Um atacante que vale mais do que seus gols — e cujos gols, ainda assim, nunca foram suficientes para calar os críticos.
Onde ele está no jogo global
Rony Ronielson da Silva Barbosa chegou aos 31 anos em uma posição que poucos esperavam para ele: titular da camisa 11 do Santos no Brasileirão Série A de 2026, com 35 jogos disputados na temporada atual. Para um atacante nascido em Magalhães Barata, no Pará, que percorreu o caminho longo entre o interior brasileiro e a Seleção Brasileira principal, essa presença constante diz mais do que qualquer linha de estatística isolada.

Convocado pela primeira vez para a Amarelinha em março de 2023, pelo técnico Ramon Menezes, Rony estreou como titular no dia 25 daquele mês em Tânger, numa derrota por 2 a 1 para Marrocos. A estreia foi discreta — o Sofascore registrou a nota 6,1, a pior entre os brasileiros naquela noite. Mas o fato de ter sido convocado e escalado como titular, independentemente do resultado, já sinalizava o reconhecimento de um perfil tático específico: velocidade, mobilidade, capacidade de pressionar linhas defensivas e contribuir fora da posse de bola.
O que os números dizem na comparação
Em 35 jogos pelo Santos nesta temporada, Rony acumula 4 gols e 2 assistências. Numa leitura fria, a média ofensiva direta fica em aproximadamente 0,11 gols por jogo — um número que, para um atacante de lado ou centroavante, está abaixo do patamar considerado de alto rendimento no Brasileirão. Para contexto: atacantes titulares da Série A que disputam posições similares costumam operar entre 0,25 e 0,40 gols por jogo nas campanhas mais produtivas da elite nacional.
Mas a comparação puramente por gols distorce a leitura. Segundo apuração do SportNavo com base no perfil de jogo descrito por analistas ao longo de sua carreira, Rony é um jogador construído para ocupar espaços, pressionar saídas de bola e criar desequilíbrio antes da finalização — funções que raramente aparecem no placar, mas que estruturam as jogadas que terminam em gol. As 2 assistências nesta temporada são um reflexo parcial disso; a movimentação que libera o espaço para o companheiro, não.
O perfil tático em números
- 35 jogos disputados na temporada atual pelo Santos — presença de titular consistente
- 4 gols e 2 assistências — participação direta em 6 tentos
- 167 cm e 65 kg — físico compacto, mais próximo do extremo do que do centroavante clássico
- Camisa 11 — numeração historicamente associada ao ponta esquerdo de velocidade
Onde ele se distingue dos rivais
A trajetória de Rony pelo Athletico Paranaense foi o primeiro laboratório real de suas qualidades. Atuando como ponta pelo lado esquerdo, ele foi líder de assistências do clube em 2019 — dado que estabelece um benchmark claro sobre sua capacidade de criação quando bem posicionado no sistema tático. O problema sempre foi a consistência das finalizações, algo que as próprias torcidas cobraram ao longo dos anos com insistência.
A virada de chave aconteceu no Palmeiras, sob Abel Ferreira. O técnico português o reposicionou como centroavante e passou a utilizá-lo nos chamados "ataques de profundidade" — movimentos em diagonal ou em linha reta buscando o espaço deixado pela defesa adversária. O resultado foi um aumento significativo na produção de gols entre 2020 e 2022, período em que Rony viveu o auge de sua carreira. Antes de Abel, quando Vanderlei Luxemburgo o treinou no Palmeiras, o próprio técnico apontou publicamente que o atacante teria dificuldades contra defesas fechadas — um diagnóstico honesto sobre um jogador formatado para o contra-ataque, não para o jogo de construção lenta.
No Santos de 2026, Rony opera num clube que retornou à Série A depois do rebaixamento de 2023 e ainda constrói sua identidade tática. Para um atacante de seu perfil — veloz, intenso, mais eficaz em transições do que em posse prolongada —, o contexto santista pode ser tanto uma limitação quanto uma oportunidade, dependendo do espaço que o sistema oferecer para seus movimentos de ruptura.
A trajetória que aponta o teto
Rony completará 31 anos em 11 de maio de 2026. Não é um veterano em declínio, mas tampouco está no pico físico que definia suas corridas pelo lado esquerdo no Athletico-PR ou os ataques em profundidade pelo Palmeiras. A janela produtiva de um atacante de velocidade tende a se estreitar a partir dos 30, e o dado de 4 gols em 35 jogos nesta temporada aponta para um jogador que ainda entrega volume de jogo, mas cuja eficácia nas conclusões segue sendo o calcanhar de Aquiles histórico de sua carreira.
O que os próximos 12 meses reservam para ele depende, em grande medida, de como o Santos organizará seu ataque ao longo do Brasileirão. Se o clube encontrar um sistema que explore transições rápidas e criação de espaços — o ambiente onde Rony sempre rendeu mais —, há cenário para ele encerrar 2026 com números mais expressivos. Se o time optar por uma construção mais pausada, os números desta temporada devem se manter no mesmo patamar.
O paradoxo com que esta matéria começa tem uma resolução concreta: Rony é um atacante cujo impacto no jogo sempre superou sua linha de gols — mas em algum momento da carreira, principalmente entre 2020 e 2022 sob Abel Ferreira, os gols também apareceram. A questão agora é se, aos 31 anos, ele consegue fazer as duas coisas convergirem de novo. A resposta está nos próximos 35 jogos.








