O cheiro de grama sintética ainda era novidade na Rua Javari quando o grupo Contea Capital fechou a compra de 90% das ações do futebol do Juventus por R$ 480 milhões, em outubro de 2025. A assembleia aprovou o modelo de SAF com 83,85% dos votos dos associados — uma maioria expressiva que, no entanto, não apagou as tensões internas: a torcida organizada Setor 2 rompeu com a diretoria, alegando distanciamento das raízes do clube da Mooca. Não há tragédia: há contabilidade.
Sete meses depois da formalização da Sociedade Anônima do Futebol, o Juventus conquistou o acesso à Série A1 do Campeonato Paulista — algo que não acontecia desde 2008, 19 anos de ausência da elite estadual. A semifinal contra o Votuporanguense resumiu bem o projeto: vitória por 2 a 1 na Rua Javari, com gols de Elkin Muñoz e Romário, seguida de um empate sem gols na Arena Dr. Plínio Marin, em Votuporanga. Suficiente para carimbar o passaporte à decisão e, com ele, o retorno à primeira divisão.
O equatoriano que fez o Moleque Travesso andar mais rápido
O atacante Elkin Muñoz foi a peça mais vistosa do acesso. O equatoriano terminou a campanha com sete gols na Série A2 de 2026, liderando o ataque juventino ao lado de Paulo César (cinco gols) e Romário (quatro). Na semifinal de ida, foi Muñoz quem empatou o jogo depois de o Juventus sair atrás no placar com gol de Marcos Nunes — uma virada que definiu o tom da classificação. A contratação do jogador estrangeiro não foi acaso: ela foi resultado direto da parceria firmada com a Football PRO Performance, empresa especializada em análise de desempenho, que hoje monitora mais de dois mil atletas mapeados pelo clube.

"Hoje nós contamos com o setor de inteligência, onde ele faz o mapeamento de todas as competições nacionais, monitora todos os atletas brasileiros ao redor do mundo. O Juventus conta com mais de dois mil atletas mapeados", explicou o diretor de futebol Arthur Fraga.
A estruturação do scouting foi acompanhada de investimentos em análise de desempenho, nutrição, fisiologia e departamento médico — setores que, segundo a própria gestão, estavam defasados antes da chegada da SAF. O zagueiro Thomás Kayck, titular na campanha, contribuiu com um gol e uma assistência, sinalizando que a reestruturação defensiva também rendeu frutos práticos.
O plano tem datas, metas e um estádio para reformar
A leitura dominante sobre o retorno do Juventus ao Paulistão A1 é a de uma história romântica — o clube "raiz" da Mooca resistindo ao tempo. A contra-leitura, mais fria, revela um roteiro corporativo com prazos bem definidos: Série D do Brasileirão em 2026, Série C em 2028, Série B em 2031 e Série A em 2035. O CEO da SAF, Cláudio Fiorito, foi direto ao ponto quando questionado sobre as prioridades imediatas.
"Conseguir o acesso à Série D é a prioridade para que a gente possa, no próximo ano, poder ter um calendário recorrente e, com isso, atrair os atletas dos quais nós pretendemos que façam parte do projeto", afirmou Fiorito.
Calendário recorrente é, no vocabulário das SAFs brasileiras, sinônimo de receita previsível — o combustível que sustenta contratações e estrutura. Sem jogos nacionais regulares, o clube fica refém do Paulistão como única vitrine, o que limita o perfil de atleta que consegue atrair. O raciocínio é linear, mas exige execução: o Juventus terminou a primeira fase da A2 de 2026 em sétimo lugar, com 23 pontos em 15 jogos — a pior campanha entre os quatro semifinalistas. Avançou, mas sem folga.
O SportNavo apurou que a reforma do estádio Conde Rodolfo Crespi, a Rua Javari, está no centro do plano de valorização patrimonial do grupo Contea Capital. A arena, hoje um ponto turístico do futebol paulistano pelas arquibancadas compactas e a atmosfera de proximidade com o campo, passará a comportar 15 mil pessoas após as obras. A troca do gramado natural pelo sintético — decisão que gerou protestos de parte da torcida — foi a primeira intervenção visível dessa agenda de modernização.
O que o acesso ao Paulistão realmente compra para a SAF
Calculado. Esse é o adjetivo que melhor descreve o movimento do Contea Capital. O retorno à Série A1 em 2027 garante ao Juventus exposição em transmissões de maior alcance, confrontos contra Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos — e, consequentemente, uma base de negociação mais robusta para patrocinadores. Com 70 participações históricas na elite paulista e o título estadual de 1934 no currículo, o clube tem um patrimônio de marca que justifica o investimento de R$ 480 milhões distribuídos ao longo de dez anos.

A síntese entre o romantismo da torcida e a frieza do plano de negócios está na final da Série A2 contra a Ferroviária. O primeiro jogo terminou 0 a 0 na Rua Javari. O segundo, nesta quarta-feira, às 19h15, na Arena da Fonte Luminosa, em Araraquara, define quem leva o título — a Locomotiva joga por um novo empate para conquistar o tetracampeonato da A2; o Juventus precisa vencer para encerrar uma espera que remonta a 2005, último ano em que ergueu a taça da divisão. O acesso já está garantido para os dois lados. O que está em jogo é a narrativa — e, para a SAF do Moleque Travesso, narrativas vendem cotas.








