Na tarde desta quinta-feira (30), Rafael Menin publicou um vídeo em suas redes sociais confirmando o que bastidores do futebol mineiro já sinalizavam há semanas: o afastamento do acionista majoritário da SAF do Atlético-MG da gestão cotidiana do clube. Pedro Daniel, que já ocupava a função de CEO, absorve agora a autoridade plena sobre as operações diárias, enquanto Paulo Bracks assume como vice-presidente de Futebol — redesenhando o organograma da SAF atleticana de forma definitiva.

O motivo do afastamento e o que muda no organograma

Menin foi direto ao justificar a decisão. A MRV, incorporadora da qual é CEO e principal responsável, exige presença que o empresário não conseguia conciliar com o envolvimento intenso no clube desde 2023.

"Ao longo dos últimos anos, eu acompanhei o Atlético de uma forma muito próxima, intensa e diária, participando muito e ativamente da maior parte das decisões e da construção desse apaixonante projeto. Vou me afastar um pouco do dia a dia da operação do clube por uma necessidade maior da minha presença aqui na MRV"
, declarou o empresário no vídeo. Com a transição, Pedro Daniel centraliza as decisões executivas e a rotina operacional, enquanto Bracks cuida especificamente da área esportiva — separação de papéis que o próprio clube descreveu como avanço na consolidação de um modelo de governança.

A nota oficial do Atlético reforçou a narrativa de profissionalização: o clube destacou que a gestão de Daniel vem "implementando melhorias operacionais, fortalecendo a disciplina financeira e buscando mais eficiência em todas as áreas". A linguagem corporativa escolhida não é acidental — é uma resposta calculada às críticas de interferência excessiva do acionista nas decisões técnicas e esportivas, algo que gerou atrito visível durante os últimos dois anos.

O histórico que explica as críticas da torcida

Há quem defenda que Menin deveria ter permanecido no comando, argumentando que sua proximidade com o projeto garantia coesão estratégica. O argumento tem alguma lógica superficial: fundadores engajados frequentemente sustentam culturas vencedoras em clubes SAF. O problema é que os números do período Menin não sustentam esse raciocínio. Desde que a família assumiu a SAF em 2023, o Atlético acumulou quatro finais perdidas em sequência — os vices na Copa do Brasil e na CONMEBOL Libertadores em 2024, o vice na CONMEBOL Sul-Americana de 2025, e dois desempenhos abaixo da média no Campeonato Brasileiro. Nenhum clube brasileiro com investimento comparável ao do Galo nesse período acumulou tantos vice-campeonatos sem uma conquista sequer para compensar o ciclo.

O motivo do afastamento e o que muda no organograma Rafael Menin se afasta do At
O motivo do afastamento e o que muda no organograma Rafael Menin se afasta do At

O próprio Menin reconheceu o peso do momento no vídeo.

"Sei das críticas que recebo, entendo muitas delas, discordo de algumas, especialmente quando elas fogem do bom tom ou se tornam desproporcionais, mas faz parte, é a vida que segue"
, afirmou. A fala revela consciência do desgaste, mas também uma leitura que minimiza parte das demandas legítimas da torcida — que não cobra apenas resultado pontual, mas consistência que, até aqui, não chegou.

A leitura real sobre governança e os riscos da transição

Na avaliação do SportNavo, o movimento tem duas faces que precisam ser analisadas separadamente. A positiva: a delegação de poder para Pedro Daniel e a criação de uma estrutura com papéis definidos é, tecnicamente, o modelo correto para uma SAF que quer operar como empresa. Clubes como o Red Bull Bragantino e o Botafogo de John Textor funcionam exatamente assim — o acionista define estratégia e aprova orçamentos, a gestão executiva toca o dia a dia. A face negativa, que o SportNavo apurou em conversas com fontes do futebol brasileiro, é que transições de poder em clubes endividados e pressionados por resultados frequentemente geram paralisia decisória no mercado de transferências — exatamente o momento em que o Galo mais precisa de agilidade para reforçar o elenco.

Menin garantiu que seguirá presente no estádio e na Cidade do Galo, participando de decisões estratégicas.

"Tenho certeza absoluta do que foi construído até aqui, de onde queremos e onde vamos chegar. O Galo segue com uma estrutura definida, com clareza de papéis e responsabilidades"
, reiterou. A retórica é de continuidade, mas a prática depende de um alinhamento fino entre Menin, Daniel e Bracks — trio que ainda precisa provar que funciona com autonomias bem delimitadas.

O que Pedro Daniel e Paulo Bracks precisam entregar agora

O Atlético-MG retorna ao campo pelo Campeonato Brasileiro, competição em que o clube terminou o ciclo 2024 abaixo das expectativas geradas pelo orçamento da SAF. Pedro Daniel herda uma estrutura com a Cidade do Galo como ativo real e uma dívida histórica que a própria SAF foi criada para equacionar. Paulo Bracks, por sua vez, assume o futebol em um momento de pressão imediata: a Copa Sul-Americana de 2025 já custou mais uma final perdida, e a janela de transferências exige decisões rápidas para recompor um elenco que chegou ao limite físico e emocional. O próximo teste de credibilidade da nova dupla de gestão será exatamente a capacidade de agir sem esperar sinalização do acionista para cada contratação relevante — autonomia real, não a que aparece em nota oficial.