A bola parou no meio do campo e ninguém sabia bem o que fazer com ela — essa cena se repetiu mais vezes do que o esperado nas temporadas em que Raí esteve disponível sem ser decisivo.
O que ele ainda não resolveu
Em 88 jogos oficiais ao longo da carreira, Raí da Silva Pessanha marcou exatamente 1 gol — registrado em 2022, pelo Botafogo, no Campeonato Carioca. Nenhuma assistência documentada nas temporadas subsequentes. Para um meia de 24 anos que acumula passagens por competições como CONMEBOL Libertadores e Copa do Brasil, essa linha de contribuição ofensiva é o número que mais pesa na hora de uma negociação.
O problema não é volume de minutos. Em 2024, ele somou 21 jogos pelo CRB na Série B e outros 21 pelo Botafogo no Carioca — mais 1 na Libertadores. Em 2023, foram 14 partidas na Série A, 14 no Carioca, 6 na Sul-Americana e 2 na Copa do Brasil. O meia esteve em campo. Só não apareceu no placar.
Do ponto de vista financeiro, essa ausência de retorno ofensivo comprime o valor de mercado. O Transfermarkt ainda não divulgou uma precificação atualizada para o jogador nesta janela, mas meias sem participações diretas em gols — em um campeonato com pressão crescente por eficiência como o Brasileirão — tendem a ser negociados com desconto significativo em relação a pares da mesma faixa etária.
Onde está hoje em relação a esse buraco
Na temporada 2026 do Campeonato Brasileiro Série A, Raí soma 1 jogo pelo Juventude, sem gols e sem assistências. A amostra é pequena demais para qualquer conclusão técnica, mas o contexto é relevante: o clube gaúcho disputa a elite nacional em uma posição de tabela que exige aproveitamento consistente, e o camisa 75 ainda não consolidou espaço no time titular.
A mudança de CRB — onde atuou na Série B em 2024 — para o Juventude na Série A representa uma elevação de nível competitivo. O salto entre as divisões é real: o ritmo de jogo é mais alto, os espaços são menores e a exigência de tomada de decisão rápida aumenta. Para um meia que ainda busca consistência ofensiva, esse ambiente pode ser tanto o catalisador quanto o obstáculo.
Raí tem 175 cm e 87 kg — uma estrutura física acima da média para a posição, o que sugere capacidade para disputas físicas no meio-campo. Esse atributo pode ser o pulmão da equipe em jogos de maior desgaste, mas não resolve a questão da criatividade e da finalização que o mercado cobra.
O caminho técnico para tapá-lo
A trajetória no Botafogo entre 2022 e 2024 oferece pistas. O clube carioca passou por uma transformação estrutural profunda nesse período — chegada do grupo John Textor, investimento em elenco, título brasileiro em 2024 e campanha histórica na Libertadores. Raí estava no ambiente certo, mas na periferia das decisões técnicas.
Participar de 1 jogo na Libertadores de 2024 e de 6 na Sul-Americana de 2023 indica que havia confiança técnica pontual da comissão, não ausência de crédito. O problema é que crédito pontual não se converte em valor de mercado sem números de output — gols, assistências, chances criadas.
O caminho mais direto passa por duas frentes:
- Regularidade no time titular do Juventude — acumular sequência de jogos na Série A para gerar dados comparáveis com pares da posição
- Participação direta em gols — ao menos 3 a 5 contribuições ofensivas na temporada 2026 para alterar a percepção de mercado
A idade trabalha a favor. Com 24 anos e contrato no Juventude, Raí ainda está dentro da janela em que clubes de médio porte do Brasil e do exterior aceitam apostar em potencial. Mas essa janela tem prazo: meias sem números ofensivos que chegam aos 26 ou 27 anos tendem a ser classificados como peças de reposição, não de investimento.
O que isso destrava na carreira
Se Raí conseguir fechar a lacuna ofensiva ao longo de 2026, o cenário de valorização é concreto. Meias com passagem por Libertadores e Sul-Americana — mesmo em participações reduzidas — têm apelo em mercados como o português e o árabe, onde o histórico em competições continentais conta como diferencial na ficha técnica.
Do ponto de vista de intermediação, um meia brasileiro de 24 anos com experiência em Série A, Libertadores e Copa do Brasil é um ativo com potencial de exportação. Agentes que trabalham com o mercado europeu de segundo escalão — Portugal, Grécia, Bélgica — costumam buscar exatamente esse perfil: jovem, formado em clube grande, com rodagem continental. O que falta é o número que justifique a comissão de transferência.
A temporada 2026 no Juventude é, portanto, menos sobre o clube em si e mais sobre a construção de um portfólio estatístico. Cada gol ou assistência que Raí registrar neste Brasileirão aumenta diretamente o valor de uma eventual negociação — seja para outro clube brasileiro na próxima janela de julho, seja para uma operação internacional em dezembro.
O mercado não espera narrativa. Espera planilha.
A bola parou no meio do campo e ninguém sabia bem o que fazer com ela — essa cena se repetiu mais vezes do que o mercado tolerará.













