Quando Pelé tinha 18 anos, já havia sido campeão do mundo com a Seleção Brasileira e marcado 58 gols em 38 jogos pelo Santos na temporada de 1958. Quando Robinho — o pai — tinha 18, estreava no profissional santista e chamava atenção de clubes europeus. Agora, em 2026, é Robinho Jr. quem completa 18 anos dentro do clube da Vila Belmiro — e seu nome chegou às manchetes não por gol ou assistência, mas por ter ousado driblar Neymar num treino de campo reduzido no CT Rei Pelé, no domingo (3), e ter desencadeado uma crise que subiu direto à presidência do Santos.
O que dizem os envolvidos
O episódio ocorreu durante atividade com jogadores que não foram titulares no empate de 1 a 1 contra o Palmeiras, no sábado (2), no Allianz Parque. Neymar ficou fora daquela partida por desgaste físico e por se recusar a jogar em gramado sintético — Cuca tentou convencê-lo ao menos a ficar no banco, sem sucesso. No domingo, portanto, os dois trabalharam juntos. O coletivo terminou 2 a 2, e Cuca propôs um duelo de um contra um para desempatar. Robinho Jr. ficou frente a frente com Neymar, aplicou o drible e finalizou — o goleiro defendeu, mas o lance já havia acendido a faísca.
Segundo apuração do SportNavo com base em diferentes relatos internos, há versões divergentes sobre o que aconteceu na sequência. Uma parte dos testemunhos indica que Neymar deu apenas um empurrão leve; outra aponta para um tapa e uma rasteira. O que não está em disputa é que houve contato físico, que os dois foram separados e que Neymar foi atrás do jovem ainda no vestiário para pedir desculpas. Internamente, a comissão técnica não vê necessidade de medida disciplinar e classifica o episódio como consequência natural de um treino de alta intensidade.

"O Neymar não escuta pai, não escuta mãe, não escuta treinador. Ele manda no Santos. Muda treino, faz o que quer. Esse é o ídolo que vocês querem para a Seleção Brasileira?"
A frase é do ex-jogador Craque Neto, que disparou a crítica na Rádio Craque Neto no mesmo domingo. Neto ainda mencionou Pedro, do Flamengo, como contraponto ao comportamento de Neymar — um recado que reforça o debate sobre convocação à Seleção. Apesar da reconciliação entre os jogadores, representantes de Robinho Jr. procuraram o presidente Marcelo Teixeira para registrar a insatisfação com a conduta do camisa 10.
O que dizem os números
Robinho Jr. é filho de Robinho, amigo pessoal de Neymar, o que torna o episódio ainda mais delicado. O jovem atacante percorreu as categorias de base do Santos com o apelido de Juninho — só ao subir ao profissional passou a ser chamado de Robinho Jr., carregando o peso de um sobrenome que já foi sinônimo de drible desconcertante no futebol brasileiro. Ele integra o elenco principal em 2026, com 18 anos, e participou do coletivo reserva no domingo — dado que, por si só, indica que ainda busca consolidação no time de Cuca.

A diferença de geração entre os dois é concreta. Neymar tem 34 anos e acumula mais de 500 jogos como profissional entre Santos, Barcelona, PSG e Seleção Brasileira. Robinho Jr. está no início da curva. Essa distância — em termos de experiência acumulada — é quase a mesma que existe entre Salvador e Manaus em linha reta: dois pontos do mesmo país, mas com realidades completamente distintas. O que o episódio do treino revelou é que, dentro de campo, essa diferença pode ser encurtada por um único drible bem executado.
Do lado de Neymar, os números de 2026 no Brasileirão ainda não justificam a posição de intocável que ele ocupa no clube. O camisa 10 ficou de fora da partida contra o Palmeiras no sábado — empate que mantém o Santos em situação delicada na tabela. A análise do SportNavo sobre o desempenho coletivo santista nesta temporada mostra que o time tem dificuldade de encaixar um esquema consistente quando Neymar não joga, o que amplifica a dependência em torno do craque e, consequentemente, o espaço para episódios como o desta semana ganharem proporção desproporcional.
O que digo eu sobre o quadro
Há um dado que merece atenção analítica aqui. Robinho Jr. tem 18 anos. Está em fase de afirmação no profissional. Driblar um companheiro mais experiente num coletivo de alta intensidade não é desrespeito — é instinto competitivo, exatamente o que se espera de um jovem que quer mostrar serviço. A reação de Neymar, seja empurrão ou tapa, expõe um problema de gestão emocional que não é novidade, mas que ganha outro peso quando o alvo é um garoto em início de carreira.
O contexto da formação de Robinho Jr. importa aqui. Jogadores que sobem da base para o profissional aos 18 anos carregam anos de pressão acumulada — pressão técnica, pressão de sobrenome, pressão de expectativa. Um incidente como esse, mal gerenciado, pode travar o desenvolvimento de um atleta que ainda está construindo identidade dentro do elenco. A decisão dos representantes de levar o caso à presidência é compreensível: eles precisam proteger o ambiente de trabalho do jovem.
Internamente, o Santos trata o episódio como encerrado. A comissão técnica de Cuca não planeja ação disciplinar. Mas o clube enfrenta um problema real de governança: quando um jogador recusa orientação do treinador sobre banco de reservas, como ocorreu no sábado contra o Palmeiras, e no dia seguinte protagoniza um incidente físico com um jovem da base, o sinal institucional fica confuso. O Santos joga na quarta-feira contra o Recoleta, do Paraguai, pela Copa Sul-Americana — e Neymar está relacionado para a partida.








