A 2.600 metros de altitude, no Estádio Nemesio Camacho El Campín, em Bogotá, o São Paulo fez o que equipes europeias de ponta costumam chamar de damage control: uma partida gerida com frieza, sem ambições excessivas, cujo único objetivo era sair de lá sem perder. Numa terça-feira (28) em que Roger Machado escalou um time totalmente reserva — poupando nomes como Calleri, Luciano, Artur e o goleiro Rafael —, o Tricolor empatou por 0 a 0 com o Millonarios e manteve a liderança isolada do Grupo C da Copa Sul-Americana, agora com sete pontos em três jogos.

Uma aposta tática que a altitude cobrava caro

Quem acompanhou times europeus jogando em estádios de altitude — o Estadio Monumental de Lima, o Hernando Siles de La Paz, ou o próprio El Campín — sabe que o fator físico desequilibra qualquer sistema tático, por mais sofisticado que seja. Roger Machado respondeu a esse desafio com um esquema 3-5-2, apostando em uma linha de cinco defensores que garantisse solidez estrutural sem exigir o pressing alto que consome energia a céu aberto nessas condições. A estratégia funcionou melhor no primeiro tempo: o Tricolor controlou a posse, ocupou os espaços com inteligência e chegou perto de abrir o placar aos 19 minutos, quando André Silva cabeceou cobrança de escanteio de Cauly e a bola acertou o travessão — no rebote, a defesa colombiana tirou praticamente em cima da linha.

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Na etapa final, o Millonarios adiantou suas linhas e exerceu o que no futebol moderno se chama de gegenpressing territorial — não exatamente o modelo Klopp, mas uma pressão organizada sobre a saída de bola tricolor que foi crescendo conforme o cansaço pela altitude pesava nas pernas do mistão são-paulino. Castro, Quintero e Ureña assustaram em finalizações de médio alcance, mas a defesa de cinco zagueiros resistiu com organização.

Coronel, a grande revelação da noite

A grande novidade da escalação estava debaixo das traves. Carlos Coronel, contratado sem custos em dezembro do ano passado e ainda sem estreia pelo clube, foi ao campo pela primeira vez com a camisa tricolor — e saiu como o jogador mais elogiado do Tricolor. Nos acréscimos, quando Vega cruzou da esquerda e Angulo antecipou a marcação para cabecear com efeito, Coronel se esticou completamente e fez a defesa que garantiu o empate. Roger Machado não poupou palavras ao avaliá-lo no pós-jogo:

"A entrada do Coronel é oportunidade por merecimento. Fez uma bela estreia, na altitude. Difícil estrear nesse contexto", afirmou o técnico.

A avaliação do SportNavo sobre a escalação de Coronel aponta para uma gestão de elenco que vai além do imediato: ao testar o goleiro reserva num jogo de pressão moderada — e de altitude, o que exige ainda mais leitura de trajetória da bola —, Roger Machado colheu informações táticas valiosas para o restante da temporada.

O que esse ponto significa na tabela

O empate encerrou os 100% de aproveitamento do São Paulo na competição, mas a aritmética segue favorável. Com sete pontos, o Tricolor abre três de vantagem sobre o próprio Millonarios, que tem quatro e ocupa a vice-liderança do Grupo C. A Copa Sul-Americana, como recorda o regulamento, oferece ao campeão uma vaga direta na Libertadores de 2027 — um atalho estratégico para um clube que também peleja por posição no Brasileirão, onde figura no G-4.

O próprio Roger Machado contextualizou o resultado com equilíbrio:

"Penso que, quando se leva ponto nesse contexto de altitude, a gente tem sempre que comemorar", disse o treinador, reconhecendo também que "faltou melhor encaixe e tomada de decisão" ao longo da partida.

Há algo de continental nessa lógica: no futebol europeu, poupar titulares para jogos de grupo em competições secundárias é prática corriqueira — o Pep Guardiola já fez isso sistematicamente na Carabao Cup, e o Atlético de Madrid de Simeone raramente arrisca sua espinha dorsal em partidas da Europa League na fase inicial. O que muda no contexto sul-americano é a variável altitude, que transforma qualquer missão de gestão de elenco numa aposta de risco calculado.

O próximo passo do Tricolor

Antes de voltar a pensar na Sul-Americana — o São Paulo enfrenta o O'Higgins no Chile em 7 de maio, às 19h —, o Tricolor tem compromisso imediato e mais urgente pelo Brasileirão. No domingo, às 16h (de Brasília), a equipe recebe o Bahia no Estádio Cícero de Souza Marques, em Bragança Paulista, já que o Morumbis está ocupado com os shows do The Weeknd. Com os titulares descansados após a viagem à Colômbia, Roger Machado terá condições de voltar ao time principal — e o teste diante do time baiano dirá muito sobre o nível de consistência dessa equipe nas duas frentes.