Não são contratações de emergência. O que o Real Madrid planeja para 2026/27 com Nico Paz, Jacobo Ramón e Sergio Arribas é algo mais estruturado — e mais arriscado do que parece à primeira vista. A narrativa que circula nos bastidores do futebol espanhol sugere que repatriar ex-jogadores da cantera é, por definição, um acerto emocional e financeiro. Os dados desta temporada pedem uma leitura mais precisa.
A temporada que obrigou o Real Madrid a olhar para dentro
O Real terminou a temporada 2025/26 da La Liga com indicadores de posse abaixo de 55% nos jogos eliminatórios — índice que, para o padrão histórico do clube, representa uma queda sensível de controle. Para comparação, na temporada 2011/12, quando Mourinho comandava o time com Xabi Alonso e Sami Khedira como dupla de contenção, o clube registrava 58% de posse média nos jogos decisivos, segundo dados do Opta. A diferença parece pequena; no volume de passes progressivos por 90 minutos, ela é brutal.
O setor intermediário — o mais carente da equipe atual — sofre com a falta de jogadores capazes de sustentar a linha de pressão alta sem perder a compactação no momento de transição defensiva. É exatamente aí que Nico Paz entra como hipótese mais concreta.
Segundo o jornal Marca, o clube avalia o retorno do meio-campista por aproximadamente 9 milhões de euros. O valor é baixo para o mercado atual, mas o Real detém cláusula de recompra — o que reduz a negociação a uma decisão interna, não a um leilão.
O que Nico Paz e Jacobo Ramón construíram no Como
Nico Paz, 21 anos, disputou a temporada 2025/26 pelo Como com números que justificam o interesse: média de 2,3 passes-chave por 90 minutos e capacidade de atuar como pivô de saída de bola em sistemas de pressão alta. Mais relevante do ponto de vista tático — ele opera bem em espaços reduzidos entre as linhas, função que o Real Madrid raramente conseguiu preencher com regularidade nesta temporada.
Jacobo Ramón, também de 21 anos, foi peça importante na defesa do Como — equipe que garantiu vaga histórica na próxima Champions League. O zagueiro atua com saída de bola pelo lado esquerdo e tem boa leitura de posicionamento em linhas defensivas altas, o que é pré-requisito para qualquer sistema que o Real queira implementar com pressão organizada. O custo estimado é de 6 milhões de euros.
"Eles ajudaram o Como a fazer história", escreveu o Marca ao detalhar as negociações, sinalizando que o clube espanhol enxerga os dois como ativos valorizados — não como apostas cegas.
Sergio Arribas, no Almería, representa o perfil mais ofensivo do trio. Atacante de 22 anos com mobilidade para atuar pelos flancos ou como segundo homem na transição ofensiva, ele não aparece nos dados de recompra listados pela imprensa espanhola — o que sugere que sua situação contratual difere dos outros dois.
A lógica tática por trás dos €23 milhões
O custo total estimado — 23 milhões de euros para o trio — é, em termos absolutos, menos do que o Real Madrid pagou por renovações pontuais de contrato nesta temporada. A viabilidade financeira, portanto, não está em discussão. O ponto crítico é o encaixe tático.
Nico Paz funcionaria melhor em um sistema de dois médios — um de contenção e um de progressão — do que em um bloco de três no meio. Se o Real optar por um 4-3-3 com pivô fixo, ele ocupa a posição de meia de ligação com liberdade de movimentação. Se o sistema mudar para um 4-2-3-1, ele pode operar como o meia mais adiantado. São dois cenários distintos que exigem planejamento antes da contratação, não depois.
Jacobo Ramón — diferente de Éder Militão, que opera bem em linha defensiva média — tem perfil para sistemas com linha alta. Isso implica uma mudança de comportamento coletivo que a defesa atual do Real, acostumada a recuar, precisaria absorver ao longo da pré-temporada.
O clube também conta com o retorno de Endrick, que estava emprestado ao Lyon, e observa nomes da própria base — como os zagueiros Joan Martínez, Valdepeñas e Diego Aguado, além do lateral David Jiménez — para preencher lacunas sem custo adicional de transferência.
"O Real Madrid segue observando jovens das categorias de base para compor o elenco principal", informou o Marca, indicando que a reformulação vai além dos três nomes principais.
A janela de transferências de verão 2026 abre em julho. O Real Madrid tem até lá para definir quais recompras ativa, quais saídas autoriza e qual sistema tático o novo ciclo vai exigir. Nico Paz e Jacobo Ramón — se voltarem — precisarão de pré-temporada completa para se integrar ao modelo. Sem isso, a lógica financeira impecável de 23 milhões de euros vira custo sem retorno tático imediato.












