O Remo pode chegar às quartas de final da Copa do Brasil pela primeira vez em mais de duas décadas — mas para isso precisa eliminar exatamente o adversário que o futebol paraense menos queria encontrar neste momento? A pergunta não é retórica por acidente: ela resume o paradoxo cruel que o sorteio realizado na sede da CBF na terça-feira (26) impôs ao Leão.

O Remo não disputava oitavas de final da Copa do Brasil há 23 anos. A campanha desta temporada, encerrada com uma vitória sobre o Bahia — clube que ocupa a elite do futebol nacional com orçamento incomparavelmente superior —, já era por si só um feito estatístico. O clube paraense acumulou, até aqui, R$ 5 milhões em premiações na competição, um valor que representa mais do que muitos times da Série B recebem em cotas de transmissão em uma temporada inteira.

Agora o sorteio jogou o Leão contra o Santos, equipe com quem o clube de Belém não se enfrentava na Copa do Brasil há 16 anos. O reencontro acontece num momento peculiar para os dois lados — e é aí que a análise precisa ir além do romantismo histórico.

16 anos de distância e o que mudou nos dois clubes

Quem defende que o Santos chega como favorito absoluto tem um argumento de peso: a tradição. O clube praiano é um dos mais vitoriosos da história da competição e carrega um nome que intimida qualquer adversário da Série B ou da Série C. O problema desse argumento é que ele ignora o presente em favor do passado.

O Santos de 2026 não é o Santos de 2010, última vez que os dois times se cruzaram na Copa do Brasil. O clube paulista atravessa uma reconstrução institucional e financeira — voltou à elite do futebol nacional após passagem pela Série B — e ainda tenta encontrar consistência dentro de campo nesta temporada. O Remo, por sua vez, chegou às oitavas eliminando o Bahia, time que disputou a fase de grupos da Copa Libertadores. Para efeito de comparação: o Bahia somou mais pontos no Brasileirão de 2025 do que o Santos conseguiu em toda a sua campanha na Série B no mesmo ano.

Esse dado de comparação intercategoria não é mero enfeite. Ele revela que o Leão — um time da quarta divisão nacional que entrou na Copa do Brasil pelas fases iniciais — venceu um adversário de nível continental. O Santos, independente do histórico, não pode ser tratado como um gigante intocável neste momento específico.

A vantagem do Baenão e o peso de R$ 9 milhões

O formato do confronto favorece o Remo de maneira objetiva. Assim como ocorreu na fase anterior, o duelo será decidido em dois jogos, com o Leão mandando o segundo — e decisivo — no Baenão, em Belém. Jogar em casa na partida de volta, quando um empate pode ser suficiente dependendo do resultado do primeiro jogo, é uma vantagem estrutural que qualquer analista que trabalha com probabilidade de classificação precisa incorporar ao cálculo.

Há também um componente financeiro que transforma esta oitava de final em algo além de uma questão esportiva. Uma classificação contra o Santos elevaria o total de premiações do Remo na Copa do Brasil para R$ 9 milhões — um incremento de R$ 4 milhões sobre o que o clube já garantiu. Para um clube paraense que opera com orçamento restrito, esse valor financia contratações, quita dívidas e sustenta a sequência do Brasileirão Série C simultaneamente. O SportNavo mapeou que clubes com orçamento similar ao do Remo raramente conseguem acumular esse volume de receita em uma única competição ao longo de uma temporada completa.

Bruno Spindel, diretor executivo do Cruzeiro — outro clube que saiu do sorteio com confronto definido, desta vez contra a Chapecoense —, deixou claro que a grandeza do clube impõe uma postura específica diante de qualquer adversário:

"O Cruzeiro é o maior campeão da Copa do Brasil e pela grandeza do clube, que tem a ideia de lutar para ser campeão, jamais pode escolher adversário ou qualquer outro fator", disse Spindel após o sorteio.

A declaração vale como espelho para o Santos também. Um clube do porte do Peixe não pode — nem deveria — subestimar o Remo. Mas subestimar e ser eliminado são coisas diferentes. O histórico recente do Santos na Copa do Brasil não garante nada.

O que ainda falta resolver antes do apito inicial

Existe um fator logístico que o torcedor do Remo precisa ter em mente: os jogos das oitavas de final serão disputados apenas após a Copa do Mundo, o que significa que o confronto acontecerá no segundo semestre de 2026. Esse intervalo é uma faca de dois gumes — dá tempo para o Remo consolidar o elenco e para o Santos eventualmente se reorganizar.

O chaveamento a partir das quartas de final ainda não está definido. Um novo sorteio será realizado na próxima fase, o que significa que o Remo — caso avance — pode enfrentar desde o Cruzeiro até qualquer outro gigante que sobreviver. Mas esse é um problema para depois. O problema imediato tem nome, camisa listrada de branco e preto e joga em Santos, no litoral paulista.

O Remo entra nas oitavas com R$ 5 milhões já garantidos, a vantagem do mando no segundo jogo e um elenco que demonstrou, contra o Bahia, que sabe jogar sob pressão. O Santos chega com o peso do nome e a obrigação de não ser eliminado por um clube da quarta divisão. Quando os dois times entrarem em campo — provavelmente em agosto ou setembro, após o Mundial —, esses dois fatores vão colidir diretamente, e o futebol paraense vai descobrir se 23 anos de espera foram suficientes para construir um time capaz de ir além.