"Sempre sonhei com esse momento, mas quando a gente realiza é diferente." Quem disse isso foi Igor Thiago, minutos depois de converter o quinto gol do Brasil na goleada por 6 a 2 sobre o Panamá, no Maracanã, neste domingo, 31 de maio. Uma frase simples, mas que carrega o peso de uma trajetória que passou por trabalho de pedreiro e de feirante antes de chegar ao Brentford e, agora, à camisa amarela num amistoso de preparação para a Copa do Mundo.
A goleada sobre o Panamá foi construída em dois tempos com personalidades completamente distintas. O primeiro, com o grupo considerado titular de Ancelotti, terminou em 2 a 1 após Vinícius Júnior abrir o placar com um chute de fora da área e Casemiro ampliar de cabeça em cruzamento do próprio Vini. No meio desse intervalo, a Seleção perdeu intensidade, as linhas se espaçaram e o adversário chegou ao empate numa falta desviada em Matheus Cunha que enganou Alisson. O segundo tempo, com dez substituições simultâneas e apenas Léo Pereira permanecendo em campo, foi outro jogo — e foi justamente esse segundo jogo que criou a maior dor de cabeça positiva para o técnico italiano.
O que Rayan e Igor Thiago fizeram nos 45 minutos que mudaram tudo
Rayan, de 18 anos e revelado nas categorias de base do Flamengo antes de ser vendido ao Bournemouth, foi o primeiro a mostrar serviço no segundo tempo. O atacante abriu o caminho para a goleada, marcando o terceiro gol do Brasil e acendendo a pressão sobre a saída de bola panamenha. O que impressionou não foi apenas a finalização, mas a disposição de pressionar em espaços reduzidos — característica que o grupo titular havia apresentado de forma irregular no primeiro tempo.
Igor Thiago entrou em cena logo depois. Com velocidade suficiente para forçar o goleiro Mosquera a derrubá-lo dentro da área, o centroavante do Brentford converteu o pênalti com frieza. A cena foi acompanhada de perto pela família nas arquibancadas: a esposa, Letícia Carvalho, descreveu o marido como alguém que "veio pra decidir" — e a mãe, Maria Diva, preferiu se esconder atrás de uma conhecida para não ver a cobrança. A história pessoal de Igor, que perdeu o pai ainda jovem e sustentou a família como feirante antes de se profissionalizar, dá contorno a uma celebração que foi mais do que estatística.
Os dois atacantes preenchem uma lacuna técnica que o quarteto ofensivo titular não consegue cobrir. Vinícius Júnior, Raphinha, Luiz Henrique e Matheus Cunha, que iniciaram o jogo, são jogadores de velocidade e criação pelas beiradas, mas nenhum deles é um centroavante de ofício. Igor Thiago e Rayan podem atuar nessa função — o que abre uma alternativa tática concreta para Ancelotti, a depender do adversário.
Os números que colocam os jovens na disputa real por uma vaga
Rayan chegou ao Bournemouth na temporada 2024/2025 após passagem pelo sub-20 do Flamengo, onde foi artilheiro da Copinha de 2023. No clube inglês, disputou minutos na Premier League ainda com 17 anos — um percurso que poucos atacantes brasileiros conseguiram replicar no mesmo ritmo de crescimento. Igor Thiago, por sua vez, fez 10 gols pelo Brentford na Premier League 2025/2026, tornando-se um dos centroavantes brasileiros com mais participações diretas em gols no futebol inglês na temporada atual.
Endrick, que também pode atuar como centroavante e é outro nome em disputa por espaço, ficou em branco contra o Panamá. O atacante do Lyon, que tem 18 anos, passou sem grandes contribuições numa noite em que os concorrentes diretos foram mais objetivos. A comparação entre os três, neste recorte específico do amistoso, favorece Rayan e Igor — mas Ancelotti foi criterioso ao contextualizar o desempenho, conforme registrado pelo SportNavo:
"A atuação da segunda parte foi importante para a equipe e para os jogadores que entraram. Mostraram qualidade e que podem competir com os outros da lista. Mas temos que levar em conta o rival, que abaixava um pouco o ritmo", disse o técnico em entrevista coletiva no Maracanã.
Também marcaram no segundo tempo Lucas Paquetá e Danilo Santos, jogadores com histórico de atuação como titulares neste ciclo. O placar final de 6 a 2 reflete uma combinação de eficiência ofensiva e uma defesa do Panamá que recuou progressivamente — o que não invalida a performance, mas exige cautela na leitura dos dados.
A leitura de Ancelotti e o que ainda falta para fechar a lista
O técnico italiano foi transparente sobre o estado da convocação após a vitória.
"Passa pela minha cabeça mudar o time, a estratégia. A segunda parte me colocou mais dúvidas. Para mim, é bom ter dúvidas positivas. Definido 100% obviamente não. Faltam jogadores, como Marquinhos, Magalhães e Martinelli. Sigo pensando que tenho uma boa lista. É avaliar os treinos nos próximos dias", declarou Ancelotti. A menção a ausências relevantes é um dado concreto: com Marquinhos, Gabriel Magalhães e Martinelli ainda fora do grupo testado no Maracanã, a equipe titular da Copa tem variáveis que não foram avaliadas neste amistoso.
A formação do segundo tempo utilizou três meio-campistas em vez dos habituais dois — Casemiro e Bruno Guimarães no primeiro tempo — o que sugere uma possibilidade tática adicional para Ancelotti. Com três homens no meio, abre-se espaço para um centroavante mais fixo na área, e é exatamente aí que Igor Thiago e Rayan se posicionam como candidatos mais diretos do que Endrick, que tende a se movimentar mais pela meia-esquerda.
Sobre Neymar, Ancelotti foi objetivo quanto ao posicionamento: "Ele tem que jogar na posição que tem que jogar. Dentro de campo. Como ponta ou como meia-atacante. Como jogou Vini e Raphinha." A declaração delimita o espaço do camisa 10 do Santos no esquema e, ao mesmo tempo, não fecha a porta para nenhum dos atacantes jovens que brilharam no domingo.
O próximo compromisso da Seleção é o amistoso contra o Egito, no sábado, dia 6 de junho, já nos Estados Unidos. Será o último teste antes da estreia na Copa do Mundo 2026 — e provavelmente a última chance de Rayan e Igor Thiago convencerem Ancelotti de que merecem estar na lista final quando os veteranos retornarem ao grupo.












