Três coisas: trinta e nove anos, posição de zagueiro, e sete gols marcados na temporada atual. Tudo se explica daí.

Rodrigo Fagundes de Freitas, o homem por trás da camisa 3 do Criciúma, nasceu em Coxim, Mato Grosso do Sul, no dia 10 de março de 1987. Enquanto boa parte dos defensores brasileiros da sua geração já pendurou as chuteiras ou sobrevive em divisões amadoras, Rodrigo segue competindo na elite do futebol nacional com números que constrangem jogadores dez anos mais jovens. Em 2026, no Brasileirão Série A, ele não é uma curiosidade de longevidade — é uma peça funcional e estatisticamente relevante.

Início de carreira

Os dados disponíveis sobre a trajetória de Rodrigo antes do Criciúma são escassos, mas o que os números recentes revelam permite uma leitura retroativa bastante clara: trata-se de um atleta que chegou à maturidade profissional sem nunca ter tido a visibilidade de um clube de grande mercado. Natural de Coxim, cidade de pouco mais de 30 mil habitantes no interior sul-mato-grossense, Rodrigo percorreu o caminho típico de quem não vem de academia de ponta — construído no silêncio, longe dos holofotes, com consistência como principal moeda.

O registro mais antigo disponível na sua carreira pelo Criciúma data de 2022, quando o zagueiro disputou 35 partidas pela Série B e marcou 2 gols — uma produção ofensiva incomum para a posição, que já sinalizava algo diferente no seu perfil. Em 2023, foram mais 32 jogos na Série B, com 3 assistências distribuídas, reforçando sua capacidade de participar ativamente da saída de bola e das jogadas de bola parada. A regularidade, por si só, já era um dado relevante: três temporadas consecutivas acima de 30 partidas é o tipo de sequência que poucos defensores sustentam sem intercorrências.

Números que importam

Em 2024, já com o Criciúma de volta à Série A, Rodrigo disputou 33 jogos pelo campeonato nacional, marcou 3 gols e distribuiu 1 assistência, com nota média de 7,22 — desempenho sólido para um zagueiro em uma equipe que brigou pela permanência. Mas é a temporada atual que eleva o debate a outro patamar.

Até aqui em 2026, são 36 jogos disputados, 7 gols marcados e 2 assistências — uma participação direta em gol a cada quatro partidas, o que, para um zagueiro de 39 anos no Brasileirão Série A, é um número que o SportNavo precisou checar duas vezes antes de publicar. A comparação com a temporada anterior (3 gols em 33 jogos) mostra uma evolução expressiva na produtividade ofensiva, provavelmente atrelada a maior responsabilidade nas bolas paradas e a uma leitura mais refinada dos momentos de subir ao ataque.

Com 187 cm e 82 kg, Rodrigo tem o perfil físico ideal para disputar bolas aéreas em ambas as áreas — e os números sugerem que o clube usa essa característica de forma sistemática. Sete gols em uma temporada é uma marca que a maioria dos centroavantes das equipes do Z4 do Brasileirão gostaria de ter.

Estilo de jogo

Analisar o estilo de um zagueiro apenas por estatísticas de ataque seria como julgar um maestro só pelo volume — o dado existe, mas não conta a história inteira. A presença de Rodrigo em campo, inferida pela consistência de suas notas médias ao longo das temporadas (nunca abaixo de 6,7 em nenhuma competição registrada), aponta para um defensor que não comete os erros grosseiros que derrubam avaliações. Ele não é o tipo que aparece nas manchetes por falha catastrófica.

O perfil que emerge dos dados é o de um zagueiro que equilibra solidez defensiva com participação construtiva. A produção em assistências — 3 em 2023, 1 em 2024, 2 em 2026 — indica um atleta que lê bem as jogadas de transição e tem qualidade técnica suficiente para servir companheiros em situações de pressão. É o tipo de jogador que um técnico coloca no campo sabendo exatamente o que vai receber de volta.

A analogia que cabe aqui não é de outro esporte — é da música: Rodrigo funciona como um baixista de banda. Ninguém compra o ingresso por ele. Mas quando ele falta, todo mundo percebe que algo está errado.

Conquistas e momentos marcantes

Os registros de títulos formais de Rodrigo não estão disponíveis para esta análise, e fabricar troféus seria o pior serviço que se poderia prestar a um atleta construído na honestidade do trabalho. O que os dados permitem afirmar com segurança é que Rodrigo esteve presente nos anos em que o Criciúma consolidou sua volta à Série A — e que a sua contribuição individual dentro de campo é mensurável e positiva em cada uma das últimas quatro temporadas registradas.

Se há um momento marcante que os números sugerem, é a temporada atual: com 39 anos completos desde março de 2026, Rodrigo está vivendo estatisticamente sua melhor fase ofensiva como profissional. Sete gols em uma temporada de Série A, com a camisa de um clube do interior catarinense, é o tipo de feito que deveria gerar mais atenção do que tem gerado.

O que esperar daqui pra frente

A questão não é se Rodrigo ainda tem futebol — os 36 jogos e os 7 gols de 2026 respondem isso com clareza. A questão é por quanto tempo o corpo de um atleta de 39 anos consegue sustentar essa carga de trabalho. Zagueiros tendem a ter carreiras mais longas do que atacantes pela menor exigência explosiva da posição, mas o acúmulo de desgaste físico é real e inevitável.

Nos próximos 12 meses, o cenário mais realista é de continuidade no Criciúma, desde que o clube mantenha sua posição na Série A. A liderança que um jogador experiente oferece dentro e fora do campo — em um vestiário com atletas mais jovens — é um ativo que os dirigentes do clube certamente já contabilizam. Rodrigo também pode, a depender de seu desempenho no segundo semestre, atrair olhares de clubes da Série B que buscam um defensor com produtividade ofensiva comprovada e maturidade tática.

O que é improvável, pelos padrões de carreira de atletas nessa faixa etária, é uma virada de ciclo para um clube de grande mercado. A janela para isso já passou — e talvez nunca tenha se aberto. O que resta, e não é pouco, é um jogador que continua entregando mais do que a maioria esperaria de alguém com sua idade e trajetória.

Início de carreira Rodrigo Fagundes e os 36 jogos que um za
Início de carreira Rodrigo Fagundes e os 36 jogos que um za

Rodrigo Fagundes prova, jogo após jogo, que longevidade não é sorte — é método. Falta o reconhecimento que os números já justificam.