Quando Rollheiser converteu o segundo pênalti aos 48 minutos do primeiro tempo, deslocando Léo Vieira pelo canto esquerdo para fazer 2 a 0 na Arena Fonte Nova, parecia estar escrita mais uma crônica de sofrimento baiano em seus próprios domínios. O Santos, sem Neymar e sem Gabigol — este último suspenso —, jogava liberto, combinando pelos flancos, deixando o adversário girar em falso no Salvador da noite de sábado (25). O problema é que crônicas de futebol raramente têm final previsível, e o Brasileirão, em sua décima terceira rodada, cobrou caro a arrogância silenciosa de quem acha que 2 a 0 basta.

O substituto que não improvisou

Cuca escalou Benjamin Rollheiser no lugar de Neymar, e o meia argentino tratou de transformar a responsabilidade em protagonismo. O primeiro pênalti surgiu aos 21 minutos: o árbitro Ramon Abatti Abel, inicialmente omisso, foi chamado pelo VAR para rever a falta de Erick Pulga em Gabriel Bontempo dentro da área. Rollheiser bateu no canto direito, a bola beijou a trave antes de entrar e o Santos abriu o placar. O segundo veio nos acréscimos da etapa inicial, quando um cruzamento de Thaciano acertou o cotovelo de Ramos Mingo — mais uma vez, o VAR redirecionou o dedo do juiz para a marca do pênalti. Rollheiser não desperdiçou, deslocou o goleiro pela segunda vez e empurrou o Bahia para o vestiário sob vaias da própria torcida, que não poupou o técnico Rogério Ceni, cumprindo suspensão nas arquibancadas.

O que se viu no primeiro tempo foi um Santos desenhado pelo espaço, não pela imposição de uma estrela. Sem o camisa 10 retornando à intermediária para pedir a bola em cada jogada, os companheiros circularam com mais fluidez, Thaciano ditou o ritmo ofensivo e Rony chegou a ficar cara a cara com Léo Vieira em lance que acabou anulado por impedimento. A análise do SportNavo sobre o desempenho coletivo santista nessa partida aponta exatamente isso: a ausência de Neymar — poupado para o confronto da próxima terça-feira contra o San Lorenzo, na Argentina, pela Copa Sul-Americana — produziu um paradoxo raramente debatido com honestidade nos bastidores da Vila Belmiro.

Seis minutos que apagaram quarenta e cinco

Rogério Ceni não precisou discursar no intervalo. As entradas de Everton Ribeiro e do lateral Gilberto, promovidas pelo banco tricolor, já falavam por si. O Bahia voltou com outro pulso, sufocando o Santos no campo de defesa e criando chances em série — Jean Lucas raspou a trave aos 7 minutos do segundo tempo, e Erick Pulga foi travado por Diógenes em finalização perigosa aos 17. O Santos tentava sobreviver nos contra-ataques, e Léo Vieira chegou a salvar em chute de Lautaro Díaz quando a vitória ainda parecia acessível.

O substituto que não improvisou Rollheiser brilha, Santos abre 2 a 0 e d
O substituto que não improvisou Rollheiser brilha, Santos abre 2 a 0 e d

Mas foi nas substituições de Cuca que a torcida santista encontrou seu bode expiatório. As trocas realizadas pelo treinador, que modificaram o posicionamento da equipe e aprofundaram o recuo, foram amplamente criticadas nas redes sociais por torcedores que as relacionaram diretamente com a queda de rendimento. O padrão gerou reação imediata:

"Como sempre", escreveram torcedores do Santos ao comentar as mexidas do técnico, num coro que misturava frustração com resignação.
A pressão baiana finalmente dobrou a resistência santista aos 30 minutos, quando Luciano Juba cobrou falta com perfeição desconcertante — a bola foi no ângulo direito de Diógenes, que tocou mas não evitou o golaço que incendiou as arquibancadas da Fonte Nova. Seis minutos depois, Erick Pulga se redimiu do pênalti cometido no primeiro tempo: foi ao fundo pela direita, cruzou fechado e Willian José subiu acima da zaga para cabecear no canto esquerdo. Dois a dois. Seis minutos. Uma vantagem dissolvida como açúcar na chuva de Salvador.

O paradoxo Neymar e a corda bamba do Peixe

Há uma pergunta que o resultado desta noite torna inevitável, e o SportNavo não vai esquivá-la: o Santos joga melhor sem Neymar? Os dados da partida não são conclusivos o suficiente para sentença definitiva — afinal, dois pênaltis marcam qualquer placar —, mas a fluidez coletiva exibida no primeiro tempo contrasta com o travamento que o time frequentemente demonstra quando o camisa 10 exige a bola na intermediária. A poupança calculada por Cuca para preservá-lo para a Sul-Americana produziu, ironicamente, o melhor futebol santista em semanas.

O empate, porém, tem peso concreto na tabela. O Santos segue em 15º lugar com 14 pontos — apenas dois acima do Corinthians, que abre a zona de rebaixamento. A série sem vitórias chega a quatro partidas consecutivas quando somados Brasileirão, Copa do Brasil e Sul-Americana. Diógenes ainda operou um milagre em chute de Acevedo nos minutos finais para evitar derrota ainda mais dolorosa. O próximo capítulo chega rápido: na terça-feira, o Santos enfrenta o San Lorenzo em Buenos Aires pela terceira rodada da Copa Sul-Americana, com Neymar recolocado na equipe e o peso de um jejum que corrói.