Cinco lesões. Cento e doze dias. Vinte e quatro jogos. Esses três números resumem o pesadelo muscular que Raphinha carrega desde setembro de 2025 — e que voltou a se materializar na noite de sexta-feira, 19 de junho, no Lincoln Financial Field, em Filadélfia, diante do Haiti. E aí vem o problema.

A cena que ninguém queria repetir na Copa do Mundo 2026

Eram os minutos finais do primeiro tempo quando Raphinha participou da jogada que resultaria no segundo gol brasileiro. A bola saiu do seu pé, o Brasil marcou — Matheus Cunha, de perna esquerda, no ângulo direito de Johny Placide —, mas o camisa 11 não festejou. Ficou no chão, com a mão na coxa direita, e não voltou para o segundo tempo. Os exames realizados neste sábado, 20 de junho, confirmaram o diagnóstico que todos temiam: nova lesão muscular na região posterior da coxa direita, o mesmo local que o tirou de campo em setembro de 2025 (58 dias, 13 jogos), em janeiro de 2026 (7 dias, 1 jogo), em fevereiro (13 dias, 3 jogos) e em março, durante o amistoso contra a França, quando ficou 34 dias afastado e perdeu 7 partidas entre Barcelona e Seleção.

A CBF emitiu nota oficial confirmando a lesão e informando que Raphinha seguirá em protocolo de tratamento intensivo, sem previsão de retorno. A princípio, ele não será cortado do torneio — mas deve desfalcar o Brasil na última rodada da fase de grupos, contra a Escócia, na próxima quarta-feira, 24 de junho.

Por que a coxa direita de Raphinha não cicatriza de verdade

Em medicina esportiva, lesões musculares recorrentes no mesmo sítio anatômico raramente são coincidência. Quando um atleta rompe fibras do bíceps femoral — músculo da região posterior da coxa — e retorna ao esforço máximo antes de completar a maturação do tecido cicatricial, a área reparada torna-se mais suscetível a novas rupturas. É o fenômeno que os biomecânicos chamam de reinjury cycle: a cicatriz não tem a elasticidade do músculo original e cede primeiro sob carga intensa. Raphinha, que na temporada 2024/25 havia disputado 57 jogos pelo Barcelona e acumulado 34 gols e 26 assistências, conquistando La Liga, Copa do Rei e Supercopa da Espanha, chegou à 2025/26 como o melhor jogador do mundo em sua posição. Em cinco meses, o músculo da coxa direita foi interrompendo esse protagonismo em ciclos cada vez mais curtos.

A analogia mais honesta é a de uma corda de violão retorcida: cada vez que se arrebenta e se emenda no mesmo ponto, a tensão suportada na próxima afinação é menor. Não porque o músico seja descuidado, mas porque o material mudou. A questão para Carlo Ancelotti e sua comissão médica não é mais se Raphinha vai se machucar, mas quanto tempo a lesão atual vai consumir da Copa.

"O atleta Raphinha passou, neste sábado, por exame de imagem que confirmou lesão muscular na região posterior da coxa direita. O jogador seguirá um protocolo de tratamento intensivo, acompanhado pela equipe médica da Seleção Brasileira, visando sua recuperação e retorno às atividades no menor tempo possível." — Nota oficial da CBF, 20 de junho de 2026.

O contexto tático agrava a situação. Antes mesmo do início do torneio, Ancelotti já havia perdido Estêvão — titular durante a preparação —, Militão, Rodrygo e Vanderson por problemas físicos. Neymar integra a lista de convocados, mas ainda não reúne condições de ser relacionado. A lesão de Raphinha amplia uma lista de baixas que começa a comprometer as alternativas reais na ala direita.

Brasil vence o Haiti, bate recordes de audiência e segura a respiração

Apesar do susto com Raphinha, o Brasil fez o que precisava fazer. Vinicius Júnior foi o protagonista: abriu o placar aos 24 minutos com finalização que resultou no rebote aproveitado por Matheus Cunha; voltou a acionar o atacante do Manchester United aos 36 minutos para o segundo gol; e fechou o primeiro tempo recebendo passe por elevação de Lucas Paquetá para bater rasteiro e marcar o 3 a 0. O Haiti melhorou no segundo tempo, fechou os espaços e impediu a goleada, mas o resultado de 3 a 0 foi construído inteiramente antes do intervalo.

O jogo mobilizou o país em múltiplas plataformas. A Globo registrou cerca de 40 pontos no Rio de Janeiro e 32 em São Paulo — cada ponto equivale a 199 mil telespectadores —, consolidando a liderança com aproximadamente 19,5% dos televisores ligados na Grande São Paulo. O SBT alcançou 11,66 pontos de média na Grande São Paulo, seu melhor desempenho de audiência desde 31 de outubro de 2024, com pico de 13 pontos. No digital, a CazéTV atingiu 16 milhões de dispositivos conectados simultaneamente, superando o recorde anterior da própria emissora, de 12,1 milhões, registrado na estreia do Brasil no torneio. O narrador Everaldo Marques, da Globo, relatou nas redes sociais que precisou narrar toda a partida em pé, pois sentado não conseguia enxergar o campo integralmente da última fileira da tribuna de imprensa.

"Perrengue chique, como dizem por aí. Que a gente tenta tirar de letra, pois desfrutar de uma Copa do Mundo é sempre um privilégio." — Everaldo Marques, narrador da TV Globo, em postagem nas redes sociais após Brasil x Haiti.

O Brasil encerra a fase de grupos contra a Escócia na quarta-feira, 24 de junho. Com Raphinha fora, Ancelotti terá de definir se adianta o retorno do atacante para as oitavas de final — e correr o risco de uma sexta lesão — ou se preserva o jogador para as fases eliminatórias e enfrenta a Escócia com alternativas como Savinho ou Endrick pela direita. A decisão, tecnicamente, já está tomada: o protocolo de tratamento intensivo começa agora, e o relógio da recuperação corre em paralelo ao calendário da Copa.