Se o julgamento fosse encerrado apenas com o voto da Comissão de Ética, Corinthians e Andrés Sanchez já estariam em lados opostos de uma decisão definitiva. Mas o processo não funciona assim — e é exatamente aí que o desfecho desta segunda-feira (25) ainda guarda incerteza.
O Conselho Deliberativo do clube analisa hoje a recomendação de expulsão de Andrés Sanchez, ex-presidente entre 2018 e 2020. O parecer foi elaborado por Leonardo Pantaleão, presidente em exercício do Conselho, e aprovado por unanimidade pelos demais membros da Comissão de Ética. A votação no Parque São Jorge será aberta e nominal — cada conselheiro registra publicamente seu voto, o que aumenta o peso político da decisão.
O número que chegou ao relatório de Pantaleão
O valor central do processo é R$ 480.169,60 — montante calculado pelo promotor Cássio Conserino com correção pela inflação e acréscimo de juros, referente a despesas pessoais realizadas no cartão corporativo do Corinthians entre agosto de 2018 e fevereiro de 2021. O período cobre a gestão de Andrés e os meses imediatamente seguintes ao seu mandato.
A investigação administrativa foi iniciada pela Comissão de Justiça em janeiro de 2026. Em fevereiro, o Conselho Deliberativo chegou a suspender o processo — Andrés estava com medidas restritivas que o impediam de contato com pessoas do Parque São Jorge. A decisão foi revogada logo depois, e o procedimento retomou curso. Em março, Andrés não compareceu à oitiva agendada, alegando justamente a existência dessa restrição judicial.
O relatório de Pantaleão é categórico:
"Os fatos apurados revelam conduta incompatível com os deveres ético-institucionais inerentes à condição de associado e, com ainda maior razão, ao exercício da função diretiva máxima no âmbito do Sport Club Corinthians Paulista, especialmente no que se refere à observância da lealdade institucional, da responsabilidade patrimonial, da finalidade na utilização de recursos corporativos e do dever de prestação de contas."
Para Pantaleão, o caso ultrapassa qualquer margem de tolerabilidade institucional. A irregularidade identificada é a mesma que levou o Ministério Público de São Paulo a denunciar Andrés à Justiça criminal — o uso do cartão de crédito corporativo para gastos de natureza pessoal.
Os argumentos da defesa de Andrés Sanchez
A defesa do ex-presidente apresentou quatro linhas de contestação ao longo do processo interno. Em outubro de 2025, Andrés já havia se afastado voluntariamente das funções no Conselho Deliberativo e no CORI (Conselho de Orientação) após a denúncia do MP-SP.
- Ausência de política interna que regulamentasse o uso do cartão corporativo à época
- Ambiente institucional de "informalidade pretérita", com gastos que se confundiam entre cartão pessoal e corporativo
- Ausência de dolo ou má-fé nas transações realizadas
- Ressarcimento de parte das despesas apontadas como irregulares e compatibilidade institucional de outra parcela
Para a Comissão de Ética, nenhum desses argumentos foi suficiente para afastar a responsabilidade. O entendimento unânime do colegiado é que o cargo de presidente do clube impõe padrão de conduta mais rigoroso — não menos. A ausência de regulamento interno não afasta o dever de probidade.
"Trata-se de situação que ultrapassa o campo da tolerabilidade institucional e compromete, de forma relevante, a confiança que deve existir entre o associado e a entidade", escreveu Pantaleão no documento obtido pelo ge.
O que a votação nominal do Conselho Deliberativo decide agora
O Conselho Deliberativo não é obrigado a seguir a recomendação da Comissão de Ética — pode acatar ou rejeitar o parecer. A votação aberta e nominal, porém, cria um registro público de cada posição, o que torna mais difícil para os conselheiros se distanciarem politicamente da decisão coletiva.
Se a expulsão for aprovada, Andrés perde o vínculo associativo com o clube — o que implica perda dos direitos de participação e voto nas assembleias do Corinthians, além de inelegibilidade para cargos na estrutura do clube. A decisão também reforça, no âmbito administrativo, a narrativa que o MP-SP já construiu na esfera criminal.
O SportNavo apurou que o processo administrativo e o criminal correm em paralelo e de forma independente — uma absolvição no Conselho não produziria efeito sobre a denúncia do promotor Conserino, assim como uma condenação criminal não vincula automaticamente o clube.
A sessão desta segunda-feira no Parque São Jorge é o ponto de chegada de um processo aberto em janeiro de 2026, que passou por suspensão, retomada, oitiva não realizada e manifestações sucessivas da defesa. O relatório foi entregue por Pantaleão logo após a última manifestação da defesa de Andrés, e os demais membros da Comissão tiveram cinco dias para se posicionar antes de o documento ser encaminhado ao presidente do Conselho Deliberativo, Romeu Tuma Júnior, que pautou a votação.
Quando o resultado for proclamado, o Corinthians terá um registro formal e irreversível: cada conselheiro, com nome e voto à mostra, terá dito publicamente o que pensa sobre os R$ 480.169,60. É o tipo de conta que, uma vez aberta, não fecha mais com o silêncio — como uma partitura que continua soando mesmo depois que o músico sai do palco.








