Confesso: eu errei sobre Rafael Thyere em 2024. Quando seu nome surgiu associado à Chapecoense, minha leitura imediata foi a de um zagueiro em fim de ciclo, buscando porto seguro numa equipe em reconstrução. Hoje, com 36 jogos disputados no Brasileirão Série A de 2026, vejo o quanto aquela análise era rasa — e por quê.
O dado que ninguém olha mas explica tudo
Rafael Thyere completou 36 partidas na temporada atual. Não é o número de gols — foram zero — nem de assistências — também zero. É a presença, bruta e inegociável, de um zagueiro de 33 anos em todos os jogos disputados pela Chapecoense no campeonato. Em uma equipe que precisava de coluna vertebral depois de retornar à elite do futebol brasileiro, esse índice de participação não é detalhe: é a estrutura.
Rafael Thyere de Albuquerque Marques nasceu em João Pessoa, Paraíba, em 17 de maio de 1993. Tem 190 centímetros de altura, 84 quilos e carrega na bagagem algo que nenhum jovem recruta do mercado consegue comprar: a experiência de ter erguido a Copa Libertadores da América em 2017, pelo Grêmio. Esse tipo de capital simbólico — e tático — é invisível nas planilhas, mas se manifesta nos 90 minutos, nos posicionamentos de bola parada, na comunicação defensiva que mantém linhas compactas.
Como ele chega a esse número
O arco de carreira de Thyere tem turning points claros. No Grêmio, além da Libertadores de 2017, foi campeão da Copa do Brasil de 2016 — dois títulos de peso continental e nacional em sequência, o tipo de ciclo que define gerações de zagueiros. Depois, sua passagem pelo Sport Recife desenhou outra fase igualmente marcante: três títulos do Campeonato Pernambucano, em 2019, 2023 e 2024, consolidando-o como referência defensiva no futebol nordestino.
É precisamente esse histórico que explica o presente. Um zagueiro que disputou Copa Libertadores, Copa do Brasil e múltiplos estaduais de alto nível não chega a Chapecó para se aposentar em paz — chega para ser líder. E os 36 jogos na Série A de 2026 validam essa escolha da comissão técnica: Thyere foi convocado, foi escalado e permaneceu. Em um elenco que, como qualquer clube recém-chegado à elite, oscila em rendimento, a constância de presença de um jogador nessa posição tem valor estratégico específico.
Em maio de 2026, a Chapecoense empatou em 1 a 1 com o Red Bull Bragantino na Arena Condá, partida marcada por drama e expulsão. Thyere estava em campo. Esse tipo de contexto — situações de pressão, desvantagem numérica, necessidade de gestão de resultado — é onde a experiência de quem venceu Libertadores se diferencia do restante do elenco.
Os outros números que falam o mesmo idioma
O que para o zagueiro argentino é a Copa Libertadores como rito de passagem obrigatório, para o português é a UEFA Champions League como legitimação definitiva. No futebol brasileiro, a lógica é similar: um zagueiro que disputou a fase final da Libertadores pelo Grêmio em 2017 — campanha histórica do clube gaúcho — carrega uma credencial que poucos colegas de posição na Série A de 2026 possuem. Não é apenas a taça: é o nível de pressão, o padrão tático exigido e o repertório de situações adversas que esse percurso forja.
Thyere veste a camisa 15 da Chapecoense e, em termos de disponibilidade, está entre os jogadores mais utilizados do elenco na temporada atual. Para um zagueiro de 33 anos, isso refuta qualquer narrativa de declínio físico imediato. A posição de zagueiro central, diferente de laterais ou meias de pressão, permite longevidade maior quando o atleta mantém leitura de jogo apurada — e é exatamente o que o histórico de Thyere sugere.
A comparação com outros zagueiros experientes da Série A de 2026 é inevitável. Poucos têm o binômio título continental mais regularidade atual de forma tão consolidada. Zero gols e zero assistências em 36 jogos não é falha — é função: a eficiência de um zagueiro defensivo puro se mede em bolas afastadas, duelos ganhos e linhas mantidas, dados que as estatísticas básicas não capturam mas que o técnico lê semana a semana na hora de montar a equipe.
O risco de confiar só nesse dado
Há, porém, uma cilada fácil de cair: tratar a presença constante como garantia de qualidade permanente. Thyere tem 33 anos e está na Chapecoense — um clube que, por mais que esteja na Série A, opera em um contexto de recursos limitados em comparação aos grandes centros. A questão que os próximos 12 meses colocarão à mesa é direta: até quando esse nível de participação se sustenta?
O risco não é de queda abrupta — zagueiros de alto repertório raramente entram em colapso súbito. O risco é de que a Chapecoense, em sua consolidação na elite, precise de um processo de renovação defensiva que gradualmente redistribua minutos. Nesse cenário, Thyere pode manter relevância como jogador-referência e liderança de vestiário, mas sua função pode migrar de titular absoluto para peça estratégica de rodízio.
Para a segunda metade de 2026, há dois cenários realistas. No primeiro, o desempenho coletivo da Chapecoense na Série A sustenta Thyere como titular incontestável — e ele encerra o ano com um dos maiores índices de participação entre zagueiros da competição. No segundo, uma eventual oscilação do clube ou a chegada de reforços abre espaço para gestão de cargas, e Thyere assume papel de mentor. Ambos os cenários são dignos de um profissional com o currículo que ele construiu.
É o mesmo cenário que o próprio Grêmio viveu em 2018, quando os líderes do elenco campeão da Libertadores começaram a dividir espaço com uma geração mais jovem — só que agora a aposta é diferente: Rafael Thyere não está mais no clube que precisa ser protegido por ele, ele é o clube que a Chapecoense escolheu proteger.













