última licença. Historicamente, projetos de transmissão de grande porte no Brasil apresentam atrasos médios de 12 a 18 meses, segundo dados consolidados do próprio órgão regulador. O bloco 1, com obras iniciadas em agosto de 2025, já acumula nove meses de execução, o que sugere que o projeto avança dentro de um ritmo compatível com o cronograma.
A obtenção da licença do bloco 2 pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia — e não pelo Ibama federal, que havia licenciado o bloco 1 — indica que a empresa diversificou sua estratégia de licenciamento ambiental, reduzindo a dependência de um único órgão e, com isso, diminuindo o risco de gargalo burocrático. Com os três blocos em obras simultâneas e a RAP de R$ 322 milhões já assegurada para o ciclo vigente, o Serra Dourada chega à sua fase mais crítica com 34 meses no relógio e todos os blocos no tabuleiro.










