Todo mundo sabe que o Corinthians pagou R$ 41,6 milhões ao Santos Laguna e se livrou do transfer ban da Fifa. O que a maioria não viu foi a velocidade com que o clube voltou a tropeçar no mesmo buraco — desta vez por R$ 780 mil, uma fração do valor que acabara de desembolsar, atrasados na Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD) da CBF. Como uma parcela tão pequena, diante de um passivo tão grande, foi suficiente para travar o planejamento esportivo de 2026 é a história que merece ser contada.

A cláusula que o Corinthians subestimou na CNRD

O acordo firmado na CNRD previa um plano coletivo de pagamento de R$ 76 milhões distribuídos ao longo de seis anos, com parcelas trimestrais. O Cuiabá figura como o maior credor individual do plano — a dívida pela contratação do volante Raniele totaliza aproximadamente R$ 18 milhões. A segunda parcela venceu em 17 de outubro e não foi quitada. Não foi a primeira vez: em julho, o clube mato-grossense já havia reclamado formalmente junto à CNRD pelo mesmo motivo.

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O que o Corinthians aparentemente não leu com atenção suficiente foi o parágrafo que trata de reincidência. O relator Marcelo Lessa foi explícito no documento:

"O prazo de cinco dias para apresentar os comprovantes de pagamento não deve ser considerado uma extensão do prazo de pagamento, tendo a finalidade de proporcionar ao Corinthians um tempo hábil apenas para organizar a sua manifestação e apresentação dos comprovantes de pagamento."
O clube entendia ter até o dia 22 para regularizar a situação. A CNRD discordou e aplicou o ban na segunda-feira, 20. O plano também estipula que atrasos reiterados podem resultar em transfer ban por pelo menos seis meses sem possibilidade de suspensão mesmo após a quitação — cláusula que o Corinthians está a um tropeço de ativar definitivamente.

Cristiano Dresch, presidente do Cuiabá, não poupou palavras ao comentar o caso:

"O Corinthians jamais deveria estar na primeira divisão usando jogadores que eles não pagaram. O Corinthians deve mais de 100 milhões na Fifa. Tem esse plano coletivo na CNRD. São jogadores que estão dando ponto para eles. Compraram e não pagaram. O que o Corinthians está fazendo na Série A?"
A declaração foi feita antes da notificação formal, quando Dresch já havia comunicado ao ge que acionaria a CBF naquela mesma segunda-feira — e assim foi feito.

Os R$ 41,6 milhões ao Santos Laguna e a janela que durou dias

Poucos dias antes do novo ban nacional, o Corinthians havia encerrado um calvário de quase cinco meses no âmbito internacional. A dívida com o Santos Laguna pela contratação do zagueiro Félix Torres foi originalmente condenada pelo CAS em US$ 6,145 milhões — equivalente a R$ 33,47 milhões na época da decisão, em agosto. Com juros e encargos acumulados ao longo do processo, o valor final ficou em R$ 41,6 milhões, pagos à vista. A negociação foi conduzida pelo presidente Osmar Stabile e pelo diretor executivo de futebol Marcelo Paz.

Para viabilizar o pagamento, o clube contou com dois aportes relevantes: aproximadamente R$ 70 milhões oriundos do contrato com a Liga Forte União (LFU) pela venda de direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro, e R$ 77 milhões pelo tetracampeonato da Copa do Brasil — embora metade desse valor tenha sido retido pela Caixa Econômica Federal como parte do acordo de refinanciamento da Neo Química Arena firmado em 2022. Com o ban da Fifa encerrado, o clube anunciou imediatamente o zagueiro Gabriel Paulista, de 35 anos, que já havia realizado exames médicos. A janela durou menos do que o torcedor teve tempo de comemorar.

O planejamento de 2026 preso entre dívidas antigas e reforços engatilhados

A ironia operacional do momento é que o Corinthians chegou a ter, simultaneamente, um transfer ban nacional e um internacional ativos — situação que revela a profundidade do problema estrutural. Quando o ban da Fifa foi levantado, o clube já estava tecnicamente inadimplente com a CNRD. A gestão Stabile conseguiu equacionar o passivo externo com recursos extraordinários, mas o plano doméstico de R$ 76 milhões em seis anos exige disciplina de caixa trimestral que o clube ainda não demonstrou ter.

No mercado, os nomes mapeados para reforço revelam a ambição do planejamento: o volante Alisson, do São Paulo, estava sendo avaliado em uma possível troca de atletas com o rival; o meio-campista Luis Mandaca, do Juventude, e Dieguinho, do Ceará, também constavam no radar. Todos esses movimentos ficam suspensos enquanto o ban nacional não for derrubado. O Corinthians informou, em nota, que efetuaria o pagamento dos R$ 780 mil ainda na segunda-feira 20 e entraria com recurso pedindo a reconsideração da decisão — mas como o trânsito da Avenida Paulista às 18h, a intenção de chegar a tempo não garante que se chegue.

O risco concreto para as próximas semanas está na cláusula de reincidência. Com dois atrasos registrados na mesma dívida — julho e outubro —, um terceiro episódio pode tornar o ban irrecorrível por seis meses, independentemente de qualquer pagamento posterior. O Corinthians tem a próxima parcela trimestral vencendo em janeiro de 2026. Se o clube quitar o débito atual e regularizar a situação, a janela de transferências estará aberta. Se não cumprir o prazo de janeiro, a pergunta deixa de ser sobre reforços e passa a ser outra: quantos titulares do elenco atual foram comprados com parcelas que ainda não existem no caixa?