4.100 metros. Essa é a altitude de El Alto, na Bolívia — e foi exatamente ela que ditou o ritmo, o drama e o vexame da Seleção Brasileira na noite desta terça-feira (9). O Brasil perdeu por 1 a 0, encerrou as Eliminatórias na quinta colocação e deu a Carlo Ancelotti a primeira derrota à frente do escrete canarinho. Mas o que ficou ecoando nas redes sociais depois do apito final não foi o placar — foi o sorriso de um zagueiro na zona mista.

A noite em que El Alto engoliu a Seleção

O ar rarefeito de El Alto não perdoa. Quem chegou menos de quatro horas antes do jogo — estratégia deliberada da comissão técnica de Ancelotti para minimizar os efeitos da altitude — sentiu na pele o que os números descrevem fria e impiedosamente: 15 finalizações bolivianas contra apenas quatro do Brasil. Alisson Becker foi o jogador mais acionado da noite entre os brasileiros, salvando o escrete de uma goleada. Bruno Guimarães foi o outro titular de peso escalado por Ancelotti — o restante do time carregava a marca de um experimento que deu errado no pior momento possível.

Miguelito converteu o pênalti que decidiu o jogo e garantiu à Bolívia a vaga na repescagem da Copa do Mundo. Do outro lado, o Brasil se despedia das Eliminatórias sem a classificação direta que a torcida esperava — e sem respostas convincentes sobre o que vai mudar daqui até a Copa do Mundo 2026.

As risadas de Alexsandro e o estopim da revolta

Quando o zagueiro Alexsandro, ex-Flamengo e atualmente no Lille, apareceu diante das câmeras na zona mista, o clima era de derrota. Mas o tom que ele escolheu para falar surpreendeu — e irritou.

"Horrível. Falei com os caras ali que não quero mais não. Tentamos fazer o máximo para sair com a vitória, para ter um bom desempenho. Acho que não tivemos mal durante todo o jogo. Infelizmente o juiz optou em dar aquele pênalti que não foi", declarou Alexsandro, com algumas risadas pontuando a fala.

A combinação de risadas, a palavra "horrível" dita com leveza e a atribuição da derrota ao árbitro acendeu um rastilho nas redes sociais. Torcedores foram rápidos: como um jogador pode sorrir após uma derrota que encerra mal uma campanha eliminatória inteira? A repercussão foi imediata e contundente, com o nome do zagueiro entre os mais comentados da noite no Brasil.

O peso das palavras num momento de pressão máxima

Quando um jogador sorri após uma derrota, a torcida interpreta como descaso. Quando um jogador reclama do árbitro sem reconhecer a superioridade adversária em campo, a torcida interpreta como fuga de responsabilidade. Alexsandro fez os dois ao mesmo tempo — e num jogo em que o Brasil foi amplamente dominado pelos bolivianos em estatísticas de chutes e posse dentro da área adversária.

Quando a análise do SportNavo observa o contexto completo, o problema vai além da postura individual: reflete uma Seleção ainda em construção, com Ancelotti tentando consolidar uma identidade tática enquanto gerencia expectativas gigantescas. A altitude foi real, o cansaço foi real — mas a forma de comunicar esse sofrimento importa tanto quanto o sofrimento em si.

Na véspera do jogo, o próprio Ancelotti admitiu que não conhecia os efeitos da altitude e dependia das informações que a comissão técnica levantava. Chegar menos de quatro horas antes foi uma aposta — e a aposta perdeu. O técnico italiano absorve sua primeira derrota no comando do Brasil num cenário que poucos gostariam de estrear: altitude extrema, time alternativo e um gol sofrido em pênalti contestado.

O que fica do fim das Eliminatórias

A classificação para a Copa do Mundo 2026 já estava garantida antes desta rodada — o Brasil chega ao torneio, mas chega pela quinta colocação nas Eliminatórias, número que nenhum torcedor esperava e que alimenta o debate sobre o nível real da equipe de Ancelotti. A Bolívia, por sua vez, vai à repescagem com moral e com o gosto de ter batido o Brasil em casa pela altitude.

O próximo passo de Ancelotti é preparar a Seleção para a Copa do Mundo 2026, que começa em junho. O técnico terá semanas para trabalhar, definir titulares e, talvez, orientar os jogadores sobre como se comunicar publicamente após resultados ruins — porque num mundo onde cada frase vira viral em segundos, o que se diz na zona mista pode pesar tanto quanto o que se faz dentro dos 90 minutos.

O vestiário silencioso de El Alto, o ar que falta nos pulmões a 4.100 metros, as câmeras apontadas para um zagueiro que sorriu quando devia engolir a derrota em seco. A imagem ficou.