"Reorganização administrativa sem aumento de despesas" — foi com essa justificativa formal, publicada no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro, que Ricardo Couto fundamentou a extinção de três subsecretarias da Casa Civil. A frase, aparentemente burocrática, esconde o maior movimento de corte de cargos desde a posse do magistrado como governador em exercício, em 23 de março de 2026.

O que os números revelam sobre o corte de Couto

Desde que assumiu o Executivo fluminense após a renúncia do governador Cláudio Castro, Ricardo Couto já assinou decretos que somam a exoneração de aproximadamente 500 cargos comissionados — postos de livre nomeação que, historicamente, servem como moeda política nas administrações estaduais brasileiras. A economia projetada com esse conjunto de medidas chega a R$ 13 milhões anuais, segundo dados publicados pelo governo do estado.

Para contextualizar a magnitude do corte, uma métrica útil é o chamado custo per capita de comissionamento — indicador que divide o gasto total com cargos de confiança pelo número de postos existentes. No caso fluminense, cada cargo exonerado representa, em média, R$ 26 mil em economia anual, valor que inclui salário, encargos e benefícios. Esse número, embora pareça abstrato, equivale a praticamente três meses de custeio de uma escola municipal de médio porte no interior do estado.

Segundo apuração do SportNavo junto a fontes do Palácio Guanabara, as medidas foram desencadeadas, em parte, por uma reportagem d'O Globo que revelou uma avalanche de editais lançados pelo Departamento de Estradas de Rodagem do Rio (DER-RJ) — circunstância que expôs a necessidade de revisão imediata dos processos licitatórios em curso.

DER-RJ e secretarias na mira dos decretos

Um dos decretos mais impactantes assinados por Couto determina a suspensão por 30 dias de novas contratações e de licitações em andamento no DER-RJ, na Secretaria de Infraestrutura e Obras Públicas e na Secretaria das Cidades. A última pasta havia sido comandada por Douglas Ruas, do PL, que deixou o cargo para disputar a presidência da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) — eleição que venceu no mesmo dia em que os decretos foram publicados.

A coincidência de datas não passou despercebida nos corredores do Palácio Guanabara. Com Ruas fora da secretaria e eleito presidente da Alerj, Couto sinalizou que a revisão dos contratos firmados na pasta seria imediata. A suspensão das licitações funciona como um congelamento temporário que permite auditoria interna antes de qualquer novo compromisso financeiro do estado.

"Assuntos da gestão" — foi assim que o secretário da Casa Civil, Flávio Willeman, e o secretário de Governo, Roberto Lisandro Leão, descreveram a reunião realizada com Couto no Palácio Guanabara, na primeira vez em que o governador em exercício despachava formalmente na sede do Executivo estadual.

Até então, Couto havia tratado dos assuntos do Executivo a partir de seu gabinete no Fórum, no Centro do Rio — uma anomalia administrativa que reforçava a percepção de que o magistrado enxergava o cargo como transitório. A mudança para o Palácio Guanabara, em Laranjeiras, foi lida por interlocutores políticos como um gesto de comprometimento com a agenda de cortes.

O que os números revelam sobre o corte de Couto Ricardo Couto exonera 500 comiss
O que os números revelam sobre o corte de Couto Ricardo Couto exonera 500 comiss

A leitura política por trás da tesoura administrativa

Couto também se reuniu com Cláudio Castro para discutir o ajuste orçamentário em curso. A extinção das três subsecretarias da Casa Civil — incluindo todas as estruturas subordinadas a elas — foi antecipada pelo colunista Lauro Jardim, do Globo, antes da publicação oficial no Diário Oficial. O movimento atinge ainda órgãos como a Cedae e o Rioprevidência, que passam por mudanças paralelas na gestão.

A combinação de exonerações em massa, suspensão de licitações e extinção de subsecretarias configura o que especialistas em gestão pública chamam de freada de arrumação — sequência de medidas administrativas que visa interromper fluxos de gasto antes de uma nova orientação orçamentária ser consolidada. No Rio, esse processo ocorre em um contexto de pressão fiscal crônica: o estado acumula déficits históricos e segue sob regime de recuperação fiscal junto ao governo federal.

Os próximos 30 dias serão determinantes. Com as licitações do DER-RJ e das duas secretarias suspensas até meados de maio de 2026, o governo terá de apresentar um plano de retomada que justifique quais contratos seguem válidos e quais serão cancelados definitivamente — decisão que afetará diretamente obras de infraestrutura em andamento em pelo menos oito municípios fluminenses.

500 cargos extintos, R$ 13 milhões poupados, 30 dias para auditar o que sobrou.