Todo mundo sabe que o Rioprevidência foi esvaziado em R$ 3 bilhões. Como um único operador conseguiu articular isso por décadas — passando por CPI federal, pela CVM e até por negócios com a marca de Donald Trump sem nunca sair definitivamente de cena — é a parte que a investigação agora coloca na mesa.
Na terça-feira, 26 de maio de 2026, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão na 6ª fase da Operação Compliance Zero. No centro dos alvos: o empresário Ricardo Siqueira Rodrigues, identificado pela PF como lobista do banqueiro Daniel Vorcaro e intermediário entre ele e o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL). Rodrigues, segundo a investigação, recebia comissão de 0,6% sobre cada real captado de fundos de previdência para o Banco Master — e o total angariado do Rioprevidência chegou a R$ 3 bilhões em papéis e fundos da rede do banco.

Da CPI dos Correios ao Banco Master — duas décadas de operações nos fundos de pensão
A trajetória de Rodrigues nas sombras do sistema previdenciário não começa em 2023. Em 2005, ele já estava no epicentro de uma investigação parlamentar de alcance nacional: a CPI dos Correios, que serviu de portal para a revelação do escândalo do mensalão. O relatório daquela CPI identificava Rodrigues como dirigente de uma corretora de investimentos responsável por "diversas operações atípicas no mercado financeiro", com "perdas aos fundos de pensão" que contrataram seus serviços. Eram outros tempos políticos — Lula no primeiro mandato, o PT sob pressão —, mas o mecanismo era o mesmo: captar recursos de aposentados via intermediário com trânsito político.
Vinte anos depois, o relatório da PF que embasou a Operação Compliance Zero usa linguagem quase idêntica. "Rodrigues, já anteriormente investigado à extensão por atuação em fraudes, realizou captação de clientes para o Banco Master e foi remunerado para tanto com comissão de 0,6% sobre os valores angariados", escreveu o ministro do STF Alexandre de Moraes ao autorizar a operação. A reincidência institucional do personagem é um dado que os investigadores não deixam passar.
Entre 2005 e 2023, Rodrigues ainda acumulou passagem pela CVM — a Comissão de Valores Mobiliários — em casos relacionados a operações irregulares no mercado financeiro, além de envolvimento em negócios ligados à construção de um hotel com a marca Donald Trump, empreendimento que gerou investigações por suspeita de fraude. O perfil é de um operador que sobrevive às crises porque sempre encontra um novo arranjo político para se ancorar.
Como o Rioprevidência virou alvo e R$ 126 milhões chegaram a uma empresa de Rodrigues
O esquema recente tem uma engrenagem precisa. Em 2023, o então governador Cláudio Castro indicou o advogado Deivis Marcon Antunes para o comando do Rioprevidência, o fundo de previdência dos servidores estaduais do Rio de Janeiro. A PF apurou que Rodrigues, em mensagens obtidas durante a investigação, disse a Vorcaro que "resolveria os trâmites internos" para que o fundo alocasse recursos no Banco Master — sem citar diretamente o nome de Deivis nas conversas rastreadas.
O resultado foi o aporte de R$ 3 bilhões em papéis e fundos da rede do Master. Desse total, a PF conseguiu rastrear R$ 126 milhões em transferências diretas para a Mídias Promotora, empresa controlada por Rodrigues. O restante está sob investigação, com suspeita de que parte dos recursos tenha sido aplicada sem lastro adequado, gerando prejuízo potencial a aposentados e pensionistas do estado do Rio.
"Rodrigues, já anteriormente investigado à extensão por atuação em fraudes, realizou captação de clientes para o Banco Master e foi remunerado para tanto com comissão de 0,6% sobre os valores angariados." — Trecho do despacho judicial que autorizou a Operação Compliance Zero
Após ser preso no âmbito da operação, Rodrigues firmou acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal — movimento que, segundo fontes próximas à investigação, pode ampliar significativamente o alcance do caso em direção a outros operadores políticos e financeiros ainda não identificados publicamente.
O elo político que sustentou o esquema por anos
A estrutura investigada pela PF tem três camadas bem definidas. Na base, Rodrigues atuava como captador e articulador, com acesso a gestores de fundos de pensão. No meio, Daniel Vorcaro fornecia o produto financeiro — o Banco Master — e remunerava o lobista. No topo, o alinhamento com Cláudio Castro garantia que o comando do Rioprevidência fosse ocupado por alguém disposto a fazer os aportes.
Esse modelo não é inédito na história das fraudes previdenciárias brasileiras. Na virada dos anos 1990 para os 2000, o escândalo dos fundos de pensão das estatais — que envolveu nomes como o do então senador José Eduardo Dutra, ligado à Previ, e que resultou na CPI dos Correios — já expunha a mesma arquitetura: lobista com trânsito político, gestor indicado e fundo de pensão como cofre disponível. O que muda em 2026 é a escala: R$ 3 bilhões superam em muito os valores que escandalizaram o país duas décadas atrás.
"Resolveria os trâmites internos" — frase atribuída a Ricardo Rodrigues em mensagem enviada a Daniel Vorcaro, segundo relatório da Polícia Federal
A Operação Compliance Zero está em sua 6ª fase, o que indica que a investigação não chegou ao fim — chegou, na verdade, ao ponto em que as peças menores começam a revelar as maiores. A delação de Rodrigues, com 20 anos de memória institucional sobre fraudes previdenciárias, tem potencial de redesenhar o mapa político e financeiro do Rio de Janeiro nos próximos meses. O MPF já sinalizou que os acordos firmados incluem detalhamento de operações anteriores a 2023, o que significa que o escopo pode se expandir para além do Banco Master e do Rioprevidência.
Uma investigação desse porte funciona como uma receita que foi sendo preparada em fogo baixo por duas décadas — os ingredientes sempre estiveram visíveis, mas ninguém tinha reunido todos na mesma panela ao mesmo tempo. Agora que a chama está alta, o que ferve revela não apenas quem cozinhou, mas quem sentou à mesa por todos esses anos.









