Todo mundo já sabe o que Ronaldinho pensa sobre Neymar na Copa do Mundo. O que pouca gente percebeu é que a fala mais reveladora do debate saiu da boca de um jovem de 19 anos que preferiu não bater no peito — e esse silêncio calculado diz mais sobre o momento da Seleção do que qualquer lobby declarado.
A narrativa do coro unânime que não existe
Circulou nos últimos dias a ideia de que os grandes nomes do futebol brasileiro estariam alinhados em defesa da convocação de Neymar para o Mundial. Casemiro e Raphinha de fato se manifestaram a favor. Ronaldinho Gaúcho foi ainda mais direto, em conversa com Denílson num programa da TV Globo:
"Com todo respeito, mas é o melhor deles todos. Para mim, na minha opinião. Só se ele tiver problema de lesão. Agora, ele estando bem, não tem como, né?"
A declaração do Bruxo tem peso histórico inegável — ele próprio disputou a Copa de 2002 como protagonista absoluto, marcando dois gols na final contra a Alemanha no Yokohama. Mas o coro que parecia uníssono encontrou uma voz fora do compasso quando Endrick falou à revista Placar.
O recuo de Endrick e o que ele revela sobre o vestiário
O atacante do Lyon, que soma oito gols e seis assistências em 19 jogos na atual temporada da Ligue 1, não fechou a porta para Neymar — mas não a abriu com entusiasmo. Seu discurso foi de deferência técnica ao treinador, não de camaradagem corporativa:
"Eu não tenho uma decisão muito formada. A gente sabe que o Neymar é o Neymar, é um grande jogador. Eu pude ver o jogo dele contra o Atlético-MG e a gente vê que é um jogador incrível. Que Deus possa abençoá-lo no dia 18. Mas, claro, primeiramente que seja feita a vontade de Deus, depois do Ancelotti."
A menção a Deus antes de Ancelotti pode parecer protocolar para quem não conhece o ambiente da Seleção, mas o jovem foi preciso ao devolver a decisão ao técnico — um movimento que Casemiro e Raphinha, veteranos com Copa na bagagem, não fizeram. Endrick, que entrou nos últimos 14 minutos do amistoso contra a Croácia na última Data Fifa e ainda assim sofreu pênalti e deu uma assistência, sabe que sua própria vaga não está garantida. Não é ingenuidade. É leitura de campo.
O peso da história e o que Ancelotti não pode ignorar
A comparação que Ronaldinho faz entre Neymar e os demais atacantes disponíveis tem fundamento técnico, mas a história das Copas brasileiras ensina que talento individual raramente vence o argumento da condição física. Em 2002, Luiz Felipe Scolari resistiu à pressão monumental por Romário — artilheiro histórico com 55 gols pela Seleção — e o deixou fora do Mundial do Japão e Coreia. O Brasil conquistou o pentacampeonato com Ronaldo Fenômeno marcando oito gols, incluindo dois na final. A decisão do técnico prevaleceu sobre o lobby.
O contexto de Neymar em 2026 é distinto e mais delicado. O camisa 10 do Santos convive com sequência de lesões desde a ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo, em outubro de 2023, que o tirou do restante daquela temporada no Al-Hilal. No Brasileirão atual, o Santos ainda não venceu na CONMEBOL Sul-Americana, e o clube luta para se afastar da zona de rebaixamento. Neymar ainda se envolveu em polêmica pública com Robinho Jr., episódio que repercutiu negativamente e pesou na avaliação da comissão técnica. Rodrygo já está oficialmente fora da Copa, e Estêvão segue como dúvida para a lista final, o que altera o cálculo de Ancelotti sobre o perfil dos convocados.
A Copa do Mundo começa em junho, e Ancelotti divulga a lista de convocados em 18 de maio — dez dias a partir de hoje. Neymar tem 34 anos.









