"O jogador mais completo do Brasil hoje não joga no Real Madrid." A frase circulou em corredores de redação europeia nos últimos meses, sempre que a conversa chegava ao estado de forma de Raphinha. A NBC Sports não disse exatamente isso — mas o ranking que a emissora americana publicou com os 25 jogadores mais imperdíveis da Copa do Mundo 2026 chegou perto: o catalão do Barcelona aparece na 7ª posição, enquanto Vinicius Jr., Bola de Ouro 2024, figura apenas na 19ª.

O que os números da NBC revelam sobre Raphinha em 2026

Quem acompanha a temporada 2025/2026 do Barcelona entende o raciocínio da NBC. Raphinha chegou ao clube catalão em 2022 por cerca de 58 milhões de euros e levou dois anos para se firmar como protagonista — mas quando o fez, fez com autoridade. Nesta temporada, o camisa 11 do Barça acumula números que recordam o Ronaldinho Gaúcho da temporada 2004/2005: presença direta em gols, capacidade de jogar por dentro e por fora, e uma liderança que vai além da técnica. Ele se tornou o pulmão criativo de uma equipe que tem Lamine Yamal como garoto-propaganda mas precisa de Raphinha para respirar nos momentos de sufoco tático.

A NBC colocou Yamal em 2º no ranking geral, atrás apenas de Kylian Mbappé, e Ousmane Dembélé em 3º. A presença de dois jogadores do PSG e do Barcelona no pódio não é coincidência — reflete exatamente a hegemonia que esses dois clubes exercem sobre o futebol europeu nesta temporada. Raphinha, convivendo diariamente com Yamal e Dembélé no dia a dia do Barça, absorveu parte dessa aura e chegou à Copa num momento que lembra o Rivaldo de 1998: um jogador que o mundo ainda não parou completamente para observar, mas que a Copa pode transformar em ícone global.

Segundo a avaliação da NBC, Raphinha reúne consistência, versatilidade e impacto em grandes jogos — três critérios que a emissora priorizou ao montar a lista. A emissora destacou que ele é capaz de decidir individualmente, algo que poucos jogadores na lista conseguem fazer com a mesma frequência. Para quem cobriu a Serie A nos anos 90 e viu o que Zidane fazia pela Juventus antes de explodir na Copa de 98 — decisivo sem ser o nome mais badalado do momento —, a trajetória de Raphinha tem ecos reconhecíveis.

Por que Vini Jr. ficou 12 posições atrás do companheiro de seleção

A 19ª posição de Vinicius Jr. vai gerar debate no Brasil, e com razão. O atacante do Real Madrid foi eleito o melhor jogador do mundo em 2024 pela FIFA e pela France Football, e tem uma Champions League no currículo recente. Mas a NBC parece ter pesado dois fatores que complicaram a avaliação: a irregularidade no início da temporada 2025/2026 e as ausências por lesão que reduziram sua participação em momentos decisivos do clube espanhol.

Há um paralelo histórico que ajuda a entender essa leitura. Em 1998, Ronaldo Fenômeno chegou à Copa como o melhor jogador do mundo — e a França de Zidane, que nenhum ranking colocaria acima do Brasil naquele momento, levantou a taça. Rankings feitos às vésperas de Copas capturam forma recente e impacto esperado, não apenas currículo acumulado. Nesse sentido, a NBC aplicou um filtro de presente sobre um passado brilhante, e Vini pagou o preço dessa metodologia.

A lista também posicionou Bruno Fernandes em 6º lugar — à frente de Cristiano Ronaldo, que aparece apenas em 16º. A decisão de colocar o meio-campista do Manchester United acima do ídolo do Al Nassr diz muito sobre os critérios da emissora: relevância no futebol europeu de alto nível, continuidade competitiva e capacidade de influenciar sistemas táticos modernos. CR7, com 41 anos, ainda marca gols na Saudi Pro League, mas opera em um contexto que a NBC claramente não considerou equivalente ao das ligas europeias de elite. Lionel Messi, em 4º, segue sendo tratado como exceção — a única legenda que transcende qualquer critério de liga ou idade.

"Raphinha é o tipo de jogador que transforma uma Copa do Mundo em palco pessoal. Ele chega preparado, em forma, e com fome de mostrar que o Brasil tem mais do que Vinicius", segundo análise da NBC Sports ao justificar a 7ª colocação do atacante.

O que a história das Copas diz sobre jogadores que chegam como azarões de ranking

Copas do Mundo têm uma relação tortuosa com rankings pré-torneio. Em 2002, Ronaldinho Gaúcho era o 4º ou 5º nome do Brasil nas listas internacionais — atrás de Ronaldo, Rivaldo e Roberto Carlos — e terminou como o jogador mais decisivo da campanha, com o gol de cobertura contra a Inglaterra que ainda hoje é discutido em aulas de futebol. Em 2006, Zinedine Zidane aparecia em listas como jogador em declínio, aos 34 anos, e chegou à final com uma performance que envergonhou jogadores 15 anos mais jovens.

O ponto é que rankings como o da NBC são fotografia, não filme. Eles capturam um instante e projetam uma expectativa, mas a Copa do Mundo tem a capacidade de reescrever qualquer narrativa em 90 minutos. Raphinha em 7º e Vini em 19º são pontos de partida para uma conversa, não vereditos. A seleção brasileira, que chega à Copa 2026 com sede de reabilitação depois de eliminações dolorosas nas últimas edições, precisará dos dois funcionando juntos — e a hierarquia entre eles só será definida dentro de campo.

Lautaro Martínez fecha a lista em 25º, o que também revela algo: a Argentina campeã mundial de 2022 ainda orbita em torno de Messi, e os demais jogadores do elenco são tratados como coadjuvantes de luxo por observadores externos. Para a NBC, a Copa 2026 tem um protagonista principal (Mbappé), um fenômeno em ascensão (Yamal, com apenas 18 anos no início do torneio) e um capítulo de despedida (Messi, 38 anos, e Ronaldo, 41). Os brasileiros entram como personagens de segunda cena — e transformar esse status é exatamente o desafio que Raphinha e Vinicius Jr. têm pela frente a partir de junho, quando o Brasil estreia na fase de grupos.