A última vez que o River Plate dependeu do Boca Juniors para se classificar à Libertadores foi em 2008 — e o clube acabou fora da competição continental naquele ano. Agora, em 2026, o cenário se repete com um agravante: a eliminação no Clausura para o Racing deixou os Millonarios reféns do maior rival para garantir uma vaga na próxima edição do torneio. A crise esportiva forçou a nova diretoria, liderada pelo presidente Stefano di Carlo, a tomar uma decisão de ruptura: dispensar até 12 jogadores e injetar US$ 20 milhões — cerca de R$ 107 milhões — em contratações para reformular o elenco de Marcelo Gallardo.
Uma temporada que virou estopim no River Plate
Os números da temporada 2025 do River são difíceis de ignorar. A equipe foi eliminada nas quartas de final da Libertadores, saiu prematuramente da fase de grupos do Mundial de Clubes, perdeu na semifinal da Copa Argentina para o Independiente Rivadavia e ainda sofreu uma derrota por 2 a 0 no clássico contra o Boca Juniors. O conjunto de fracassos transformou o que seria uma temporada de consolidação em um gatilho para a maior reformulação do clube em anos.
Gallardo, que voltou ao comando do River em 2024 carregando o peso de 14 títulos conquistados na primeira passagem, reconheceu publicamente o momento difícil.
"Não vou descansar. Essa é a única forma quando as coisas acontecem de maneira negativa. Quando se cai, temos que levantar cedo. No dia 20 de dezembro, quando nos apresentamos para treinar, aqui estarei", afirmou o técnico.A declaração, feita logo após a eliminação, sinalizou que o treinador não pretendia recuar diante da reconstrução.
Os 12 nomes na barca e o peso simbólico das saídas
Segundo informações publicadas pelo jornal argentino Olé e confirmadas pelo canal TyC Sports, ao menos oito jogadores já têm a saída confirmada ao fim do ano, com a lista podendo chegar a 12 nomes. Os contratos de Nacho Fernández, de 35 anos e ex-Atlético-MG, e de Milton Casco, lateral-esquerdo de 37 anos, vencem em dezembro de 2025 e não devem ser renovados. O mesmo vale para Enzo Pérez, 39 anos, e Pity Martínez, 32, herói da Libertadores de 2018 com o gol histórico na final contra o Boca.
O atacante Miguel Borja, de 32 anos e ex-Palmeiras, também está na lista. Alvo de críticas da torcida ao longo da temporada, o colombiano tem contrato até dezembro de 2025 e não deve permanecer. Os zagueiros Paulo Díaz — que falhou no clássico contra o Boca — e Federico Gattoni, emprestado pelo Sevilla até o fim do ano, completam os nomes mais cotados para a saída.
Há ainda casos com contratos vigentes que podem ser negociados: Fabricio Bustos, lateral-direito com vínculo até dezembro de 2027, e o meia Matías Galarza, cujo contrato vai até 2028 mas foi duramente criticado após a eliminação para o Racing. Facundo Colidio, 25 anos, atacante alvo do Flamengo na janela de julho de 2025, também aparece na lista apesar do contrato válido até dezembro de 2027 — a diretoria avalia negociá-lo caso surja proposta adequada, já que sua multa rescisória é de 30 milhões de euros.
Alvos milionários e a aposta no retorno de ídolos formados no clube
Com o orçamento de US$ 20 milhões definido pela nova gestão, o River busca até seis reforços em posições específicas: dois volantes, um lateral-esquerdo, dois meias e um atacante. O principal alvo é Lucas Beltrán, 24 anos, revelado pelo próprio clube e avaliado em 10 milhões de euros pelo mercado. O jogador está emprestado pela Fiorentina ao Valencia, da Espanha, e chegou a ser monitorado pelo Flamengo na última janela — a negociação não avançou porque o atacante priorizava seguir na Europa. O retorno à América do Sul é tratado como improvável pelo Olé, mas o River não desistiu.
Outro nome estudado é Claudio Echeverri, meia revelado pelo River, atualmente no Manchester City e emprestado ao Bayer Leverkusen. O caso é politicamente delicado: repatriar uma cria de volta ao Monumental seria um aceno simbólico à torcida em momento de desgaste. Para a lateral esquerda, o candidato mais forte é Román Vega, do Zenit, da Rússia. Darwin Núñez, ex-Liverpool e atualmente no Al-Hilal, foi oferecido ao clube — o uruguaio deseja sair da Arábia Saudita —, mas as conversas não avançaram. Luciano Gondou, também do Zenit, e o atacante Prestianni, do Benfica, completam o radar.
Na avaliação do SportNavo, o orçamento de R$ 107 milhões é expressivo para o padrão do futebol argentino, mas depende diretamente do volume de vendas que o clube conseguir realizar com jogadores de contrato longo. A equação só fecha se nomes como Colidio, Paulo Díaz ou Bustos renderem receitas na janela de janeiro.
O que a crise do River significa para o futebol sul-americano
O risco de o River ficar fora da Libertadores de 2026 não é apenas um problema interno — é um sinal de alerta para toda a estrutura do futebol argentino. Clubes como Boca Juniors e River Plate funcionam como ancoras de audiência e patrocínio do torneio continental. A ausência de um deles reduz o apelo comercial da competição e afeta receitas distribuídas pela Conmebol.
Para o futebol brasileiro, o movimento tem implicações diretas. O Flamengo monitora Colidio há meses — o atacante tem 25 anos, velocidade e capacidade de atuar pelos dois lados do ataque — e uma eventual saída do River pode reabrir a negociação a um preço mais acessível do que os 30 milhões de euros da multa contratual. Já o Palmeiras, que eliminou o River nas quartas da Libertadores de 2025, se beneficia de um adversário enfraquecido na próxima edição, caso os argentinos consigam a vaga.
O River precisa vencer o Vélez Sarsfield na última rodada do Clausura e torcer por uma derrota do Argentinos Juniors diante do Estudiantes para garantir a classificação direta. Se falhar, terá de conquistar o segundo torneio argentino de 2025 para chegar à Libertadores. São dois caminhos estreitos para um clube que, há apenas dois anos, era o favorito a vencer a competição continental. O prazo para apresentação do novo elenco é 20 de dezembro de 2025 — data que Gallardo já marcou na agenda.










