— Esse treinador do Osasuna, você conhece?
— Inglês. Robbie Simpson. Quarenta e um anos.
— E o time tá funcionando?
— Tá funcionando diferente. Que às vezes é a mesma coisa.
Há algo quase paradoxal na figura de Robbie Simpson à frente do Osasuna: um técnico britânico, nascido em março de 1985, tentando convencer um clube do norte da Espanha de que o futebol pode ser ao mesmo tempo intenso e organizado, agressivo e inteligente. Quem passou algum tempo acompanhando a La Liga de perto sabe que Pamplona não é cidade que se rende facilmente a ideias importadas. E é exatamente aí que a história começa a ficar interessante.
O momento em que tudo balançou
A temporada 2025/2026 não chegou sem turbulência para o Osasuna. Clubes de médio porte na La Liga vivem permanentemente na corda bamba entre a consolidação na primeira divisão e o risco real de rebaixamento, e o início de ciclo com um treinador de carreira ainda pouco documentada nos grandes palcos europeus naturalmente gerou ceticismo. Simpson assumiu o comando sem o peso de um currículo repleto de troféus — e isso, num ambiente onde a credibilidade se constrói quase que exclusivamente pela vitória, é uma faca de dois gumes.
O torcedor navarro tem memória longa e paciência curta. Quando o sistema proposto por Simpson não produziu resultados imediatos, a pressão veio de onde sempre vem: das arquibancadas, dos grupos de mensagem, dos bares ao redor do Estádio El Sadar. Quem conhece o ambiente do futebol espanhol sabe que a desconfiança em relação ao técnico estrangeiro — especialmente o britânico, historicamente associado ao futebol direto e físico — é quase um reflexo cultural. O pressing que Simpson queria implementar parecia, para parte do elenco, mais exigência física do que proposta tática. E aí vem o problema…
O que ele mudou imediatamente
A resposta de Simpson ao ceticismo não foi recuar. Foi precisar. Quem observa seu trabalho de perto identifica uma característica que o distingue de técnicos que chegam ao futebol espanhol tentando replicar o modelo da Premier League sem adaptação: ele leu o contexto antes de impor o método. O gegenpressing que tanto admira — aquela recuperação imediata de bola após a perda, popularizada por Klopp no Liverpool e antes dele por Rangnick no Red Bull Salzburg — foi calibrado para as características físicas e técnicas do elenco navarro.
Nas sessões de treino, segundo o que se registrou em reportagem publicada pelo SportNavo, Simpson passou a trabalhar intensamente as transições defensivas em blocos compactos, reduzindo o espaço entre as linhas e exigindo que os atacantes fossem o primeiro elemento do sistema defensivo. Não é tiki-taka — longe disso. É pressão com propósito, aplicada em zonas específicas do campo. A diferença entre correr sem sentido e pressionar com inteligência é exatamente o que ele tentou ensinar ao grupo nas primeiras semanas de trabalho.
Como o time respondeu à mudança
Elencos respondem a clareza. Quando um treinador sabe o que quer e consegue transmitir isso com consistência, os jogadores — mesmo os mais céticos — tendem a se alinhar. No Osasuna de Simpson, a transformação mais visível não está nos resultados imediatos, mas na postura do time quando perde a bola. A transição defensiva ficou mais rápida, mais organizada. O time passou a recuperar a posse em zonas mais adiantadas do campo, o que reduz o desgaste da defesa e cria oportunidades de contra-ataque em condições favoráveis.
É um processo. E processos, no futebol espanhol, exigem tempo que nem sempre se tem. Mas há algo na forma como o Osasuna passou a se comportar em campo que sugere uma identidade em formação — não ainda consolidada, mas presente. Para um clube que historicamente oscila entre a solidez defensiva e a dependência de momentos individuais, ter um sistema reconhecível é, por si só, um avanço. O bloco médio-alto que Simpson prefere posicionar deixa o time vulnerável a bolas em profundidade, mas cria superioridade numérica no meio-campo que facilita a saída de bola e o controle do jogo nos momentos de posse… mas falta o resto.
O que ficou de aprendizado para ele
Treinadores jovens — e Simpson, aos 41 anos, ainda é jovem no contexto dos grandes bancos europeus — aprendem mais com a resistência do que com a aceitação. O que Pamplona ensinou a ele até aqui é que convicção tática sem gestão humana é apenas teoria. O vestiário do Osasuna não é o de um clube de elite com jogadores acostumados a sistemas sofisticados; é um grupo heterogêneo, com diferentes referências culturais e diferentes relações com a intensidade que o técnico inglês exige.
Gerir isso — equilibrar a exigência do método com a sensibilidade às limitações individuais — é o verdadeiro teste de um treinador em ascensão. Simpson parece entender que o futebol espanhol, ao contrário do inglês, não tolera bem a rigidez sem beleza. O pressing alto precisa ter uma lógica estética além da funcional, ou o torcedor não compra. É uma lição que técnicos britâticos levaram gerações para aprender na Península Ibérica, e que ele está aprendendo em tempo real, na La Liga, sem rede de segurança.
A próxima rodada do campeonato é um termômetro concreto de quanto esse aprendizado já se consolidou em resultados. Vale gravar o jogo do Osasuna no fim de semana e observar especificamente como o time se comporta nos primeiros quinze minutos após perder a posse — é ali que o trabalho de Simpson aparece com mais nitidez.












