O grito da Vila Belmiro engasgou aos 41 minutos. A bola sobrou para o lado esquerdo, o passe saiu rasteiro, e o Santos perdeu mais uma chance de virar o jogo. O nome que apareceu na jogada era o 32. Era B. Rollheiser.

O dia em que tudo mudou

A temporada 2023 foi o divisor de águas. No CONMEBOL Sudamericana, Rollheiser entregou números que poucos atacantes sul-americanos de sua geração conseguiram: 6 gols e 2 assistências em 11 jogos pela campanha do Estudiantes L.P. Para um jogador de 23 anos que até então havia marcado apenas 1 gol em 21 partidas pela Liga Profesional Argentina em 2022, foi uma virada de chave. Não gradual. Abrupta.

Naquele mesmo ano, somando Copa de la Liga Profesional e Sudamericana, foram 51 partidas pelo Estudiantes — volume raro para um jovem atacante em formação. A consistência de minutos, combinada com a eficiência continental, abriu a janela europeia. O Benfica bateu à porta.

Ir de Coronel Suárez, cidade de 45 mil habitantes na Província de Buenos Aires, para Lisboa é uma distância que vai além dos quilômetros — é algo parecido com a diferença entre Teresina e São Paulo em termos de escala de pressão e visibilidade. Rollheiser fez essa travessia com 23 anos.

Antes do divisor de águas

A formação de Rollheiser passou pelo River Plate, um dos celeiros mais exigentes do futebol sul-americano. Em 2021, com 21 anos, ele disputou 21 jogos pela Liga Profesional — sem marcar um gol sequer, mas com 1 assistência registrada. Havia também uma aparição na CONMEBOL Libertadores. Números discretos, mas o ambiente formativo do River tem peso próprio: passar por aquele elenco, naquele nível de cobrança, já é um filtro severo.

O salto para o Estudiantes em 2022 trouxe mais espaço. Outros 21 jogos na Liga Profesional, 1 gol, mais rodagem continental pela Libertadores. Era um atacante que acumulava experiência sem ainda explodir estatisticamente. O pico viria no ano seguinte.

No Benfica, a adaptação foi cautelosa. Ao todo, entre 2023 e 2024, foram 18 partidas pela Primeira Liga portuguesa, com 2 gols e 1 assistência. Mais 6 jogos pela UEFA Champions League, sem marcar. A Europa testou os limites do argentino — e o resultado foi honesto: presença, mas não protagonismo.

Como o futebol mudou ao redor dele

Chegou ao Santos num contexto de turbulência institucional e esportiva. O clube havia retornado à Brasileirão Série A após o rebaixamento de 2023, e a montagem do elenco misturou apostas de mercado com nomes de vitrine. Rollheiser entrou na conta dos reforços técnicos — um atacante com passagem europeia e currículo continental, ainda dentro da janela dos 25 anos.

Na temporada atual, os números são funcionais, não espetaculares: 36 jogos, 2 gols e 4 assistências. Seis participações diretas em gols. Para um atacante que não é centroavante referência, o dado de assistências importa tanto quanto os gols — e Rollheiser entrega o dobro de passes para gol em relação às finalizações convertidas. É um perfil de segundo atacante ou ponta criativa, não de artilheiro puro.

O contexto interno do Santos em 2026 torna essa leitura ainda mais relevante. Com Neymar de volta ao time titular e o vestiário em torno do camisa 10, conforme apontou o SportNavo em cobertura recente, Rollheiser opera numa zona de sombra: presente, participativo, mas não o nome que aparece nas manchetes. A matéria de 3 de maio já indicava que nem ele nem Gabigol foram suficientes para tapar o espaço deixado pelo craque baiano.

Esse papel de coadjuvante qualificado tem valor. Tem também um teto visível.

O próximo capítulo já começou

Rollheiser completa 26 anos em março de 2026. Está no que os analistas de futebol de base chamam de janela de consolidação — a faixa entre 25 e 28 anos em que um jogador precisa definir se será titular de clube grande, peça de rotação em time de ponta ou protagonista em mercado intermediário.

Os próximos 12 meses vão exigir uma resposta mais clara. O Santos precisa de produção ofensiva consistente para se firmar na parte de cima da tabela. Rollheiser, com seu histórico de pico na Sudamericana 2023, sabe o que é render em ambiente de pressão continental. A questão é se o Brasileirão vai tirar esse desempenho dele — ou se ele vai continuar sendo o nome que aparece nas jogadas, mas não nos gols que decidem.

Há cenários reais. Se o Santos avançar na Copa do Brasil ou em alguma competição continental, Rollheiser tem histórico de elevar o nível justamente nesses torneios. Se o campeonato nacional seguir como única frente, a cobrança por mais gols vai crescer. Dois tentos em 36 jogos é um número que, em qualquer análise criteriosa, pede evolução.

O dia em que tudo mudou Rollheiser e a distância entre o Benfica
O dia em que tudo mudou Rollheiser e a distância entre o Benfica

A trajetória de Coronel Suárez a Lisboa, e de Lisboa à Baixada Santista, não é uma linha reta. É um arco com picos, platôs e ainda espaço para uma curva ascendente. O próximo trecho depende do que Rollheiser decidir fazer com os minutos que o Santos ainda vai lhe dar.