Uma batida na cabine do VAR. Esse gesto, relatado pelo ex-bandeirinha Domenico Rocca, é o coração de uma investigação que pode abalar as fundações da arbitragem italiana: Gianluca Rocchi, ex-árbitro de elite e hoje responsável pela Commissione Nazionale Arbitri (CAN) — o órgão que regula os árbitros da Série A e da Serie B —, está sendo formalmente investigado por fraude esportiva pela promotoria de Milão.
A denúncia que saiu de dentro da casa
Domenico Rocca não é um outsider. Bandeirinha de carreira, desiludido com os rumos da gestão Rocchi na CAN, ele prestou depoimento como testemunha e abriu um flanco que o futebol italiano queria manter fechado. Segundo Rocca, durante a partida entre Udinese e Parma, disputada em março do ano passado pela Série A, Rocchi teria se deslocado até a cabine de VAR e batido na porta — um gesto de pressão sobre os operadores que estavam dentro. O VAR era conduzido por Daniele Paterna, com Simone Zaza como assistente. A análise em questão envolvia um possível toque de mão do zagueiro húngaro Botond Balogh: a decisão foi pênalti, mesmo com o braço do defensor próximo ao corpo, numa interpretação que especialistas já consideravam, no mínimo, discutível.
"Estava desiludido com a gestão atual da comissão", declarou Rocca ao prestar seu depoimento, segundo a agência italiana ANSA, explicando a motivação para ir às autoridades.
Três casos, cinco suspeitos e o espectro do Calciopoli
A investigação não para no episódio Udinese-Parma. Rocca relatou outras duas situações igualmente graves. A primeira aponta que Rocchi teria favorecido a Inter de Milão durante uma vitória nerazzurra sobre o Bologna, manipulando indiretamente o andamento do jogo. A segunda acusação é de natureza ainda mais estrutural: Rocchi teria alterado a escala de arbitragem para que Daniele Doveri — considerado um árbitro "impopular" pela diretoria interista — fosse substituído por Andrea Colombo, árbitro então bem avaliado pelo clube. Uma terceira alegação sustenta que Doveri foi deliberadamente escalado para a semifinal da Copa Itália com o objetivo de impedi-lo de apitar a decisão do torneio.
Ao todo, cinco pessoas figuram como suspeitas na investigação do Ministério Público milanês. A agência ANSA confirmou que, diferentemente do que ocorreu no célebre Calciopoli de 2006 — que derrubou a Juventus e chacoalhou o calcio por anos —, nenhum clube está sendo investigado neste momento. O foco recai inteiramente sobre figuras internas da arbitragem.
Segundo apuração do SportNavo junto a fontes que acompanham o desenrolar do caso em Milão, a promotoria ainda está na fase de coleta de provas, e novos depoimentos podem ser convocados nas próximas semanas.
O VAR como instrumento — e como problema
Quem acompanhou de perto a implementação do VAR na Premier League e na LaLiga ao longo dos últimos anos sabe que a tecnologia resolveu muitos problemas, mas criou outros: criou uma arquitetura de poder nova dentro do futebol. A cabine do VAR tornou-se um espaço opaco, de difícil auditoria em tempo real, onde a pressão hierárquica pode substituir o critério técnico. O que Rocca descreve — um dirigente batendo fisicamente na porta dessa cabine durante uma partida — é, nesse contexto, uma violação do princípio básico de independência que toda a narrativa do video assistant referee prometia garantir.
Na Itália, a memória do Calciopoli ainda está viva. Em 2006, interceptações telefônicas revelaram que o então dirigente da Juventus Luciano Moggi mantinha contato sistemático com árbitros e designadores. A Juventus foi rebaixada à Serie B e perdeu dois títulos. O escândalo atual tem dimensões menores — ao menos por enquanto —, mas toca no mesmo nervo: a credibilidade da Série A num mercado europeu cada vez mais competitivo por investimento, atenção e prestígio.

O que vem a seguir
A promotoria de Milão seguirá colhendo depoimentos e, eventualmente, decidirá se formaliza uma acusação contra Rocchi e os demais investigados. A Federazione Italiana Giuoco Calcio (FIGC) ainda não se pronunciou oficialmente sobre o afastamento ou manutenção de Rocchi no cargo. Enquanto isso, a análise do SportNavo indica que a pressão sobre o órgão será crescente: com a Série A sendo transmitida para mais de 150 países e recebendo atenção de fundos de investimento estrangeiros, qualquer sombra sobre a integridade da competição tem peso financeiro além do esportivo. A próxima rodada da Série A está programada para o fim de semana, e cada lance de árbitro será observado com uma lupa que Rocchi, voluntariamente ou não, contribuiu para aproximar.









