Diz-se que qualquer treinador com passagens relevantes no futebol brasileiro já chega ao cargo seguinte com o trabalho meio feito — basta encaixar os nomes no esquema e girar. Na verdade, não é assim — e o caso de Roger Machado Marques no São Paulo em 2026 expõe com clareza o quanto essa premissa é preguiçosa. O que ele constrói no Morumbi não é uma repetição de ciclos anteriores: é uma imposição de identidade sobre um elenco que, historicamente, resiste a qualquer moldagem que não venha embrulhada em títulos imediatos.

O esquema que ele sempre busca rodar

Roger Machado Marques, nascido em 25 de abril de 1975, gaúcho de formação mas com trajetória que atravessou diferentes culturas táticas do futebol nacional, tem uma obsessão reconhecível: ele quer jogar em bloco médio-alto, com linhas compactas e transições verticais rápidas. O esquema de referência é o 4-3-3 com variação para 4-2-3-1 no momento de pressão adversária — não por modismo, mas porque essa estrutura permite ao time recuperar a bola em zonas adiantadas sem abrir mão da solidez defensiva. É um modelo que exige jogadores com alto volume de corrida e leitura posicional acima da média, dois atributos que ele prioriza acima de qualquer qualidade técnica individual.

O contra-argumento mais comum entre analistas é que esse tipo de esquema precisa de tempo para ser assimilado e, portanto, não serve para clubes sob pressão constante de resultado. Roger refuta esse argumento com a própria prática: ele não ensina o esquema como uma teoria abstrata, mas o instala via repetição de situações de jogo em treino. A automação vem antes da compreensão intelectual — e aí vem o problema quando o elenco não tem disciplina tática consolidada.

Como ele monta o time dentro desse esquema

A montagem do time por Roger Machado Marques parte de uma premissa clara: o meio-campo é o coração do modelo, não a linha de ataque. Ele privilegia um volante de contenção com capacidade de saída de bola — não um destruidor puro — e dois meias com perfis complementares: um de maior presença física para cobrir espaço, outro com capacidade de ligação entre linhas. Essa tríade de meio-campo funciona como o eixo que regula o ritmo do jogo, comprimindo ou esticando as linhas conforme a necessidade do momento.

Na linha de quatro defensiva, Roger exige laterais que participem ativamente da construção. Não são laterais de marcação pura: são peças que sobem em apoio ao ataque e criam superioridade numérica nas faixas. Isso sobrecarrega os alas do 4-3-3, que precisam cobrir a largura quando os laterais avançam — e é justamente nesse ponto que o modelo exige condicionamento físico acima da média do Brasileirão Série A.

Onde o esquema funciona melhor (e onde quebra)

O modelo de Roger Machado Marques funciona com eficiência máxima contra equipes que jogam com uma linha defensiva alta e tentam construir a partir do goleiro. A pressão organizada do 4-3-3 transforma a saída de bola do adversário em armadilha, gerando recuperações em zonas perigosas e transições curtas para o ataque. É um futebol que parece simples quando está funcionando — e é exatamente essa aparente simplicidade que esconde a complexidade da execução.

A fragilidade aparece contra equipes que jogam em bloco baixo com linhas compactas e apostam no contra-ataque. Quando o adversário cede o espaço e espera, o 4-3-3 de Roger perde a referência de pressão e precisa se transformar num time de posse — e aí a exigência técnica sobe num nível que nem todo elenco consegue sustentar. Os laterais avançados ficam expostos nas costas, e o volante de contenção passa a cobrir uma área desproporcional para um só jogador. É o calcanhar de Aquiles do sistema, e qualquer treinador adversário com bom material de análise sabe como explorar…

Os jogadores que ele privilegia para fazer funcionar

Roger Machado Marques tem um perfil de jogador preferido que vai além da posição: ele quer atletas que entendam o jogo sem bola. Isso significa que um jogador tecnicamente brilhante mas com baixa taxa de pressão e reposicionamento defensivo tende a perder espaço no time titular, independentemente do nome ou do salário. Essa escolha já gerou tensão em clubes anteriores — e no São Paulo, onde o elenco carrega figuras de prestígio histórico, a gestão dessa equação é tão importante quanto a tática em si.

Nos setores que ele mais confia, a constância supera o talento pontual. Um jogador que entrega 70% do seu potencial em todos os jogos vale mais, no modelo de Roger, do que um que entrega 95% em três partidas e desaparece nas outras quatro. Essa filosofia de confiabilidade acima de genialidade tem implicações diretas na formação do elenco e na política de contratações — e é aí que o São Paulo de 2026 precisará decidir se a proposta tática do treinador e a cultura de montagem de elenco do clube caminham na mesma direção.

Roger Machado Marques (São Paulo)
Roger Machado Marques (São Paulo)

É o mesmo cenário que o Grêmio viveu em 2018, quando um treinador de método sólido encontrou um elenco acostumado a jogar no talento individual — só que agora a aposta é diferente, porque o Brasileirão de 2026 não espera que ninguém resolva esse conflito internamente.