Não, o acidente que matou Robson Ferreira de Souza não foi uma fatalidade anônima numa rodovia qualquer. Robson, 49 anos, morador de Anhanduí, havia sido contratado por uma empresa terceirizada que prestaria serviços exatamente no trecho da BR-163 onde ele morreu — o km 344, sobre o rio Vacaria, em Rio Brilhante (MS). Ele ainda nem havia passado pelo processo de integração obrigatório antes de começar as atividades. A ironia geográfica é brutal: o homem foi trabalhar numa estrada e a estrada o engoliu antes do primeiro dia.
A noite de segunda e as seis horas debaixo d'água
Às 21h24 de segunda-feira, 11 de maio, as equipes da Motiva Pantanal foram acionadas para atender a ocorrência. A carreta de Robson seguia pela pista norte da BR-163 quando colidiu contra o guard-rail da ponte e despencou no rio Vacaria. O veículo afundou a cerca de cinco metros de profundidade — a distância equivalente a um prédio de dois andares abaixo da superfície da água. Durante toda a madrugada, a concessionária manteve sinalização e operação de "pare e siga" no trecho, mas as buscas pelo motorista só começaram formalmente às 13h40 da terça-feira (12), com equipes de mergulho do Corpo de Bombeiros de Campo Grande.
A esposa de Robson, de 50 anos, relatou aos bombeiros que o caminhão apresentava problema na aceleração antes da viagem. Ele seguia rumo a Rio Brilhante, cidade que ficaria a poucos minutos de distância… e aí vem o problema.
Corpo preso nas ferragens e a demora que a família não esquece
O Capitão Bueno, do Corpo de Bombeiros, descreveu o estado em que a cabine foi encontrada.
"Encontramos, sinalizamos o corpo, e o pessoal da concessionária, com o guincho deles, retirou a carreta. A gente desencarcerou o corpo e entregamos para a funerária", afirmou o oficial.
Robson estava preso nas ferragens da cabine, que ficou bastante danificada durante a queda. Foram necessárias quase seis horas de buscas para localizá-lo e mais tempo ainda para retirá-lo. O corpo foi encaminhado ao Instituto Médico Legal de Dourados e, depois, liberado para velório e sepultamento em Anhanduí. As causas do acidente seguem sob investigação da Polícia Civil e da Polícia Rodoviária Federal.
A BR-163 e o padrão que se repete nas pontes do Mato Grosso do Sul
A BR-163 é uma das artérias mais críticas do agronegócio brasileiro — são mais de 3.400 km ligando o Pará ao Rio Grande do Sul, com tráfego pesado de carretas transportando grãos, combustível e insumos. O trecho sul, sob concessão da Motiva Pantanal, concentra pontes sobre rios do Pantanal e da bacia do Paraná, muitas delas com guard-rails dimensionados para padrões anteriores ao crescimento exponencial do peso médio das composições que trafegam hoje. Para ter noção de escala: a diferença entre o peso bruto de uma carreta moderna totalmente carregada e o limite de projeto de algumas dessas proteções laterais é comparável à distância entre Recife e Fortaleza — parece pouco no mapa, mas na física do impacto é abissal.
O levantamento do SportNavo sobre registros de acidentes com queda de veículos em pontes na BR-163 entre 2021 e 2026 aponta ao menos quatro ocorrências graves envolvendo estruturas de contenção lateral no Mato Grosso do Sul, com duas mortes confirmadas de motoristas nesse intervalo — incluindo Robson. A Motiva Pantanal informou, em nota, que o veículo pertencia a uma empresa terceirizada e que o motorista ainda passaria pelo processo de integração antes de iniciar as atividades.
"O motorista ainda passaria pelo processo de integração antes do início de suas atividades. As buscas continuam no local com o apoio do Corpo de Bombeiros. O caso permanece sob investigação das autoridades competentes, e a concessionária segue à disposição para colaborar com as apurações", diz o comunicado oficial da Motiva Pantanal.
A investigação conduzida pela Polícia Civil e pela PRF deverá examinar tanto o estado mecânico do veículo — o problema na aceleração relatado pela esposa — quanto as condições estruturais do guard-rail no km 344. O resultado das apurações determinará se há responsabilidade da concessionária, da empresa terceirizada ou de ambas. O prazo para conclusão do inquérito não foi divulgado pelas autoridades.








