Todo mundo sabe que a França vai para a Copa do Mundo 2026 como uma das favoritas ao título. Como Didier Deschamps chegou a uma lista que mistura veteranos do vice-campeonato de 2022 com jovens que mal tinham carteira de motorista na última Copa — essa é a parte que conta.
A convocação divulgada nesta semana traz 26 nomes que revelam uma filosofia de construção de elenco rara no futebol de alto nível: a França não apenas manteve o núcleo que perdeu a final para a Argentina no Catar (11 remanescentes, entre eles Kylian Mbappé, Ousmane Dembélé, William Saliba e Aurélien Tchouaméni), como abriu espaço para nomes que jamais disputaram um jogo de Copa do Mundo. Robin Risser, goleiro do Lens, e Malo Gusto, lateral-direito do Chelsea, são os exemplos mais simbólicos dessa renovação calculada.
O que a derrota em 2022 plantou na seleção francesa
A virada de chave começa naquela noite de 18 de dezembro de 2022, em Lusail. A França foi até os pênaltis contra a Argentina, perdeu por 4 a 2 nas cobranças após empate em 3 a 3 no tempo normal — e Mbappé, que terminou o jogo com um hat-trick histórico, saiu com a bola e sem a taça. A derrota, paradoxalmente, funcionou como combustível.
Deschamps, que está no cargo desde junho de 2012 — treze anos à frente da seleção, uma longevidade que poucos técnicos de elite conseguem sustentar —, não desmantelou o grupo. Fez o oposto: manteve a espinha dorsal e foi inserindo peças jovens em camadas. O resultado está na lista para a Copa do Mundo de 2026: jogadores como Warren Zaïre-Emery (PSG), Maghnes Akliouche (Monaco) e Rayan Cherki, contratado pelo Manchester City, compõem um banco de reservas que seria titular em ao menos metade das seleções classificadas para o torneio.
Segundo análises de desempenho coletadas ao longo da temporada 2025/2026 da Ligue 1 e das principais ligas europeias, a França apresenta um dos melhores índices de PPDA — passes permitidos por ação defensiva — entre as seleções favoritas ao título, o que, em linguagem mais direta, significa que o time pressiona com eficiência sem precisar correr mais do que os adversários. É futebol inteligente, pragmático, como os críticos de Deschamps costumam apontar, mas eficaz.
Risser, Gusto e a aposta nos que ainda não chegaram lá
Nomes novos num elenco de favorito sempre carregam uma tensão específica. Robin Risser, goleiro do Lens, entra na lista como terceira opção atrás de Mike Maignan (Milan) e Brice Samba (Rennes), mas a sua presença sinaliza uma transição geracional no gol que Deschamps começa a preparar com antecedência. Risser nunca disputou uma partida de Copa do Mundo — e pode ser que sua estreia aconteça justamente no torneio mais assistido do planeta.
Malo Gusto, lateral-direito do Chelsea, representa outro movimento de renovação no setor defensivo. Com Maxence Lacroix (Crystal Palace) também na lista, Deschamps tem opções que combinam velocidade de recuperação com capacidade de construção pelo corredor — atributos que a seleção precisou improvisar em alguns momentos no Catar. Lucas Digne (Aston Villa) e os irmãos Hernandez — Lucas, do PSG, e Theo, que agora defende o Al-Hilal — completam um setor em que a concorrência é real e a hierarquia, menos óbvia do que parece.
No meio-campo, a volta de N'Golo Kanté, hoje no Fenerbahçe, é o dado que mais fala sobre a confiança de Deschamps em jogadores que ele conhece fundo. Kanté foi peça central no título de 2018 e esteve ausente em boa parte do ciclo pós-Catar por lesão. Ao lado de Tchouaméni (Real Madrid), Adrien Rabiot (Milan) e Zaïre-Emery, o técnico tem quatro perfis distintos para montar o miolo conforme o adversário — uma flexibilidade que poucos treinadores de Copa conseguem ter de verdade.
O Grupo I e o que muda no panorama da Copa do Mundo 2026
A estreia da França está marcada para 16 de junho, às 16h (horário de Brasília), no MetLife Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey, contra o Senegal. O grupo inclui ainda Iraque e Noruega — adversários que, no papel, colocam os franceses como favoritos a avançar com folga, mas que carregam armadilhas específicas.
O Senegal, liderado por Sadio Mané e com uma nova geração de jogadores formados nas academias europeias, chegou às quartas de final em 2022 antes de ser eliminado pela Inglaterra. A Noruega, por sua vez, tem Erling Haaland — e um Haaland motivado para provar que pode carregar uma seleção num Mundial é variável que nenhum técnico descarta com tranquilidade.
Nas palavras do próprio Deschamps, em entrevistas ao longo do ciclo classificatório, a ideia central é que cada jogador convocado saiba exatamente o papel que precisa cumprir — titular ou reserva, o entendimento coletivo é o que diferencia um grupo campeão de um grupo de estrelas. A filosofia explica escolhas como a de Désiré Doué (PSG) e Bradley Barcola (PSG) no ataque, jovens que oferecem velocidade e imprevisibilidade nas transições, características que a Argentina explorou com eficiência na final de 2022.
Com Marcus Thuram (Internazionale) como referência de área e Michael Olise (Bayern de Munique) como coringa técnico, Deschamps tem uma frente de ataque com opções que vão do drible ao pivô — e Mbappé, agora com 27 anos e uma temporada completa no Real Madrid, chega para esta Copa do Mundo no que provavelmente é o seu melhor momento físico e técnico desde que estreou no Mundial, em 2018, aos 19 anos. A França abre sua campanha no dia 16 de junho contra o Senegal, e a resposta sobre se esta geração pode ir além do vice-campeonato do Catar começa a ser escrita a partir daí.










