6 medalhas olímpicas e 9 mundiais. Esse é o número que define o peso do retorno de Rebeca Andrade às competições em 2026 — e que transforma o Pan-Americano de Ginástica Artística, realizado na Arena Carioca 1, no Parque Olímpico da Barra da Tijuca, em algo maior do que um simples torneio continental. Após um período sabático ao longo de 2025, a ginasta de Guarulhos voltou a treinar no CT do Time Brasil no Rio de Janeiro e, na última sexta-feira (22), publicou um vídeo executando o Yurchenko com dupla pirueta — o mesmo salto que lhe rendeu ouro no Mundial de 2021, ouro no Mundial de 2023 e ouro nos Jogos Pan-Americanos de Santiago, também em 2023.
O salto que três vezes colocou Rebeca no topo do mundo
O Yurchenko com dupla pirueta, conhecido tecnicamente como DTY, não é o salto de maior dificuldade no arsenal de Rebeca Andrade, mas é o mais consistente e o que ela mais utilizou em finais decisivas. Nas três ocasiões em que o executou em finais de Mundial ou Pan — 2021, 2023 e 2023 — ela saiu com a medalha de ouro. Para ter uma dimensão comparativa: nenhuma ginasta da América Latina acumulou mais do que dois títulos mundiais no salto na história da modalidade. Rebeca tem dois, ambos com esse mesmo elemento.
O retorno ao DTY em treino, registrado em vídeo e divulgado pela própria atleta, indica que a preparação física avançou além de uma fase inicial de recondicionamento. A ginasta havia sofrido três rupturas de ligamento cruzado anterior ao longo da carreira — em 2015, 2017 e 2019 — o que torna cada retorno ao salto de alta voltagem um dado técnico relevante, não apenas simbólico.
O técnico da seleção feminina, Francisco Porath, situou o Pan-Americano dentro de uma lógica de gestão de esforço para o restante da temporada.
"A gente está tentando fazer uma mistura da juventude com as meninas mais experientes. E esse Pan Americano, além de dar essa oportunidade, é muito importante porque ele classifica para o Mundial. Então a gente não pode tirar muito o pé, séries muito simples, mas também não pode ir com tudo, com força total, porque compromete muito a preparação para o resto do ano no Mundial. Nosso principal objetivo agora é classificar para o Mundial", explicou Porath.
O Pan como trampolim para o Mundial na Holanda
A competição no Rio de Janeiro, que vai até 21 de junho, distribui vagas para o Campeonato Mundial de Ginástica Artística de outubro, realizado na Holanda. A seleção feminina brasileira chega com uma formação mista: ao lado de Rebeca, entram em cena Flavinha Saraiva, Caroline Pedro, Christal Bezerra, Júlia Soares e Lorrane Oliveira — uma combinação de atletas com experiência internacional e jovens em ascensão.
Do ponto de vista do ranking continental, o Brasil ocupa posição de destaque na ginástica artística feminina das Américas desde pelo menos 2021, quando Rebeca liderou a seleção ao ouro no Campeonato Pan-Americano da modalidade. A comparação com outras potências do bloco é direta: os Estados Unidos seguem como referência global, com Simone Biles como parâmetro de excelência técnica, mas o Brasil construiu nos últimos quatro anos uma geração capaz de disputar pódios em todas as subdisciplinas — algo que o levantamento do SportNavo sobre o desempenho brasileiro em Mundiais desde 2021 confirma ao mapear 9 medalhas mundiais individuais acumuladas por Rebeca nesse período, número que nenhum outro país da América do Sul sequer se aproxima.
A própria ginasta, ao falar sobre o Pan no Rio, deixou claro o que o ambiente doméstico representa para seu rendimento.
"O mais legal de voltar a competir mais uma vez o Pan-americano é porque é no Brasil. Eu amo quando as competições são aqui no Brasil porque a gente está em casa. Tem a sua torcida, é o seu país. De verdade, eu só espero estar bem para conseguir dar o meu melhor dentro da competição e dar força e energia positiva para as meninas", disse Rebeca.
Historicamente, o desempenho de Rebeca em competições realizadas no Brasil tem sido consistente: foi justamente em um Pan-Americano de Ginástica que ela garantiu sua vaga para Tóquio 2020, onde conquistou o ouro no salto e a prata no individual geral — duas das seis medalhas olímpicas que acumulou até Paris 2024.
Rebeca no Pan 2031 e o ciclo olímpico que se abre
Há uma segunda camada política no retorno de Rebeca às competições em 2026. A ginasta integrou a delegação brasileira que viajou a Santiago, no Chile, para a votação da sede dos Jogos Pan-Americanos de 2031, concorrendo pela candidatura conjunta Rio de Janeiro-Niterói contra Assunção, no Paraguai. A votação, realizada pela PanAm Sports com 53 votos distribuídos entre os 41 países membros — com peso dobrado para os países que já sediaram o evento, entre eles o Brasil —, teve Rebeca como principal rosto da campanha brasileira presencialmente na capital chilena.
A composição da delegação brasileira em Santiago incluiu o presidente do COB, Marco La Porta, a vice-presidente Yane Marques, Emanuel Rego, Thiago Pereira e Iziane, além do membro brasileiro do COI Bernard Rajzman e dos prefeitos Eduardo Paes e Rodrigo Neves. A presença de Rebeca, eleita melhor atleta dos Jogos Pan-Americanos de Santiago 2023, funcionou como argumento vivo de que o Brasil tem condições de sediar e competir no mais alto nível continental.
Se a candidatura Rio-Niterói for bem-sucedida, Rebeca Andrade terá 32 anos em 2031 — idade em que ginastas de elite ainda competem em aparelhos específicos, especialmente no salto, onde a longevidade tende a ser maior do que no individual geral. O ciclo que se abre com o Pan de 2026 no Rio, portanto, não é apenas sobre o Mundial de outubro na Holanda: é o início de uma trajetória que pode incluir Los Angeles 2028 e, eventualmente, um Pan em casa cinco anos depois. O próximo passo concreto está definido: a Arena Carioca 1 recebe as disputas da categoria Adulto entre os dias 17 e 21 de junho, com transmissão ao vivo pelo Canal Olímpico do Brasil e entrada gratuita ao público.










