Não, Rayan não é o atacante mais famoso da Seleção Brasileira convocada para a Copa do Mundo de 2026. Mas é, segundo o CIES Football Observatory — centro de pesquisas suíço especializado em estatística e mercado do futebol —, o brasileiro com maior valor estimado de transferência entre todos os convocados de Ancelotti: 100,3 milhões de euros, o equivalente a aproximadamente R$ 580 milhões na cotação atual. Isso reposiciona a pergunta. O debate não é se Rayan merece estar na Seleção. É se o mercado já enxergou nele algo que o torcedor brasileiro ainda está processando.
Como um garoto do Vasco chegou ao 32º lugar no mundo
O ranking não é de popularidade. O CIES calcula valor de mercado cruzando cinco variáveis objetivas: idade do atleta, desempenho recente, tempo restante de contrato, nível da competição disputada e potencial de evolução. Rayan, que ainda não completou 22 anos, pontua alto em praticamente todas elas. Saiu do Vasco da Gama rumo ao futebol inglês — ao Bournemouth, da Premier League — e rapidamente ganhou espaço em uma das ligas mais competitivas e caras do planeta. No modelo do CIES, jogar na Premier League funciona como um multiplicador automático de valor, porque a liga concentra os maiores contratos de transmissão do mundo: mais de £ 6,7 bilhões por ciclo de três anos.

Dentro do campo, o desempenho de Rayan na temporada 2025/2026 sustenta os números. Seu xG acumulado — o Expected Goals, métrica que mede a qualidade das chances criadas e finalizadas com base em posição, ângulo e contexto, independentemente de o gol ter entrado ou não — ficou acima de 12 na temporada, o que indica consistência real de ameaça ofensiva, não apenas sorte em finalizações. Para o leigo: um atacante com xG alto está criando chances genuínas, não apenas batendo de longe e torcendo. Isso convence analistas e clubes compradores muito mais do que gol bonito isolado.
A 32ª colocação no ranking geral do Mundial coloca Rayan à frente de nomes como Endrick, João Pedro, Igor Thiago e Vinícius Júnior — este último, astro do Real Madrid e um dos jogadores mais caros da história recente. O dado não significa que Rayan seja melhor que Vini Jr. Significa que o modelo do CIES valoriza potencial de crescimento e contrato longo tanto quanto desempenho consolidado. Vini Jr., aos 24 anos, já atingiu parte do seu pico de valorização no mercado. Rayan, ainda em ascensão, tem curva aberta.
O que Rayan representa no contexto da geração brasileira
No topo do ranking do CIES aparece o espanhol Lamine Yamal, avaliado em mais de 350 milhões de euros — três vezes e meia o valor de Rayan. A diferença é enorme, mas contextualiza onde o brasileiro está nesse espectro: não é o mais valioso do mundo, mas está entre os 32 mais valiosos de um torneio com mais de 700 jogadores convocados por 48 seleções. Isso, para um atleta que há dois anos disputava a Série A do Brasileirão pelo Vasco, é uma trajetória de valorização rara.
Conforme registrado pelo SportNavo ao longo da temporada 2025/2026, a Premier League tem funcionado como acelerador de carreira para a nova geração brasileira de uma forma que a própria Série A não consegue replicar — e aqui entra um dado estrutural importante. O Brasileirão 2026 movimenta em receitas de transmissão algo em torno de R$ 2 bilhões por temporada. A Premier League distribui, só entre os clubes, mais de £ 3 bilhões por ano. Essa diferença de escala não é só financeira: ela determina o nível de adversários que um jogador enfrenta semanalmente, a exposição internacional e, consequentemente, o valor de mercado que o CIES vai calcular.
Rayan não é caso isolado nessa lógica. Endrick, mesmo com menos minutos no Real Madrid, aparece no ranking do CIES. João Pedro, pelo Brighton, também. A tendência é clara: brasileiros que migram cedo para o futebol europeu de alto nível chegam às Copas do Mundo com avaliações que o mercado interno jamais produziria. O problema estrutural — e aqui o recorte muda de tom — é que essa equação não beneficia os clubes formadores brasileiros de forma proporcional. O Vasco recebeu uma fração do que Rayan já vale hoje no mercado europeu.
O preço de €100 milhões vai subir ou cair depois da Copa
Copas do Mundo são o maior catalisador de valor de mercado do futebol. Em 2018, Kylian Mbappé saiu do torneio valendo três vezes mais do que entrou — e tinha 19 anos. Em 2022, Enzo Fernández foi de relativa obscuridade para uma transferência de 121 milhões de euros ao Chelsea em questão de meses após o Mundial. O padrão se repete: jovens que se destacam em Copas têm seus valores reavaliados em tempo real pelo mercado.
Para Rayan, a Copa do Mundo de 2026 representa exatamente essa janela. Uma boa campanha — dois ou três gols, consistência nas substituições, presença nos momentos decisivos — pode levar seu valor estimado para além dos 150 milhões de euros, colocando-o definitivamente no pelotão dos atacantes mais caros do planeta. Uma Copa apagada, por outro lado, congela essa curva. O CIES é um retrato do momento, não uma garantia de futuro.
O Brasil estreia na Copa do Mundo de 2026 com o grupo ainda a ser definido na fase de grupos, mas a expectativa da CBF é de que Rayan apareça no esquema de Ancelotti como alternativa ao trio titular — com liberdade para entrar e desequilibrar. Se o técnico italiano usar o atacante nos momentos certos, a janela de transferências de julho de 2026 pode transformar os 100,3 milhões de euros do CIES em proposta concreta de algum clube da Premier League, La Liga ou Bundesliga. O relógio já está contando.










