Não foi a ausência de um líder emocional que paralisou o Santos no Allianz Parque. Foi a ausência de um criador de espaços — e essa distinção importa para entender por que o empate em 1 a 1 contra o Palmeiras, no último fim de semana, foi mais custoso do que o placar sugere.

O que aconteceu, exatamente

Neymar foi preservado pelo técnico Cuca por causa do gramado sintético do Allianz Parque. A decisão foi defensiva do ponto de vista físico — o atleta de 34 anos acumula histórico de lesões ligamentares e o piso artificial eleva o risco de impacto articular. Sem ele, o Santos entrou em campo com Rollheiser e Gabigol como referências ofensivas.

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O primeiro tempo indicou organização: o Santos jogou de forma direta e Rollheiser abriu o placar com chute potente de fora da área que o goleiro Carlos Miguel não conseguiu segurar. Um gol de eficiência bruta, não de construção coletiva — e essa é a diferença que o restante do jogo expôs.

Na segunda etapa, Abel Ferreira colocou Allan em campo. O meio-campista roubou a bola, lançou Andreas Pereira, que cruzou rasteiro para Flaco López empatar. Nos acréscimos, Allan ainda aproveitou rebote e finalizou com voleio — a bola desviou em Jhon Arias e entrou, mas o VAR anulou o lance. O placar ficou em 1 a 1.

Quem está envolvido

Reparemos no detalhe: Flaco López acumula 19 participações em gols pelo Palmeiras nesta temporada do Brasileirão, o maior número do elenco. Com Vítor Roque fora por lesão, o argentino tornou-se o principal ativo de ataque de Abel Ferreira — e já é monitorado pela comissão técnica de Lionel Scaloni para a Copa do Mundo.

Do lado santista, Rollheiser cumpriu sua função ao marcar, mas não tem o repertório de passe em profundidade que Neymar oferece. Gabigol, por sua vez, ficou isolado sem um meia de criação que o alimente entre linhas. A análise do Diario AS, veículo espanhol que cobriu o clássico, foi direta:

"O Santos sentiu a falta de seu principal jogador. Sem um líder claro no meio-campo, Rollheiser e Gabigol precisaram carregar o peso da equipe."

O Palmeiras também não brilhou. Segundo levantamento do SportNavo, o time de Abel Ferreira criou apenas três finalizações no alvo durante os 90 minutos regulares — número abaixo da média de 5,2 por jogo que o clube registra no Brasileirão até aqui.

O que aconteceu, exatamente Rollheiser e Gabigol não bastaram para t
O que aconteceu, exatamente Rollheiser e Gabigol não bastaram para t

Quando isso muda o jogo

A questão financeira por trás da preservação de Neymar não é trivial. O contrato do jogador com o Santos envolve estrutura de luvas e bonificações atreladas a metas de performance — e uma lesão muscular ou ligamentar poderia comprometer não apenas o calendário do clube, mas o valor de mercado do atleta, que o Transfermarkt ainda estima em torno de 8 milhões de euros apesar da idade.

Cuca, ao poupar Neymar no sintético, faz uma gestão de risco de ativo. O problema é que o Santos não demonstrou ter um plano B tático consistente. A ausência de um meia organizador gerou um vácuo no terço médio que Rollheiser e Gabigol não têm perfil para preencher — eles são finalizadores, não distribuidores.

Paulinho, que retornou após dois anos afastado por lesões, entrou no segundo tempo e mostrou lampejos: quase marcou de primeira, com a bola raspando a trave. Mas não tem condições físicas de atuar como titular por 90 minutos ainda.

Por que agora

A questão do gramado sintético não é nova, mas ganhou relevância sistêmica com o calendário do Brasileirão 2026. O Allianz Parque, estádio do Palmeiras, mantém o piso artificial — e o Santos terá de jogar ali ao menos mais uma vez na fase de grupos. Cada vez que o confronto cair nesse estádio, Cuca enfrentará o mesmo dilema de gestão de escalação.

A avaliação do SportNavo mostra que, nos três jogos em que Neymar ficou fora do Santos nesta temporada, o clube somou apenas um ponto em nove possíveis. Quando ele jogou, o aproveitamento sobe para 61%. São dados que expõem uma dependência estrutural que nenhuma contratação de Rollheiser ou Gabigol resolve no curto prazo.

"Sem brilho e criando poucas oportunidades, a equipe de Abel Ferreira sentiu a falta de um jogador diferente para desequilibrar", escreveu o Diario AS — frase que, curiosamente, poderia descrever os dois times com igual precisão.

O Santos volta a campo na próxima rodada do Brasileirão com Neymar esperado de volta ao time titular — desde que o estádio adversário tenha gramado natural. O aproveitamento do camisa 10 em jogos fora de casa em 2026 é de 55%.