O sistema de reconhecimento facial do estádio Onésio Brasileiro Alvarenga permitiu ao Vila Nova identificar em menos de 24 horas o torcedor Alessandro, acusado de injúria racial contra o atacante Berto, do Operário-PR, durante partida da 5ª rodada da Série B. O caso, registrado no sábado e resolvido no domingo com encaminhamento à Central de Flagrantes de Goiânia, expõe tanto o potencial quanto as limitações da tecnologia no combate ao racismo nos estádios brasileiros.

Apenas 30% dos estádios das Séries A e B possuem sistemas de reconhecimento facial operacionais, segundo levantamento do SportNavo com base em dados da CBF e relatórios de segurança estaduais. Entre os 60 estádios que recebem jogos das duas principais divisões, somente 18 contam com a tecnologia: 12 na Série A e 6 na Série B. Arena Corinthians, Maracanã, Allianz Parque e Mineirão lideram em sofisticação, com sistemas integrados às polícias Civil e Militar.

Eficácia comprovada em números Reconhecimento facial identifica racista
Eficácia comprovada em números Reconhecimento facial identifica racista

Eficácia comprovada em números

A diferença na resolução de casos discriminatórios entre estádios com e sem reconhecimento facial impressiona pelos dados. Nos últimos dois anos, estádios equipados com a tecnologia conseguiram identificar suspeitos em 78% dos casos reportados de injúria racial, contra apenas 23% nos estádios sem o sistema. O tempo médio de identificação cai de 15 dias para 48 horas quando há reconhecimento facial disponível.

"O Vila Nova Futebol Clube repudia qualquer forma de discriminação, como a relatada pelo atleta Berto, do Operário Ferroviário, após a partida de ontem pelo Campeonato Brasileiro B"

O Tribunal de Justiça Desportiva registrou 47 casos de injúria racial em estádios brasileiros em 2024, sendo 31 nas Séries A e B. Destes, 24 ocorreram em praças esportivas sem reconhecimento facial, onde apenas 6 suspeitos foram localizados. Nos 23 casos em estádios equipados, 18 resultaram em identificação e encaminhamento às autoridades competentes.

Legislação ampara uso da tecnologia

A Lei Geral do Esporte, sancionada em junho de 2023, estabelece que clubes e federações podem utilizar sistemas de reconhecimento facial para identificação de torcedores em casos de infrações graves, incluindo manifestações racistas. O artigo 132 permite o compartilhamento de imagens com as forças de segurança mediante autorização judicial ou flagrante delito.

Críticos argumentam sobre questões de privacidade e proteção de dados pessoais. Especialistas em direito esportivo, porém, defendem que a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) não impede o uso da tecnologia em situações específicas como combate à discriminação racial. O Superior Tribunal de Justiça já validou o procedimento em três julgados distintos entre 2023 e 2024.

Estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais lideram na implementação. O programa paulista "Estádio Seguro" destinou R$ 45 milhões em 2024 para equipar 15 praças esportivas com reconhecimento facial. Rio de Janeiro investiu R$ 32 milhões no mesmo período, equipando Maracanã, São Januário, Nilton Santos e outros quatro estádios.

Custos impedem expansão massiva

O investimento inicial para instalação completa de reconhecimento facial varia entre R$ 800 mil e R$ 2,5 milhões por estádio, dependendo da capacidade e complexidade arquitetônica. Manutenção anual consome entre R$ 150 mil e R$ 400 mil, valores que inviabilizam a adoção por clubes de menor porte financeiro.

"Esta instituição, em toda a sua história, combateu qualquer forma de ato discriminatório", declarou o Vila Nova em nota oficial sobre o caso envolvendo o atacante Berto

Clubes da Série B enfrentam dificuldades adicionais. Ponte Preta, Sport, Guarani e Ceará manifestaram interesse na tecnologia, mas esbarram em orçamentos limitados. O custo representa entre 8% e 12% da receita bruta anual destes clubes, tornando inviável sem financiamento externo ou parcerias público-privadas.

A CBF estuda programa de incentivo fiscal para implementação da tecnologia até 2026. Proposta em análise no Ministério do Esporte prevê redução de 60% no Imposto sobre Serviços (ISS) para clubes que instalarem sistemas de reconhecimento facial integrados às polícias estaduais. Expectativa é equipar 80% dos estádios das Séries A e B até o final de 2027.

O próximo compromisso do Vila Nova acontece na quarta-feira, contra o Guarani, no estádio Brinco de Ouro, pela 6ª rodada da Série B. O clube goiano ocupa a 8ª posição com 7 pontos, enquanto o torcedor Alessandro aguarda audiência preliminar marcada para 15 de maio na Vara Criminal de Goiânia.