Um homem que não joga pela Seleção há quase três anos entrou na lista e três que jogaram o ciclo inteiro ficaram de fora. Não há tragédia: há contabilidade. A convocação de Neymar por Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo de 2026, anunciada na tarde de segunda-feira, 18 de maio, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, é o tipo de decisão que a história do futebol brasileiro conhece bem — e que sempre produz vítimas com nome e sobrenome.

O setor ofensivo que Ancelotti fechou antes de abrir a última vaga

Antes de qualquer debate sobre Neymar, é preciso mapear o tabuleiro. Cinco nomes estavam, na prática, blindados no setor ofensivo desde semanas antes do anúncio: Vinícius Júnior, Raphinha, Matheus Cunha, Luiz Henrique e Gabriel Martinelli. A esses, somaram-se Endrick e Igor Thiago, que haviam deixado impressão marcante nos amistosos de março contra França e Croácia. Rayan, do Bournemouth, chegou ao grupo com cinco gols e duas assistências numa campanha invicta e carimbou sua presença sem precisar pedir licença.

Restava, portanto, uma vaga. E nessa disputa estavam nomes como Savinho, Kaio Jorge, Antony, Pedro, Richarlison, Gabriel Jesus, Igor Jesus, Samuel Lino e João Pedro. Ancelotti escolheu Neymar. A matemática é simples; a explicação, menos.

O setor ofensivo que Ancelotti fechou antes de abrir a última vaga Richarlison,
O setor ofensivo que Ancelotti fechou antes de abrir a última vaga Richarlison,

Os três nomes que o retorno de Neymar apagou do avião

Richarlison foi titular na Copa do Catar em 2022, marcou dois gols na estreia contra a Sérvia — incluindo um de bicicleta que entrou para o repertório visual do torneio — e era querido por Ancelotti. O problema foi físico e crônico: o atacante conviveu com lesões musculares recorrentes ao longo deste ciclo e não conseguiu encadear sequências longas o suficiente para garantir presença na lista final. Nas redes sociais, a ausência do "Pombo" gerou reação imediata, mas a redação do SportNavo já antecipava que sua irregularidade física tornava a exclusão defensável tecnicamente, por mais que afetiva fosse a relação com o treinador italiano.

Pedro, do Flamengo, é o caso mais silencioso dos três. Artilheiro histórico do clube carioca e centroavante de área com eficiência comprovada no futebol brasileiro, o atacante nunca conseguiu traduzir esse rendimento em convocações regulares na era Ancelotti. Sua ausência na lista final recebeu apenas dois votos na votação interna da redação do Lance!, o que revela que, mesmo entre jornalistas especializados, sua exclusão foi considerada menos injusta do que a dos demais.

O caso de João Pedro é o que mais provoca incômodo histórico. O atacante do Chelsea esteve presente em toda a era Ancelotti, construiu uma temporada 2025/2026 de alto nível pelos Blues e foi eleito o melhor jogador do clube na competição. Vinte gols, seis assistências, 54 partidas. O próprio técnico reconheceu a injustiça com palavras raras para um treinador na véspera de uma Copa:

"Ficamos tristes pelo João Pedro porque, pela temporada que ele fez, provavelmente merecia estar na lista, mas, infelizmente, com toda a consciência possível e o respeito, escolhemos outros jogadores. Sentimos muito por ele e por todos os outros", explicou Ancelotti.

A lesão sofrida por João Pedro na final da Copa da Inglaterra contra o Manchester City, no último fim de semana antes da convocação, foi o fator que desequilibrou a balança. Ancelotti tinha justificativa técnica para o corte, mas o timing foi cruel.

O peso histórico de Neymar e o que quatro Copas representam

Neymar disputará sua quarta Copa do Mundo, igualando Pelé em número de participações em Mundiais. O dado é relevante porque situa o camisa 10 numa categoria raríssima na história brasileira: apenas Pelé (1958, 1962, 1966, 1970), Cafú (1994, 1998, 2002, 2006) e Djalma Santos (1954, 1958, 1962, 1966) chegaram a quatro edições. Neymar participou de 2014, 2018 e 2022 — em nenhuma delas o Brasil foi além das quartas de final.

O retorno ao Santos também tem peso simbólico que a convocação materializou: o clube praiano não tinha um jogador brasileiro numa Copa do Mundo desde Robinho, em 2010, na África do Sul, quando o atacante marcou dois gols em quatro partidas antes da eliminação para a Holanda nas quartas. Neymar será o 15º atleta do Santos a defender a Seleção em Mundiais — e o primeiro a fazê-lo com a camisa do Alvinegro Praiano.

A comissão técnica pesou três fatores para a decisão final: experiência em Copas do Mundo, peso dentro do grupo e a recuperação física construída nos últimos meses no Santos, onde Neymar atravessou seu período de maior regularidade desde o Catar. O preparador de goleiros Taffarel, ao comentar a convocação de Weverton, sintetizou a filosofia do grupo com uma frase que serve para todo o elenco:

"Se botar a camisa nele, ele entra e joga como se estivesse lá no Grêmio", disse Taffarel sobre o goleiro — mas o raciocínio da confiança nos experientes permeou toda a lista.

A Seleção Brasileira estreia na Copa do Mundo no dia 13 de junho, contra Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova York, pelo Grupo C — que inclui ainda Escócia e Haiti. Antes disso, dois amistosos: dia 30 de maio contra o Panamá, no Maracanã, e dia 6 de junho contra o Egito, já nos Estados Unidos. Neymar terá, portanto, duas oportunidades de provar em campo o que Ancelotti enxergou no papel — e João Pedro, assistindo de fora, terá razões de sobra para torcer por um tropeço que nenhum brasileiro deveria desejar. Se Neymar se machucar nos amistosos preparatórios, quem Ancelotti chamará para substituí-lo: João Pedro, que já demonstrou estar em forma, ou um nome diferente da pré-lista que ficou de fora?